Eufrásia e Nabuco: uma história de amor

De Eufrásia, o livro reproduz 14 cartas para Nabuco, escritas com caligrafia esmerada. Romance teve início durante viagem de navio para a Europa, em 1873, e duraria até 1887. Além de muitas ilustrações, o livro traz uma breve biografia de Eufrásia que, vivendo 38 anos em Paris, integrou-se à alta sociedade parisiense

Foto: Reprodução

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930), nascida em Vassouras, no interior do Estado do Rio de Janeiro, foi mulher avançada para o seu tempo, que viveu sua infância e adolescência numa bela residência senhorial conhecida como a Casa da Hera e recebeu educação esmerada, pois apreciava literatura de alto nível, especialmente os textos do filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) e os contos e poemas do norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849).

Ela viveu um romance clandestino de 14 anos com Joaquim Nabuco (1849-1910), advogado, diplomata e herdeiro de José Tomás Nabuco de Araújo Filho (1813-1878), presidente da província de São Paulo (1851-1852), ministro da Justiça (1853-1857) e senador do Império pela Bahia (1857-1878), a quem o filho dedicou o livro Um estadista do Império, obra seminal para se conhecer a história política brasileira daquela época.

Joaquim Nabuco: romance com Eufrásia teve início durante viagem de navio para a Europa, em 1873, e duraria até 1887

Apesar de pertencer à elite brasileira, que sempre se caracterizou por sua ancestral maldade para com as classes menos favorecidas, Joaquim Nabuco destacou-se como defensor da liberdade para os escravos, além de ter sido grande tribuno e combativo jornalista, que despertava a ira dos conservadores que o consideravam um “arrogante mulato nordestino e perigoso abolicionista”. Foi também intransigente defensor das reformas sociais de base, que até hoje o Brasil ainda não conheceu.

Quem quiser saber a fundo a história desse romance deve procurar ler o livro Eufrásia e Nabuco (Rio de Janeiro, Mauad X Editora, 2012), da professora, historiadora e museóloga Neusa Fernandes (1934), que pesquisou parte da correspondência trocada entre os amantes, que hoje faz parte do acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Quem ler essa correspondência vai descobrir que uma forte atração uniu esses amantes, que teriam sido separados por uma diferença ideológica intransponível. Eufrásia, talvez apegada ao seu amor por Nabuco, morreria solteira, enquanto ele acabaria casando com Evelina Soares Torres Ribeiro, aos 38 anos de idade.

Eufrásia, ao lado da irmã Francisca Bernardina (1845-1899), era detentora de uma das maiores fortunas da época, herdada dos pais, equivalente a 5% de todas as exportações brasileiras. Pertencia a uma família latifundiária, escravocrata e capitalista. Em 1872, depois da morte dos pais, as duas jovens decidiram morar em Paris. O romance com Joaquim Nabuco teve início durante viagem de navio para a Europa, em 1873, e duraria até 1887, quando Eufrásia remeteu sua última carta a Nabuco. Filantropa, ela soube como valer a sua opinião e seus direitos numa sociedade marcadamente machista, a uma época em que não havia nenhum movimento de defesa dos direitos femininos.

Eufrásia: mulher avançada para o seu tempo

Com raro talento e incansável vocação para o trabalho de pesquisa, a professora Neusa Fernandes desvenda os motivos que levaram à separação do casal. Além do problema ideológico, que talvez fizesse Nabuco sentir-se culpado por amar uma latifundiária e herdeira de vastas terras no Vale do Paraíba, segundo a historiadora, Eufrásia, que aumentara a sua riqueza como investidora e era, portanto, independente financeiramente, não só amava a liberdade de que desfrutava como, provavelmente, não aceitaria ver sua fortuna usada em campanhas abolicionistas.

Além disso, já acostumada ao progresso e ao bem-estar, insistia em viver em Paris, onde estava a maioria de seus interesses financeiros. Para piorar, a irmã de Eufrásia, Chiquinha, era contrária ao relacionamento dela com Nabuco, a ponto de ter conseguido desviá-la daquele que poderia ter sido o último encontro marcado entre eles, o que seria, mais tarde, comentado pelos namorados em correspondência trocada.

Por outro lado, Nabuco era um conhecido perdulário, gastador inveterado, que vivia nas mãos de agiotas, além de um emérito galanteador e conquistador de belas mulheres. Como prova disso, a pesquisadora recolheu uma maledicência publicada no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, de 14 de julho de 1886, em que Nabuco era chamado de “Narciso desventurado, que vive a namorar-se de si mesmo (…) tem no cérebro projeto de casamento rico”.

De Eufrásia, o livro reproduz 14 cartas para Nabuco, escritas com caligrafia esmerada. Numa delas, datada de Paris, 22 de janeiro de 1886, lê-se: “Como se engana pensando que enquanto sofre eu estou indiferente, que se eu o amo posso deixá-lo em tão grande ansiedade, eu que daria tudo para vê-lo feliz, que estou mergulhada nos prazeres e na excitação de Paris e que gozando de tudo o que ele pode me dar, não tenho tempo de pensar em mais nada que se eu estiver triste tenho a Ópera, o Bois, o mundo para me consolar e distrair, mas não fui a nenhum desses lugares, não fiz uma visita, só saí para compras indispensáveis, tenho mil saudades e nem penso em outra coisa senão na Tijuca, no Hotel dos Estrangeiros e em tudo o que se passou (…). (pág. 247).

Já de Nabuco para a amada, não há cartas porque sua correspondência, a pedido de Eufrásia, teria sido enterrada pelo advogado Raul Fernandes (1877-1968) – mais tarde, ministro das Relações Exteriores (1946-1951 e 1954-1955) –, fato que seria confirmado pelo sociólogo Gilberto Freyre (1900-19897) e pelo historiador Américo Jacobina Lacombe (1909-1993).
Além de muitas ilustrações, o livro traz uma breve biografia de Eufrásia que, vivendo 38 anos em Paris, integrou-se à alta sociedade parisiense, exibindo nos salões modelos do famoso estilista Charles Frederic Whort (1822-1897). Deixaria em Vassouras a Casa da Hera, onde vivera até os 23 anos de idade, nas mãos de dois empregados, que, como caseiros, trataram da sua conservação, inclusive de uma biblioteca com 890 títulos, dos quais 90% em francês, e um acervo com 47 partituras para piano e muitos discursos de seu pai, o comendador Joaquim Teixeira Leite (1812-1872), lidos na tribuna da Assembleia Legislativa e na Câmara Imperial.
De Nabuco, obviamente, o capítulo dedicado à biografia é mais alentado. Advogado, literato, poeta, pesquisador da Amazônia, jornalista, diplomata, político e o maior pensador do processo da abolição da escravatura, foi um cidadão do mundo, tendo feito várias viagens a Europa. Dessa vida privilegiada, recolheu ideias avançadas para o seu tempo, defendendo a justiça social e a reforma agrária, embora nunca tenha deixado de ser monarquista, o que, a rigor, não constitui contradição, tendo em vista o que resultou da república proclamada no bojo de um improvisado golpe militar, que daria azo a outras intervenções desastradas da caserna na história política do País.

Como assinala a historiadora, em 14 de setembro de 1885, Nabuco faria um discurso na Câmara dos Deputados em que denunciaria “a política do chicote” que fazia do Brasil “um país de algumas famílias transitoriamente ricas e de dez milhões de proletários”. Um discurso extremamente atual que talvez só merecesse um reparo: hoje seriam mais de 100 milhões de proletários.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo

Deixe um comentário