Gilberto Mendonça Teles, presença luminosa na literatura e na crítica literária brasileiras

GMT múltiplo: letrista (parceria em dezenas de músicas), incentivador dos iniciantes na literatura, entusiasta da cultura popular, poeta e crítico literário

Lêda Selma

Luiz Otávio Oliani, professor e escritor, em prefácio do livro de Gilberto Mendonça Teles, “Caixa de Fósforos II”, disse que “a obra, ainda que denominada de ‘Poemas Circunstanciais’, não foge à regra da literatura de alta voltagem”.

Para ilustrar o que disse o prefaciador, escolhi “Caixa de Fósforo II”, acendi alguns palitos e encontrei vários tons e sons, como se mágicos, no traquejo com as figuras de linguagem, trocadilhos, humor, com e sem ironia, a mesma estética linguística, o cunho da inovação, destacadas características da poesia de Gilberto.

Os “poemas circunstâncias”, assim nominados pelo próprio Gilberto, são retalhos de carinhos, de gratidão, em moldes de dedicatórias, oferecidos aos amigos, colegas, admiradores, de certa forma, seus inspiradores circunstanciais… E, dentro da “Caixa de Fósforo II”, tons e sons, vermelho-carmim, creio, em harmonia como se corpos e almas em conjunção de amor. Cadência de jogos polissêmicos brincam com as palavras: “Se sou teu muso branquelo,/tu és a rosa morena:/ mas talvez não vale a pena/atirar com meu pinguelo”. (Lundu).

Um outro palito ilumina um estado de descontração, de informalidade, cheiro de rosa-corado, que, penso, seja o tom do carinho e da afeição: Meu peito bate, bate e logo timbra/de emoção toda semana:/todos sabem nas ruas de Coimbra/que vou ver Liliana. (No Congresso de Coimbra). Sons e tons, em sinestesias azul-mistério, esvaídos de um bico: Pegue uma imagem e alise-a,/trate-a com muito carinho,/e ouvirá na imagem, Nysia,/ o canto de um passarinho (Nysia Helena). O tom do humor, imagino-o amarelo-solar: Na Saciologia/a perna do Saci/vai até Montes Claros/procurando pequi.// Vai pulando, não caminha,/ mas seu rastro é sim e não,/silhueta de Meirinha/no fundo do coração. (“Saciologia Goiana”, 7ª edição).

Pois é, poeta Gilberto, você diz com muita propriedade e sensibilidade, na primeira estrofe de “Melopeia: “Demorou a perceber que o poema/é feito de sons — a música da língua/aciona o intervalo da linguagem”. E, na última, o belo fecho que abraça o poema: E assim conclui que o poema é uma forma/ de ver e ao mesmo tempo de ouvir/ o mais puro sentido — tato olfato e o gosto/ de falar e beijar a beleza do teu rosto.

Gilberto Mendonça Teles; professor, poeta e crítico literário | Foto: Reprodução

Fecho a “Caixa de Fósforo”, porém, mantenho os palitos acesos para que iluminem o cerrado, onde buscarei o Lirismo Rural com outros tons e sons gilbertinos (neologismo da crítica literária e acadêmica Maria de Fátima Lima): Entre o rumor e o murmúrio:  “Com a chegada das chuvas/um vento frio arrepia o silêncio/das coisas invisíveis. (…) Algo está falando em voz baixa:/no estalido da madeira, no rangido do vento,/no brilho do pingo d’água na touceira/do capim gordura/no boato anônimo,/e no cochicho da inquietação/que se alastra, em murmúrio (…)

Mais um palito aceso e encontro em Linear G: Era um sujeito sério e tímido, meticuloso como ele só./Tinha a cor de burro fugido/e a paciência dos velhos jacarés/chocando o sol.//À noite, colhia abóboras/e, de cócoras,/recolhia meticulosamente/as galinhas de angola/ que gritavam, fracas, fracas/no fundo do quintal (De cócoras).

Encerro o pequeno passeio gilbertono, curtindo as trilhas em que a poesia se faz lúdica, despretensiosa e diverte-se com interessantes metáforas e neologismos brincalhões. Uma poesia sem salto alto, de short e rasteirinha, mas, sempre, elegante, poesia com P maiúsculo e alta voltagem. Padrão Gilberto Mendonça Teles, que lavra a fala da palavra poética, expondo-a em seu livro Falavra: E sei da fala e do ato de lavrá-las na falavra.

Intelectual, escritor, notável na poesia e destacado na crítica. Eminente conferencista. Professor Emérito, Doutor Honoris Causa, aqui e alhures. Consagrado por inúmeros e importantes prêmios, distinções, troféus e comendas nacionais e internacionais. Imortalizado pela sua valorosa obra, e por academias, dentre tantas, a Academia de Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Filologia, Academia Brasileira de Filosofia, Academia Carioca de Letras e Academia Goiana de Letras/AGL, da qual é seu decano (59 anos de vida acadêmica). Em 2017, a AGL homenageou-o com o Ano Cultural Acadêmico Gilberto Mendonça Teles, a mais elevada honraria da Entidade e uma das mais expressivas do Estado. Interessante: em sua posse à Cadeira Nº 11, dia 11 de março de 1962, Gilberto foi recepcionado, com belo e profético discurso, pelo acadêmico Victor de Carvalho Ramos (irmão do notável autor de “Tropas e Boiadas”, Hugo de Carvalho Ramos, patrono da Cadeira nº 14, da qual Victor é o fundador e eu, atual ocupante). E, no decorrer de sua oratória, Victor vaticinou a ascensão de seu recipiendário à galeria dos expoentes da literatura brasileira. E estava certo, embora Gilberto tenha empreendido decolagens e pousos bem mais longos: além de referência nacional, transpôs inúmeras e importantes fronteiras com sua arte literária em tonalidades críticas e poéticas. E, mundo afora, é reverenciado em monografias, teses e estudos Pós-Doc.

O Gilberto Mendonça, com mais de sessenta livros, proclamado pela Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás/AFLAG, “Príncipe dos Poetas Goianos”, é demais conhecido e condecorado em vários cantos do mundo. Mas há outros gilbertos…

 

Gilberto Mendonça Teles: um dos principais exegetas da poesia de Carlos Drummond de Andrade | Foto: Reprodução

Gilberto sem paletó e gravata

Se é notório o orgulho dos goianos pelo Gilberto ilustre, se é admirável sua obra, e instigante sua poesia, imaginem a alegre surpresa de conhecer o Gilberto sem paletó e gravata. Simples, informal, sem o emblema que o notabilizou. O Gilberto que para na rua, aprecia e compra cordéis de um humilde desconhecido e, anos à frente, ao reencontrá-lo, e já reconhecido seu talento poético e a farta produção cordelística, incentiva-o a candidatar-se a uma cadeira na AGL. E o poeta candidatou-se e foi eleito.

Gilberto letrista (parceria em dezenas de músicas, com os goianos Nasr Chaul, Fernando Perillo, Marcelo Barra, José Eduardo…), incentivador dos iniciantes na literatura, entusiasta da cultura popular, apreciador de uma gostosa cachaça, agradável conversa e boa música, quer em casas de amigos, quer em barzinhos e restaurantes.

Gilberto em manga de camisa. De bermuda. Cheio de dengos pelo Rio Araguaia. Afeiçoado às pescarias. Gilberto surpreendente: em certa manhã, dentro do barco, no beiral de um barranco na região do Landi (nome de árvore frondosa, em resina amarelo-esverdeada, flores brancas e aromáticas), de tocaia, à espera do peixe, compôs singelo e carinhoso poema para o barqueiro, também, caseiro do nosso Rancho Apolo, recanto abençoado, que tem o majestoso Araguaia a seus pés, e um deus sol enorme coroando-o. A delicadeza do carinho gilbertino limou tanto o orgulho do Edson que ele decorou os versos para propagá-los, no vilarejo, como símbolo de sua importância. E a simplicidade do Edson consagrou o poeta, sob a unção do Araguaia.

Gilberto anfitrião, amigo, prestativo, amante da vida e do amor. Gilberto inquieto, renovador, que gosta de experimentações poéticas, de recriações, do traquejo livre com as palavras e sentidos, libertando-os das grades linguísticas e semânticas, com ousadia e astúcia, todavia, sem desrespeitar ou agredir o idioma. É cultor da língua portuguesa.

Gilberto que pincela no poema o cheiro e as cores da natureza. Que se encanta ao colher um cacho de ipê, que pisa nas estrias da terra, adentra as peculiaridades e riquezas do Cerrado e, com instigante lirismo rural, dá vida, voz e poesia aos pássaros, flores, pedras, inventa o personagem Sereno, homem simples, porém, rico em crenças e de fartos hábitos singulares.

Gilberto dos poemas com sabor goiano. Que amarela os dedos para saborear o pequi. Que curte tardes e noites goianas, em encontros com os companheiros de copo, de prosa e de literatura. Gilberto libertário, prazenteiro, trocista. Gilberto da Maria, a parceira de sempre, Maria de todos os seus andores, de todos os seus ardores, de todos os seus amores.

Gilberto de Bela Vista. De Goiás. Do Rio de Janeiro. Do mundo.  Da vida. Na jovialidade de seus 90 anos. Gilberto, simplesmente. Que também merece ser conhecido e admirado.

Parabéns, amigo! Sua bênção, mestre!

Lêda Selma é poetisa, cronista, contista, ex-presidenta da Academia Goiana de Letras (AGL). É colaboradora do Jornal Opção.

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