Federer, Morrissey e Roberto Carlos: traduzindo ou induzindo?

Algumas traduções demonstram claramente uma falta de cuidado e, muitas vezes, segundas intenções na reprodução de afirmações

cul3Marcel Pilatti
Especial para o Jornal Opção

No inglês existe uma ex­pressão chamada “mis­leading”: o prefixo “mis” antes do gerúndio do verbo “lead” significa algo como “induzir a uma interpretação errada”. Trocando em miúdos, é uma informação enganosa. Toda vez que leio alguma ma­téria em que declarações de es­tran­geiros sejam citadas, busco a fonte original. Isso não é nada mais que obrigação. No entanto, se tor­nou quase que uma necessidade.

Ultimamente, tenho notado uma assustadora quantidade de notícias traduzidas de maneira errada — ou feitas de modo enviesado, com escolhas lexicais bastante questionáveis — na imprensa brasileira. Em alguns casos, toda uma elaboração de pensamento é reduzida a uma simples frase (o velho “tirar do contexto”). Há também o acréscimo de palavras ao original, algo que só pode se configurar intencional.

Dois anos atrás, após uma derrota da equipe suíça na Copa Davis — o torneio de seleções do Tênis, com jogos em dupla e individual (simples) —, leio a seguinte manchete: “Roger Federer humilha companheiro em entrevista”. Ofensivo. O texto citava Federer: “Stan [Stanislas Wawrinka] não fez sua melhor partida em simples. Foi uma vergonha porque por causa disso não pudemos pressionar os Estados Unidos”. Comentário: “É um arrogante!”, “Federer está em decadência”, bradavam os analistas de plantão. Por gostar de Federer e saber como ele sempre agiu, fui procurar sua entrevista no site da ATP. Eis a declaração de Federer: “Foi uma pena que Stan não teve seu melhor desempenho no simples, porque não pudemos pressionar o [time dos] EUA”. A palavra usada por Federer ao referir-se ao desempenho de Wawrinka foi “shame”. Essa palavra tem mais de um uso no inglês. Dentre eles, sim, está “vergonha”, bem como “culpa”. Mas também pode ser usada como “misfortune”, ou seja, pena, má sorte. E ficou muito claro que foi esse o sentido empregado pelo tenista.

Outro dia, o jornal “O Estado de S. Paulo” noticiou assim: “New York Times diz que Roberto Carlos só faz cópias inferiores”. Patético. Virou um pequeno viral na internet: “Finalmente alguém disse a verdade”, bradavam alguns. “New York Times não é da Globo”, comemoravam outros. Por gostar de Roberto Carlos e lembrar de já ter visto mais de um texto — elogioso — a respeito do cantor no periódico, fui ver afinal o que foi dito e onde estava tal afirmação. O crítico de dança Brian Seibert publicou artigo no jornal sobre uma peça teatral (“As Canções que você dançou pra mim”) cuja trilha sonora era feita de canções de Roberto Carlos como tema. Seibert disse: “As canções variam de surf rock, funk e rhythm & blues a baladas românticas ao estilo Julio Iglesias. Para alguém que tenha crescido com essas gravações elas podem ter ressonância emocional; para quem não cresceu, elas podem soar como cópias inferiores”. Fiquei com duas dúvidas: quem “disse” que Roberto Carlos só faz cópias inferiores, o “New York Times” ou o jornalista? E em que momento apareceu o termo “só”? Além da má tradução, constou uma boa dose de sensacionalismo.

Algum tempo depois, outra notícia na mesma linha. Li em vários lugares (entre portais e blogs) o seguinte: “Morrissey diz que os Beatles lançaram apenas quatro músicas boas”. Em outras páginas, a manchete era assim: “Morrissey questiona qualidade dos Beatles”. Considerei agressivo. Vi gente perguntando “quem é Morrissey?” e clamando pelo seu esquecimento. Por gostar dos Smiths e mais ainda dos Beatles, fui procurar a declaração do cantor. Foi numa entrevista à “Billboard”, no fim de fevereiro. A pergunta da revista foi a seguinte: “Recen­temente, o mundo da música celebrou o 50º aniversário da chegada dos Bealtes à América. Você foi influenciado diretamente, na música ou de outra maneira, pelos ‘Fab Four?’”. A resposta de Morrissey, essa: “Acho que quatro músicas deles foram magníficas, e se uma banda pode te proporcionar quatro canções magníficas, creio que seja o suficiente. Mas se eu fui influenciado pelos Beatles? Não”.

Duas perguntas: em que planeta “magnífico” é o mesmo que bom? Então quer dizer que o cantor brega brasileiro Sidney Magal compôs canções magníficas? Porque “O meu sangue ferve por você” é uma música boa. Outra coisa: afirmar que não foi influenciado diretamente por alguém é o mesmo que questionar a qualidade do mesmo? Eu não considero ter sofrido alguma influência direta de, sei lá, Tony Ramos ou Moacyr Scliar, mas os caras são bons!

Fiz um recorte de três situações simples pois foram as que me vieram à memória e demonstram claramente uma falta de cuidado e, muitas vezes, segundas intenções na reprodução de afirmações. Por isso, é necessário ter muita atenção toda vez que lermos que “franceses criticam brasileiros” ou que um “jornal argentino ironiza o Brasil”. É claro que sempre teremos um Chael Sonnen falando de miséria no país ou um Jerôme Valcke recomendando um chute no traseiro, mas se isso acontece livremente em editorias de esportes e cultura, quanto mais em política e economia?!

Antes de apontar para algum problema com o inglês ou os idiomas em geral, creio se tratar de um problema chamado [falta de] bom senso. Aliás, eu acho que a imprensa brasileira só faz cópias inferiores, e imagino difícil encontrar quatro veículos bons. Em resumo, é uma vergonha!

Marcel Pilatti é professor e escritor.

via Revista Bula

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