Funk: de perseguido a hegemônico

Entenda como estilo central da música brasileira recente continua sendo periférico

O primeiro disco brasileiro de funk completa 30 anos em 2019

Falar sobre funk com seriedade não é para quem gosta de funk, pois o gênero se beneficia da irreverência. Principalmente quem não gosta do estilo tem de saber que opositores tentam ignorá-lo e criminalizá-lo desde sua chegada ao Brasil, em meados da década de 1970. Hoje, o canal no YouTube da produtora de funk KondZilla tem 1,14 bilhões de acessos por mês – 15% da população mundial. Pode-se dizer, portanto, que o funk venceu por mérito próprio e a intelectualidade, veículos de comunicação e a elite começam a ser forçados ouvi-lo.

Isso não significa ser obrigado a gostar, apenas compreender que as justificativas dadas para depreciar o estilo não o explicam satisfatoriamente. De 1987 a 1990, Hermano Vianna frequentou os bailes cariocas para escrever sua tese de mestrado em Antropologia Social (“O Mundo Funk Carioca”, de 1988) e diversos artigos científicos (como “Funk e Cultura Popular Carioca”, de 1990). Ele encontrou que, de sua origem até hoje, existem características centrais preservadas que explicam sua popularidade, apesar das mudanças estéticas.

Funky Yankee

Na década de 1970, o estilo que era trilha sonora dos movimentos negros norte-americanos encontrou simpatizantes no Rio de Janeiro. As equipes de som que faziam os bailes do movimento (que ficaria conhecido como Black Rio) contrabandeavam os LPs de Miami ou Nova York. Imitando o formato dos bailes inventados por Kool Herc, o DJ era a figura central, a decoração era mínima, a música incitava interação da plateia, os dançarinos se vestiam de forma espalhafatosa e combinavam os passos. Ainda nos anos 70, o precursor do funk passou pelo primeiro escrutínio estatal, com investigações de subversão pelas autoridades da ditadura.

Na década de 1980, o estilo incorporou baterias eletrônicas, sintetizadores e presets de Roland TR-808. Na época em que Hermano Vianna fazia sua pesquisa, a principal crítica ao gênero seguia as linhas da Escola de Frankfurt. O funk seria um plano imperialista yankee para a alienação do povo, em oposição à cultura carioca genuinamente popular (samba e futebol). Os problemas dessa tese são óbvios: primeiro porque o hip hop daria uma péssima propaganda cultural, já que artistas eram críticos do american way of life, e depois porque o funk era muitíssimo popular.

O antropólogo contou em 1987 seiscentos bailes funk atraindo um público de mais ou menos um milhão de pessoas por fim de semana. O que a tese da “cultura popular verdadeira” versus “indústria cultural alienante” esconde é que muitos movimentos culturais começam em oposição ao cenário vigente. As emissoras de televisão, rádio e os jornais não anunciavam os bailes, mas estes permaneciam lotados. As canções não eram trilha de filmes ou telenovelas. A indústria fonográfica americana não fazia ideia do enorme mercado escondido no Rio de Janeiro e, por isso, não era veiculado marketing dos discos.

Baile funk “Canto do Rio”, realizado em Niterói, 1987 | Foto: Hermano Vianna, disponibilizada em seu site
“É som de preto, de favelado”

Contrariando a teoria de uma indústria cultural coerente que transmite os valores da “classe dominante” através de seus produtos, o funk parecia uma expressão musical do povo para o povo, sem interferência ideológica. Neste ambiente ignorado pela mídia, o gênero cresceu e desenvolveu uma linguagem. A estética de música feita em casa, de diálogo com moradores do bairro, de simplicidade cujo único objetivo é fazer dançar, tudo isso nasceu nos anos 1970 e até hoje cativa ouvintes. A sensação de acessibilidade, de que você também pode se tornar um MC, parece ter provado seu valor principalmente em favelas onde faltam oportunidades.

Hoje, marcado pelo atabaque e pelo ritmo afro brasileiro Maculelê, ninguém acusaria o funk de ser americano. A crítica recai então na composição: harmonia pobre, com melodias ingênuas, ritmo repetitivo; é por isso que samba é bom e funk é ruim. Pode ser, dependendo de seu gosto, mas então como se explica a rápida e explosiva aceitação de gêneros de música eletrônica, como Drum ‘n’ Bass, House e Electro? Afinal, eles compartilham com o funk a pobreza melódica, rítmica e harmônica.

A explicação de Hermano Vianna é que “a aceitação de determinado estilo musical não depende de características intrínsecas desse estilo, mas sim do contexto social e cultural onde ela acontece”. Corrobora a tese de Vianna exemplos como o hip hop, originado no então violento bairro do Bronx mas que obteve sucesso na mídia com os brancos Beastie Boys; ou o Rock n’ Roll negro de Jackie Brenston, popularizado por Elvis Presley; ou ainda o samba, jazz e blues, que também tiveram origens negras e periféricas, mas que após anos de aclimatação se tornaram estilos considerados sofisticados e até elitistas.

1976, LP Coletânea da Soul Grand Prix, a equipe de som que realizava os bailes
Proibidão

Semelhantemente ao que aconteceu a esses outros estilos, o funk foi combatido por força de lei. Em 1995, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito municipal para investigar a ligação do funk com o tráfico de drogas, sem que fossem encontradas provas do vínculo direto da música com o crime. Em 2013, Haddad (PT) vetou um projeto de que tentava proibir bailes Funk em São Paulo. Novamente, em 2017 um projeto de iniciativa popular para proibir o funk chegou ao Senado, onde foi considerado inconstitucional pelo senador Romário (Podemos), que entendeu que a proposta feria a livre manifestação cultural e de pensamento.

Os argumentos em geral são direcionados às letras obscenas e apresentados como defesa o público contra a “mídia” . A produtora Furacão 2000 foi condenada pelo TRF-4 a pagar meio milhão de reais ao Fundo Federal de Defesa dos Direitos Difusos da Mulher pela música “Tapinha” de 2001. A justificativa dada pelo desembargador federal Luiz Alberto d’Azevedo Aurvalle, foi de “abominável incitação à violência de gênero ou aval a tais criminosas e nefastas condutas. […] sob pena de o cidadão ficar refém de mídia onipotente, visando apenas ao lucro, sem o cumprimento de escopos coletivos”

O desembargador não pareceu compreender que há muita pouca mídia envolvida na produção e distribuição do funk. Que, segundo Hermano Vianna, essa é cada vez mais independente e descentralizada. Logo, o que parece é que o estado está tentando tutelar a sociedade, desconhecendo a cultura do povo que jurisdiciona, dizendo quais práticas sexuais consentidas são toleráveis. A letra deste funk não é mais explícita do que “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque. Qual lição de moral deve-se colocar ao fim da música para que ela seja aceita? Não seria suficiente que certas músicas fossem tocadas apenas depois de determinadas horários para um público adulto?

O questionamento não tem resposta, porque a punição tem a ver com a música em si, mas com sua estética e seu contexto. Portanto, defender a criminalização de um estilo musical é errar o alvo, já que todos os incômodos que a sociedade sente quanto ao funk vêm na verdade de características sócio-culturais. Não se esqueça de que muitos estilos considerados sofisticados, como jazz e blues, já discorreram em primeira pessoa sobre pobreza, obscenidade, violência e drogadição (“Butcher Pete”, de Roy Brown, que descreve um homicídio; ou “Whoopee Blues” de King Solomon, de 1932, que fala sobre traição e punição). E, abrindo as portas para a censura, ela pode se voltar no futuro contra o discurso do seu estilo favorito.

Entenda, passo a passo, como o funk se tornou o que é

A origem do funk está no soul da década de 1940: uma fusão do rhythm and blues com o gospel protestante que tem Wilson Pickett, Sam Cooke e Ray Charles como grandes representantes. A primeira vez que o termo funky (fedorento) foi utilizado para descrever o estilo foi pelo pianista de jazz Horace Silver, na década de 50.

Nos anos sessenta, o estilo se tornou progressivamente mais suingado, com baixo e bateria (groove) fortes, uso de polirritmia, letras ou obscenas ou defendendo a conscientização racial. Kool & the Gang, James Brown, Earth Wind and Fire são os mais conhecidos músicos internacionais. Gerson King Combo foi o primeiro a trazer ao Brasil o estilo, com o álbum de 1969, Brazilian Soul.

No início dos anos setenta, Tim Maia, Carlos Dafé, Tony Tornado e Soul Grand Prix representaram o movimento Black Rio. Nos Estados Unidos, o hip hop nasceu quando Kool Herc levou da Jamaica um sistema de som que possibilitou o surgimento do DJ como figura central dos bailes. Grandmaster Flash criou efeitos como o scratch. A canção que define o estilo é “Rapper’s Delight”, de The Sugar Hill Gang.

A década de 1980 é a chave para compreender como o funk brasileiro ficou tão diferente do americano. As equipes de som Furacão 2000 e Soul Grand Prix traziam discos do ritmo Miami Bass ao Brasil, mas anunciavam a música pelo título “pancadão”, ou “batidão”, ou “baile da pesada”. As equipes, que queriam hits exclusivos para animar as festas, rasgavam as capas dos LPs para que os concorrentes não descobrissem qual música tocavam. Até então, as músicas eram mixagens das americanas. O público, que não falava inglês rebatizava as músicas, como “the Beat is Fresh”, que virou “melô do peixe”

DJ Marlboro foi o primeiro a gravar um álbum de funk em português, em 1989. O álbum vendeu mais de 250 mil cópias, conseguindo um disco de ouro sem marketing algum da gravadora Polygram. “Melô da Mulher Feia”, “Melô do Bêbado”, “Feira de Acari” são alguns dos hits da época. Segundo Hermano Vianna, a temática do orgulho negro desapareceu dos bailes, “as pessoas estavam ali para dançar e não para ouvir discursos”.

Nos anos noventa, o ritmo “Tamborzão” (atabaque) substituiu a batida clássica do funk “Volt Mix”. As letras se tornaram mais obscenas e os bailes deixaram o asfalto do subúrbio carioca para subir as favelas. Nesta época também o estilo foi associado ao crime organizado, à confusão e violência. Em 2000, houve um destaque para as mulheres funkeiras, como Tati Quebra Barraco, Deize Tigrona e Valesca Popozuda. Os hits “Cerol na Mão”, “Tapinha não dói”, “Eguinha Pocotó” foram os maiores sucessos da década.

Na década de 2010 as características mais marcantes são o uso do ritmo afro brasileiro Maculelê, frequentemente feito com vocais, e a mudança temática. O funk ostentação tomou emprestado do rap americano as letras aspiracionais, de esbanjamento, e passou a celebrar mulheres, carros importados, roupas de marca. Esta foi a marca cultural do breve período ascensão econômica e maior poder de consumo do início da década. Por fim, o mercado fonográfico tradicional abriu espaço para cantores como Anitta e Ludmilla, que unem elementos do funk à características clássicas do pop já aceito.

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