“Existem cidades, onde o Palco Giratório é a única oportunidade de teatro que os cidadãos têm”

O diretor da companhia Teatro de Açúcar ressalta a importância do projeto que integra e permite a troca de experiências entre artistas e públicos brasileiros

Além da apresentação do espetáculo “Adaptação” (foto), o Teatro de Açúcar realiza em Goiânia uma oficina que imbrica o trabalho do ator na criação dramatúrgica | Fotos: Divulgação

Além da apresentação do espetáculo “Adaptação” (foto), o Teatro de Açúcar realiza em Goiânia uma oficina que imbrica o trabalho do ator na criação dramatúrgica | Fotos: Divulgação

Yago Rodrigues Alvim

“Eu era bem pe­queno, então vai ser como se conhecesse a cidade pela primeira vez”, disse Gabriel F., quando o indaguei sobre Goiânia. A expectativa de vir com um espetáculo e oficina a ser ministrada na capital é a de troca, de soma, de conhecer a arte aqui laborada. Muito certamente, essa é a mesma expectativa que tem ao levar o trabalho da companhia brasiliense Teatro de Açúcar a cidades e mais cidades brasileiras, por meio do projeto do Sesc, “Palco Giratório”. A troca, diz ele, é essencial e indispensável. Dela, a companhia deixa seu modo de fazer arte, que se destaca por uma criação dramatúrgica que bebe do trabalho do ator, do que é suado nos linóleos durante ensaios. Já com anos de estrada, dez espetáculos na mala e prêmios conquistados, o Teatro de Açúcar vem afagar o amargo da espera que, por sorte, aqui pouco se vive — ainda que se queira cada vez mais arte e, cada vez mais, uma arte valorizada, além de bem quista. F. conta um pouco deste fazer artístico ou, melhor dizendo, deste açucareiro.

Conte-nos um pouco sobre a companhia Teatro de Açúcar; quando foi que ela teve início e com qual intuito?
A companhia surgiu há nove anos, em Brasília, comigo e meu irmão, o Marco Michelângelo. Fundamo-na com a ideia de trabalhar com uma dramaturgia original e uma interpretação mais próxima do cinema — pois, queríamos uma interpretação mais minimalista e naturalista. Criamos, assim, nossos próprios textos, que se desenrolaram em uma investigação por tipo de linguagem próprio; procuramos, por assim dizer, a nossa linguagem que tem um trabalho mais intuitivo e de temas que tem o seu peso, sejam pelo discurso ou mesmo por serem existencialistas, e isso apresentado de maneira leve e divertida.

Essa dramaturgia que vem com o trabalho do ator faz parte da oficina, certo?
Sim, isso se faz presente na oficina, a que propomos ao Palco Giratório. Ainda que não seja uma oficina que incite técnicas, ela traz sim uma maneira de compartilhar com os artistas da cidade o nosso estilo de criação, a linha que acabamos encontrando em nosso trabalho, que são os textos pela interpretação.

E como veem esse caminho criativo em relação à cena contemporânea teatral e dramatúrgica e literária?
Nós trabalhamos com uma criação prévia textual, que é para montagem, e, no entanto, é um texto que está aberto ao próprio processo de ensaios e de criação dos atores. Criamos, muitas vezes, os textos já sabendo quais são esses atores que os irão interpretar; e isso, do biográfico, está ali de alguma forma. No ensaio, eles influenciam muito, com improvisações.

Tem, então, um processo de escrita e de adaptação do nosso próprio texto. Isso, na nossa linha de trabalho, é fundamental, pois é a tentativa de uma linguagem próxima, acessível ao público e de uma poética objetiva, uma vez que o ator se apropria do texto enquanto um texto dele, uma criação dele. O caminho é mais direto, mais simples, onde muitas barreiras técnicas e literárias são eliminadas.

Qual a história por trás de “Adaptação”?
O espetáculo foi estrado em Brasília, em 2013, e é o primeiro monólogo da companhia — e é também o meu primeiro monólogo como autor e diretor. Ele conta a história de personagens em processo de adaptação e a ideia do espetáculo surgiu dessa palavra mesmo, de seus diferentes significados — a adaptação literária, da espécie, pessoal a situações, de uma transexual ao próprio corpo, por exemplo. Ele fala das transformações da existência.

É um espetáculo cômico, ainda que trate de um tema que tem o seu peso. Foi criado na Espanha, em uma coprodução com a companhia de dança Cielo rasO e, no Brasil, foi premiado pelo Sesc, como Melhor Dramaturgia e de Melhor Ator. Ele teve uma circulação na Espanha, no último ano, e, agora, ganha o Brasil, pelo Palco Giratório.

Qual a importância do Palco Giratório, que é um projeto que integra e permite a troca entre as diversas cenas teatrais de cidades de todo o país?
É um projeto incrível e estou muito feliz por apresentar em tantas cidades brasileiras. Antes, o espetáculo só tinha sido apresentado em Brasília e em Recife. Com a oportunidade do Palco Giratório, temos como dar visibilidade ao espetáculo e, assim, conhecer o público e artistas e profissionais de todas as regiões do Brasil. Existe um intercâmbio com as oficinas, nas quais trabalhamos com atores de outras cidades. Portanto, é muito enriquecedor para nós como artistas.

Sentimos também que é um evento de muito valor em muitas cidades pelas quais passamos; pois, em muitas delas, o Palco Giratório é o único evento de teatro, a única possibilidade que algumas cidades tem de receberem uma programação teatral — o que é indispensável. Nas capitais, existe uma oferta maior, nas demais, disseram-nos que é um evento único. Foram oficinas em que ressaltaram que, desde o último ano, estavam sem receber uma peça teatral. Tem, portanto, um impacto cultural e social muito maior do que eu imaginava. l

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