Fernando Cupertino, o médico goiano que respira música erudita

Em sua brilhante carreira, vilaboense conseguiu conciliar duas profissões que são quase um sacerdócio. “O interesse pelas áreas das humanidades e os conhecimentos que elas nos proporcionam, completam a formação médica”

Fernando Cupertino em sua terra natal, a cidade de Goiás. Foto: acervo pessoal

Se de médico e louco, todo mundo tem um pouco, conciliar Medicina e Música não é para qualquer um. Exige competência e disciplina excepcionais, e Fernando Passos Cupertino de Barros é uma destas brilhantes exceções. “Ser médico é tornar-se capaz de reconhecer as dores, os anseios, as dúvidas da alma humana, e as artes, dentre elas a Música, permitem esse enriquecimento tão necessário à prática médica.” Foi com estes princípios em mente que este legítimo vilaboense pode se dedicar de corpo e alma a duas profissões que são quase um sacerdócio.

Médico com especialização em Ginecologia e Obstetrícia, Fernando dedicou-se à Saúde Coletiva, área na qual é mestre pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia e doutor em Ciências da Saúde (Saúde Coletiva) pela Universidade de Brasília. É professor da cadeira de Saúde Coletiva, da Faculdade de Medicina da  Universidade Federal de Goiás (UFG), servidor aposentado da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás e consultor em sistemas e organização de serviços de saúde. É assessor técnico do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), que presidiu por duas vezes (2000-2203). Coordena a Comissão Temática da Saúde, Segurança Alimentar e Nutricional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, desde 2015. Tantas chancelas lhe renderam inclusive uma condecoração em 2014, quando foi nomeado cavaleiro da Ordem Nacional de Québec – Canadá.

Mas, paralela à carreira médica, há uma igualmente profícua atuação na Música Erudita. Tudo começou nos corais das igrejas da Cidade de Goiás, tendo sucedido Darcília Amorim na direção do Coro da Catedral de Sant’Ana, entre 1984 e 1998. Com o incentivo das professoras Belkiss Carneiro e Consuelo Quireze, da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, intensificou sua escrita para piano e música de câmara a partir de 2002. Entre os anos de 2005 a 2011, foi aluno do compositor Osvaldo Lacerda, um dos grandes expoentes do nacionalismo musical brasileiro, e também concluiu seu mestrado em Música pela UFG.

Compositor de obras orquestrais, que possui três CDs gravados. Uma de suas peças, a “Missa Brevis in honorem Beatissimae Virginis Mariae”, foi escrita por encomenda do Coro Polifônico da Lapa, na cidade do Porto (Portugal). A missa foi originalmente idealizada para coro misto a cinco vozes, solistas, quinteto de metais, tímpanos e órgão. Mais tarde, o autor incluiu, por solicitação do maestro Filipe Veríssimo, uma orquestra de cordas. Compôs ainda mais de doze missas para coro e orquestra, a última delas para a comemoração dos 60 anos da Arquidiocese de Goiânia.

 

Em parceria com a pianista Consuelo Quireze, Fernando fundou em 2003 o Duo Terra Brasilis (voz e piano) que prossegue até os dias atuais, dedicando-se à divulgação da música brasileira de concerto, tanto no Brasil quanto no exterior, apresentando-se em diversas salas de concerto do país, além de embaixadas e em países como Portugal, Canadá e França.

 

Na Cidade de Goiás, terra natal, ainda atua auxiliando nas festas religiosas ou cívicas, seja como cantor, seja como regente de coro. Por último, suas “Cantigas para Ninar Gente Grande”, que foram gravadas pela primeira vez por Belkiss, foram executadas pelo pianista Fábio Lahass em concerto no Instituto de Artes da Unesp no último dia 28. O ínterim desta sua carreira musical foi relembrado por Cupertino em entrevista ao Jornal Opção. Confira:

Cupertino e seu acervo musical. Foto: Jornal Opção

Como e quando a Música surgiu em sua vida? Houve alguma influência de família? Ou foi algo totalmente espontâneo?

Nasci e vivi minha infância em um meio musical extremamente rico. Na família da minha mãe, o cotidiano era pautado sempre pela presença constante da música: uma tia-avó, Edméa de Camargo, era pianista e havia sido diretora da Orquestra Ideal, ainda nos tempos do cinema mudo; minha avó também era pianista; meu avô, um excelente barítono; minha mãe e meus tios também cantavam, tanto em casa como nos coros das igrejas, de modo que a música sempre fez parte de minha vida. Depois, comecei a frequentar esses mesmo coros, onde iniciei minha formação musical com a regente do Coro da Catedral de Sant’Ana, na cidade de Goiás, Dona Darcília Amorim. Quando cursei Medicina, na UFG, fui também aluno de Harmonia do professor Oscarlino da Rocha, no então Instituto de Artes da UFG.

O senhor foi próximo a pianista Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça. Que lembranças guarda dela?

Nossas famílias tinham muita amizade e nós nos conhecíamos bastante. Contudo, depois que me mudei para Goiânia, é que tomei coragem de mostrar a ela algumas composições que já havia escrito e dela recebi não apenas o encorajamento para seguir em frente, mas também as orientações sobre a escrita pianística, sobre análise das formas musicais e sobre a música em geral. Foi ela quem me apresentou a também pianista e professora de piano Consuelo Quireze, que se interessou pelo meu trabalho e com quem construí uma relação profunda e perene que se mantém e se intensifica cada dia mais. De dona Belkiss, guardo as mais doces e saudosas lembranças, não só da pianista e musicista, mas da amiga querida que sempre foi para mim e para muitos dos que tiveram a ventura de conhecê-la e de aproveitar seu convívio. Entre 2000 e 2005, eu a visitava praticamente todos os domingos, pela manhã. Eram momentos ricos, de boa conversa, de aprendizado e de música. Foi ela, ainda, que telefonou ao compositor Osvaldo Lacerda, de São Paulo, e seu colega na Academia Brasileira de Música, para recomendar-me como candidato a aluno de Composição. Havíamos até mesmo combinado de irmos juntos à casa dele, porém a doença foi mais rápida e, na semana anterior à data de nossa viagem, ela foi hospitalizada e não recuperou a saúde. Tenho o privilégio de que algumas de minhas peças para piano tenham sido gravadas por ela.

O que te inspira enquanto compositor? Pareceu-me que o senhor gosta especialmente de temas relacionados ao sacro/religioso….

Essa história de inspiração é muito relativa. O professor Osvaldo Lacerda ensinava que, em Música, 90% da atividade envolve transpiração, ou seja, trabalho, e apenas 10% se refere à inspiração. Tenho grande afinidade com a música sacra, em razão de minha vivência musical que se iniciou nas igrejas de Goiás. Porém, eu costumo dizer que o compositor é aquele que descobre a música que está escondida em muitos lugares – em poemas, nas flores, nas emoções, nas paisagens, por exemplo. Ele, então, apenas a apresenta aos ouvidos daqueles que não a tinham percebido.

É muito interessante que essa atuação tanto na Medicina, quanto na Música. Duas áreas que exigem muito entrega, quase um sacerdócio. Foi difícil compatibilizar?

Cupertino e o professor Osvaldo Lacerda, em 2006. Foto: Acervo pessoal

Nunca uma impediu que a outra pudesse existir. É bem verdade que durante minha formação médica, tive menos tempo para a Música, mas nem assim ela ficou fora da minha vida. Compunha mesmo durante o curso de Medicina. Depois, a gente termina por saber administrar melhor o tempo, dando a cada uma a devida atenção. Tanto que conclui um mestrado em Música pela Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, com o professor Ângelo Dias, em 2009. Além disso, a fase mais importante de minha formação como compositor deu-se entre 2005 e 2011, quando fui aceito como aluno pelo professor Osvaldo Lacerda, em São Paulo. Durante mais de seis anos eu ia a São Paulo uma vez por mês para ter aulas com ele, trazendo comigo as tarefas para serem resolvidas. Além de um excelente mestre, passou a considerar-me como discípulo, irmanados pela mesma obstinação em divulgar a música brasileira e seus compositores. Dessa convivência, ficou também uma grande amizade com Eudóxia de Barros, sua esposa. Depois da morte do Prof. Lacerda, ela assumiu a presidência do Centro de Música Brasileira, com sede em São Paulo, e convidou-me para ser seu vice-presidente.

O senhor acompanha a música erudita em Goiás? Qual a sua avaliação? Destaca alguém que aprecia/admira?

Goiás alcançou um grande progresso no desenvolvimento musical, tanto pela multiplicidade de nossos talentos, quanto pela paulatina criação de condições para que a Música florescesse em terreno propício. Seria perigoso mencionar nomes, pois poderia, involuntariamente, me esquecer de alguém. Contudo, o mais importante é que o trabalho dos antigos mestres e mestras teve continuidade na geração mais atual de cantores, instrumentistas, regentes e professores. Na área orquestral, penso que mais recentemente a atuação do maestro Eliseu Ferreira foi e tem sido determinante para o seu desenvolvimento, sem, contudo, deixar de reconhecer a inestimável contribuição de muitos outros dedicados e valorosos músicos em áreas como o canto, a área instrumental, os corais e mesmo a música eletroacústica. As escolas de música de Goiânia, e também as que surgiram mais recentemente pelo interior do Estado, exercem um papel de destaque, ao oferecer um ambiente favorável para o desenvolvimento dos jovens talentos.

Já vivenciou alguma situação inusitada, curiosa ou engraçada enquanto músico ou por ser médico e compositor?

Lembro-me de que vocês, jornalistas, em uma entrevista que concedi há muitos anos, permitiram-me responder sobre a importância e os papéis que a Música e a Medicina – e mais recentemente a Saúde Pública que, como médico também abracei – exercem em minha vida. Ao responder à questão, eu me dei conta de que sem a Medicina ou a Saúde Pública eu até conseguiria viver, porém, sem a Música, não. Na Faculdade de Medicina da UFG, onde leciono para os alunos do primeiro ano, chamo sempre a atenção de que, para ser médico, é preciso ir muito além do que está nos livros de Medicina. Ser médico é tornar-se capaz de reconhecer as dores, os anseios, as dúvidas da alma humana, e as artes, dentre elas a Música, permitem esse enriquecimento tão necessário à prática médica. Cito uma frase do professor Abel Salazar, eminente médico e professor da Universidade do Porto, em Portugal, que dizia que “o médico que só sabe Medicina, nem de Medicina sabe”. Isso denota que o interesse pelas áreas das humanidades e os conhecimentos que elas nos proporcionam, completam a formação médica.

Com o presidente do Grêmio Literário de Lisboa, Prof. Antonio Pinto Marques, durante apresentação no último mês de outubro. Foto: Acervo pessoal

Falamos muito do passado. E quanto ao presente e futuro? O senhor está trabalhando ou tem algum projeto em mente?

Continuo a compor, sempre que a ocasião me permite. Mais recentemente, escrevi quatro peças sacras para orquestra de cordas e coro, a pedido de um amigo, regente de coro em Braga (Portugal). Também terminei duas peças para piano, uma canção para voz e piano e uma peça natalina para coro. Há também um convite para um concerto no Palácio Foz, em Lisboa, em abril. E assim a vida segue…

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