Folha de S. Paulo lança livros sobre a República a partir da biografia de presidentes

Oscar Pilagallo é autor de uma síntese sobre a República e Pietro Sant’Anna escreve a biografia de Deodoro da Fonseca

O jornal “Folha de S. Paulo” começou a pôr nas bancas a coleção “A República Brasileira”. O foco é sobre os presidentes — do marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro, até o atual, Jair Messias Bolsonaro. O primeiro volume, “A História da República” (90 páginas), do jornalista Oscar Pilagallo, é uma introdução. Não se trata de um trabalho alentado, mas, mesmo assim, é uma síntese muito bem informada e crítica.

Há os problemas de sempre em textos sintéticos: a análise não é aprofundada. A respeito da República Velha, de 1889 a 1930, convém, se o leitor quiser, consultar livros recentes do jornalista e historiador Jorge Caldeira, como “Nem Céu Nem Inferno — Ensaios Para uma Visão Renovada da História do Brasil” (Três Estrelas, 328 páginas) e “História da Riqueza no Brasil — Cinco Séculos de Pessoas, Costumes e Governos” (Estação Brasil, 624 páginas). Nesse período de 30 anos, quando imperou a chamada política do Café com Leite — São Paulo e Minas Gerais revezando-se no poder —, o Brasil não seria uma potência, e sim um arranjo de oligarquias. Verdade? Jorge Caldeira demonstra que era muito mais do que isto e a economia do país crescia mais do que a de outras nações importantes. O pesquisador também mostra a vitalidade do mercado interno.

Oscar Pilagallo, excelente pesquisador, anota: “A Revolução de 30 rompeu” o pacto “oligárquico” constituído pela República Velha, que, a rigor, dava seguimento às políticas do Império. De fato, houve mudanças nos Estados, mas não com a destruição das oligarquias, e sim com a colocação no poder de outras oligarquias. Em Minas Gerais, por exemplo, continuou o grupo dominante. Em Goiás, de 1930 a 1945, permaneceu no poder o interventor Pedro Ludovico Teixeira, o construtor de Goiânia. Pilagallo nota que, em 1889, o Brasil tinha 14 milhões de habitantes e, em 2019, tem 13 milhões de desempregados.

O fato é que a expansão do Brasil é menosprezada por alguns historiadores, mas não por Jorge Caldeira, que está reavaliando a história do país, submetendo seus dados a novos métodos analíticos. Descobriu, de cara, que há historiadores repetindo velhos equívocos. Um dos motivos é que raramente se volta aos dados produzidos por uma espécie de consenso — até porque parte dos estudos, senão a maioria, é bibliográfica.

“Deodoro da Fonseca — O Começo da República”, de Pietro Sant’Anna (58 páginas), é, como o livro de Oscar Pilagallo, uma síntese. Portanto, o livro é mais um perfil do que uma biografia clássica, quer dizer, trata-se de uma obra para leitura rápida, útil para estudantes e jornalistas.

O livro tem a vantagem de ser bem escrito, numa linguagem acessível a todos, e atualizado. É simples, sem ser simplista. Talvez peque ao abrir pouco espaço à participação de Deodoro da Fonseca na transição da Monarquia para a República (mas, num livro de 56 páginas, é praticamente impossível ser exaustivo). O militar era monarquista e se tornou republicano.

Trecho do livro sobre Deodoro da Fonseca

“Deodoro foi muito mais do que o primeiro presidente. Foi, acima de tudo, um homem do velho Brasil: soldado fiel ao Império, aprendeu desde cedo o valor da monarquia para a segurança e a estabilidade nacional e nunca deixou de suspeitar da possibilidade de uma República vingar neste país. Por pragmatismo, não por convicção, dedicou apenas três ou quatro anos de sua vida à causa antimonárquica. Morreu amargurado em 1892, com o sentimento de que o regime que ajudou a construir era um antro de traidores.”

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