Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Fundamentos da liberdade (1)

Pergunte a um conservador brasileiro quem é João Camilo de Oliveira Torres. Provavelmente, nove em cada dez leitores ditos conservadores conhecem Russel Kirk e não conhecem o João Camilo. O fato é que o redivivo movimento conservador brasileiro, que é “uma floresta densa”, para utilizar a expressão do filósofo Luiz Felipe Pondé, tem novidades editoriais e alguma discussão, que deve ser aprofundada com a eleição de Jair Bolsonaro para presidente da República

João Camilo merece ser considerado "o fundador do moderno conservadorismo brasileiro"

João Camilo (1915-1973) merece ser considerado “o fundador do moderno conservadorismo brasileiro

Como os conservadores brasileiros estão lendo João Camilo? Tê-lo-iam lido?
Uma edição muito bem-feita de “O Elogio do Conservadorismo ”, de autoria de João Camilo foi lançada em 2016, e merece ser mais discutida entre nós leitores e entre os multiplicadores de opinião. No YouTube apareceram alguns comentários, incluindo um muito bom do próprio prefaciador desta obra ora em retrospectiva.

No prefácio ao “Elogio”, o mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, Sr. Bruno Garschagen destaca que “é fácil apontar os cânones do conservadorismo em vários países”, mas no Brasil, “a não ser em círculos bastante restritos, a resposta viria em forma de silêncio ou de equívoco”.

O Sr. Garschagen informa que “houve notáveis representantes do nosso conservadorismo, como o Visconde de Cairu, o Visconde do Uruguai, Marquês do Paraná, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Pimenta Bueno, o Barão do Rio Branco”; mas destacadamente, João Camilo, a quem ele sugere “que seja considerado o fundador do moderno conservadorismo brasileiro”.

O “Elogio” é um livro de artigos de João Camilo, tirados da profícua carreira de colaborador jornalístico que manteve o Autor. O professor Daniel Fernandes organizou o livro em duas partes, com sessenta entradas, sendo os temas divididos em I. A Política Conservadora (Ser é persistir); e II. Espírito e Cultura (Viver é despedir-se) – a primeira, privilegiando a esfera política; a segunda, dedicada às esferas da cultura e da religião; ambas com alentadas notas de rodapé, que situam os artigos em seu contexto histórico e com ricas referências bibliográficas.

O livro tem um caráter didático, pois vai levando o leitor a uma valoração dos temas através de uma “descrição axiomática e não normativa do que é conservadorismo”. Nesse sentido, o leitor afeito a ler Francisco Suárez, Hernshaw, o Cardeal Newman, Russel Kirk, Oakeshott e Edmund Burke, encontrará no “Elogio” uma correlação, um diálogo do pensamento conservador brasileiro com as vertentes britânica e norte-americana.

João Camilo de Oliveira Torres nasceu na terra do poeta Drummond, Itabira do Mato Dentro (MG), em 31 de julho de 1915; formou-se em Filosofia na extinta Universidade do Distrito Federal, na então capital do país (Rio de Janeiro) e foi professor de Ética na Faculdade de Filosofia da Federal de Minas Gerais e da Universidade Católica de Minas Gerais, mas foi sua profícua colaboração em jornais e revistas que deixou o legado do pensador e do “verdadeiro grafômano” que foi o mestre João Camilo.

Tendo deixado cerca de quarenta livros publicados, tem o leitor contemporâneo uma visão do João Camilo articulista, numa coletânea de artigos, alguns inéditos e outros tirados de revistas e livros que hoje nem sempre são de fácil consulta ao estudante do conservadorismo.

Retomando uma afirmação de Alceu Amoroso Lima, feita na extinta revista “A Ordem”, da fundação Dom Vital (1939), o professor Daniel Fernandes destaca que “há que se reconhecer que os valores conservadores não são alheios à nossa formação e vivência culturais, eles são valores do nosso próprio povo, valores da gente simples e humilde, que não entende nada de economia, mas entende imediatamente a linguagem da moral, da religião, das tradições” e arremata:

“Somos um povo eminentemente conservador, amigo de situações estáveis e duradouras. Somos tradicionalistas sem esforço. Nosso maior problema talvez seja o fato de que a própria tradição do pensamento conservador no Brasil ainda seja bem pouco elaborada.”

E para que essa elaboração do pensamento se dê, é importante que um livro como este seja lido, debatido e divulgado aos mais jovens leitores da atualidade, pois, assim creio eu, fazendo coro ao prefaciador que pode tornar-se “um inestimável contributo à restauração qualificada e a devida divulgação e atualização do pensamento Conservador no Brasil”, sem as caricaturas que dele têm feito alguns personagens de nossa política partidária.

O professor Daniel Fernandes afirma que João Camilo foi “um homem de vasta cultura, impregnado do espírito universitário, cujos atributos [o Cardeal] Newman tão exatamente caracterizou – liberdade, equilíbrio, calma, moderação e sabedoria –, João Camilo de Oliveira Torres personificou como ninguém o espírito conservador entre nós brasileiros”.

Além disso, João Camilo foi “um homem da Igreja, católico, na mais rigorosa significação do nobilíssimo termo” e, acima de tudo, um divulgador do pensamento pontifício sobre as questões sociais e sobre a participação dos católicos na política: “Uma grave responsabilidade pesa sobre os ombros do intelectual católico, principalmente se leigo e desligado das funções em organismos oficiais: a de discutir os problemas especificamente políticos.”

Ao interessado em aprofundar o tema, deixo uma lista básica para destrinchar essa “floresta densa” (a lista foi elaborada pelo professor Daniel Fernandes):
1. Edmund Burke, “Reflexões sobre a Revolução em França”. 2. Michael Oakeshott, “Ser conservador”. 3. Roger Scruton, “O que é conservadorismo”. 4. Roger Scruton, “Como ser um conservador”. 5. Russell Kirk, “A política da prudência”. 6. João Camilo de Oliveira Torres, “O elogio do conservadorismo e outros escritos.” 7. João Pereira Coutinho, “As ideias conservadoras.”

Foto: Domínio público

E para fechar esta pequena introdução a um tema a que devo retornar em breve, fiz três perguntas ao professor Daniel Fernandes, organizador de “O elogio do Conservadorismo”, de João Camilo de O. Torres. Confira:

Destarte: Você disse que o Brasil não tem um partido e não possui uma ação conservadora na Política (2016). E hoje, qual sua posição?

Daniel Fernandes: Tive que mudar de posição. De lá para cá, as coisas mudaram muito para nós. Até então, éramos milhões de pessoas à espera de alguém que nos representasse na política. Bolsonaro foi anunciado como pré-candidato à Presidência do Brasil em março de 2016, mas ninguém tinha certeza de que realmente seria candidato. Só que para a “surpresa” de muita gente, ele se tornou o grande favorito e acabou vencendo. Mas sua vitória não seria possível sem uma onda conservadora no Brasil. Não existiria Bolsonaro presidente sem o trabalho intelectual desenvolvido pelo filósofo Olavo de Carvalho. Foi a partir dele que conservadorismo brasileiro ressurgiu como força política relevante. A História não é a biografia dos indivíduos, embora grandes, mas a biografia das grandes ideias colocadas em ação.

Destarte: Você é um historiador e professor. Qual a sua perspectiva diante de um governo que assume com uma agenda conservadora (e/ou) “liberal” clássica?

Daniel Fernandes: Embora esteja esperançoso com a perspectiva de um governo um pouco mais “conservador”, como católico devo estar prevenido contra o mito do herói-salvador, não somente pela doutrina do pecado original, mas também pela convicção de que nenhum governo nos salvará; se for bom, resolverá alguns problemas políticos e econômicos. O maior desafio agora, talvez, seja como adaptar todo um sistema de educação a um novo paradigma. Um paradigma menos ideológico.

Destarte: Você poderia me dar um horizonte de leituras que nossos cristãos leitores se vissem espelhados na lição de João Camilo — missão católica, humildade ao escrever e papel do intelectual num mundo cada vez mais racionalista?

Daniel Fernandes: Sim, é claro. Sei que é sempre muito complicado indicar leituras. Corre-se o risco de deixar referências importantes para trás. De qualquer maneira, arriscarei três indicações: “A extraordinária aventura do homem comum”, “Harmonia política” e este “O elogio do conservadorismo”.

Trechos do livro:

O fundador do conservadorismo brasileiro – leitura necessária para entender o herói-salvador

“O mito do herói-salvador (p.85-89):
“O cristão devia estar prevenido contra o mito do herói-salvador, não somente pela doutrina do pecado original — homem, seja quem for, é pecador e sujeito a enganos e erros de toda sorte — como também e principalmente pela condenação formulada pela Igreja às doutrinas milenaristas, cuja vítima derradeira e das mais ilustres seria o nosso [Padre António] Vieira. O cristão sabe que a história será sempre um tecido de males e bens, de luz e de sombras, e que no dia do Juízo é que o joio será separado do trigo. Até lá, ambos crescerão juntos.
[…]
O governante — seja qual for o regime político e o sistema de governo — está sujeito a erros e enganos de toda sorte. Mesmo honesto, competente, bem informado acerca de questões do momento, ele errará; e se não errar por si, será induzido a erro por influência de partidários, parentes, compadres e apaniguados — que existem em todos os tempos, lugares e situações. Um governante de pretensões moderadas, enquadrado num corpo de instituições, procurará a via média e resolverá alguns problemas: o herói-Salvador quererá resolver tudo e, na certa, terminará criando novos problemas.

[…]

Isto, enfim, leva-nos ao coração do problema: não devemos esperar um homem singular, nunca visto, um herói -salvador… Nenhum homem nos salvará, pois não há salvação política: haverá bons governos, uma relativa paz, abundância, liberdades, etc. — nunca uma idade de ouro.

[…]

“E o pior do mito do herói -Salvador é que torna impossível qualquer governo sensato e autenticamente benéfico, pois o povo esperando milagres, e estes não se dando, revolta-se contra um governo digno e operoso, mas que fez o possível e somente o possível.

“O século XIX legou-nos uma verdade que não deveríamos desprezar: o fundamento da liberdade é a soberania da razão, nunca a soberania da vontade — seja do povo, seja do rei, seja de um homem de gênio.” Recorrendo ao pensador católico Jacques Maritain, João Camilo “faz distinções óbvias” entre Nação e Corpo político:

“A Nação é a comunidade histórica em que vivemos, produto de muitos fatores subjetivos, sentimentais e inconscientes; o Corpo Político é o conjunto de instituições políticas e jurídicas consciente e deliberadamente estabelecidos pelo legislador. Ora, sendo a Nação uma realidade viva e humana, sofrendo a influência de toda a sorte de forças que atuam na História, não está em repouso e muda-se com o tempo, embora conservando a sua realidade substancial. Como uma árvore que cresce, como um ser humano. O Corpo Político, sendo uma realidade fixada em fórmulas legais, termina tornando-se inadequado às novas condições nacionais. Daí a necessidade de reajustes periódicos, de mudanças constitucionais a cada geração, mudanças que podem ser reformas, se a estrutura geral do Corpo Político se conserva, apenas, com retoques aqui e ali (como reformamos uma casa – mudamos uma parede de lugar, abrimos uma porta onde havia uma janela, substituímos a louça sanitária, mudamos as cores…). Ou revolução: se demolimos tudo para começar de novo. Como quem põe a casa abaixo e faz outra diferente no lugar.”

“O mal do mundo são as ideologias, isto é, a transformação de uma ideia em absoluto e a sua utilização em mito, no sentido de [Georges] Sorel, isto é, de uma constelação emocional movimentando as ações humanas. A ideia mantida em termos de ideia, fixando-se numa posição racional e fundamentando uma doutrina em termos, raramente movimenta os povos. Somente a ideologia, isto é, a ideia absolutizada e revestida de roupagens passionais é que motiva as ações humanas. Não nos esqueçamos de que os homens não se movimentam por efeito de raciocínios, mas por sentimentos. Ao contrário do que geralmente se diz, um partido não precisa de doutrina, de ideias, de uma filosofia política, mas de uma ideologia, isto é, de um foco de paixão e sentimento. Ninguém funda um partidos torno de doutrinas, ou antes, os partidos puramente doutrinários não vingam. E se os ingleses possuem uma estrutura política excelente, isso não surgiu de uma corrente doutrinária que justificasse tão sutil organização. Creio que se alguém, outrora, houvesse tentado movimentar as massas com a visão do tipo de governo que hoje funciona e todos acham magnífico, não teria encontrado apoio. (…) O governo inglês é, apenas, uma série de situações de fato e uma notável organização política. Não uma ideologia. Ao contrário, as ideologias, do liberalismo e da fidelidade monarquista, se opuseram e conseguiu-se esse resultado. Não houve a vitória de uma ideologia ou de uma doutrina, mas a derrota de duas ideologias. Daí o bom governo. (…) Ideologias nascem do absolutismo das ideias que se transformam, de verdades nobres e sadias, em verdades enlouquecidas, com já lembrava Chesterton.

[…João Camilo aqui enumera diferenças entre Autoridade e autoritarismo; Liberdade e liberalismo; Nacional e nacionalista; Instinto de conservação e conservantismo; Tradicionais e tradicionalistas; Moderno e modernista; Ser pelo progresso ou ser progressista; Cultivar as comunidades sem ser comunista; Cultivar o sentido social, sem ser socialista; e para concluir, “devemos ser positivos, no sentido de cultivo de ciências positivas, sem cair no positivismo”, op. cit., pág. 92/96.] E conclui:

“Chesterton, que deve ser lido, novamente lido e relido, fala em verdades enlouquecidas. São de preferência valores como os que enumerei: valores efetivos, nobres e sólidos. Mas que, transformados em ideologias, perderam o juízo, e levam os homens a mil confusões. Repito: o mal são as ideologias, que nos impedem de ver as ideias.”
(TORRES, 2016, p.92-100, trechos).

Adalberto de Queiroz, 63, Poeta e Jornalista, autor entre outros de “O rio incontornável” (poemas, Mondrongo, 2017).

 

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