Euclides da Cunha e “Os Sertões”: o genocídio do Exército de Caxias

A guerra de Canudos — mobilizou 12 mil soldados de 17 Estados, com mais de 25 camponeses mortos — acabou se constituindo num dos maiores genocídios do país

Carlos Russo Jr.

Euclides da Cunha, no livro “Os Sertões”, “lançou um olhar irônico sobre suas próprias crenças para compreender o horror da guerra e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar até mesmo sua significação particular” | Fotos: Reprodução

Euclides da Cunha aos 19 anos, em 1885, deixou os estudos na Escola Politécnica por falta de dinheiro. Entrou para a Escola Militar da Praia Vermelha, justamente nos momentos da efervescência da questão militar. Suboficial republicano de alma foi expulso por rebeldia em 1888, pois atirara ao chão sua baioneta, em sinal de protesto contra a repressão aos cadetes insubordinados.

Graças à fama alcançada, recebeu um convite para escrever para o jornal “Província de S. Paulo”, atual “O Estado de S. Paulo”, o qual pugnava pelo republicanismo da elite paulista, representada por Júlio de Mesquita, seu fundador. Com o pouco que ganha, o jovem Euclides retoma os estudos e gradua-se em Engenharia Civil.

Com a Proclamação da República um ano após, Euclides da Cunha é saudado como “o estudante da baioneta” e reincorporado ao Exército. Em 1890, chega ao oficialato, no mesmo ano em que desposará Ana Ribeiro. Desencantado com o governo Floriano Peixoto, no qual depositara esperanças, pede sua reforma e deixa o Exército de Caxias no posto de capitão.

Estamos em 1896, e um líder místico de nome Antônio Conselheiro tornava-se uma lenda de resistência dos miseráveis dos sertões baianos. Em 1897, “O Estado de S. Paulo” contrata Euclides da Cunha como correspondente de uma “guerra do fim do mundo”, na expressão do escritor Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura.

Euclides chegará a Canudos às vésperas dos últimos dias de combate e de destruição do Arraial. Produzirá uma série de reportagens. Deixará Canudos quatro dias antes do fim da guerra, não chegando a presenciar o desenlace. Mas o pesquisado, o presenciado, o vivido e o pressentido lhe permitiriam escrever e publicar, em 1902, uma das obras-primas da literatura brasileira: “Os Sertões: Campanha de Canudos”.

O livro subdivide-se em três partes: a terra, o homem e a luta. Nelas Euclides analisa as características geológicas, botânicas, zoológicas e hidrográficas da região, a vida, os costumes e a religiosidade sertaneja e, por fim, narra os fatos ocorridos nas quatro expedições do Exército de Caxias e o massacre do povo liderado por Antônio Conselheiro.

O autor de “Os Sertões” interpretou as formas de consciência e de representação em uma comunidade que lhe era estranha, entrevista em meio aos combates e bombardeios, estando ele como correspondente de guerra do outro lado da trincheira, do lado do agressor. Procurou esclarecer o mistério em torno de Canudos, analisando a existência de crenças sebastianistas (referentes ao rei Sebastião de Portugal, desaparecido num combate aos mouros), messianismo que tornava inteligíveis alguns dos aspectos subterrâneos da guerra, como os apelos das mensagens de seu líder e a resistência heroica dos combatentes.

Euclides adotou também uma maneira historiográfica inovadora: um arranjo poético emprestado ao conflito. O fruto obtido é uma obra híbrida, narrativa e ensaio, literatura e história. Lançou também um olhar irônico sobre suas próprias crenças para compreender o horror da guerra e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar até mesmo sua significação particular.

Aquele sentido epopeico do desenvolvimento de uma república no Brasil pela qual se insurgira e combatera na juventude, adquiriu o caráter de uma tragédia no massacre militar que testemunhou em Canudos. “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.”

O sertão nordestino, terra de latifúndios improdutivos, de secas cíclicas e desemprego crônico. Milhares de sertanejos famintos partiram para Canudos, um arraial- cidadela liderada pelo peregrino e esfarrapado Antônio Conselheiro, unidos na crença de uma salvação de corpos e de almas. Chegando ao arraial, organizavam-se como podiam e conseguiam sobreviver na solidariedade e em suas crenças de salvação espiritual. Com tudo isto, os milhares de revoltados constituíam um péssimo exemplo para os coronéis latifundiários nordestinos e para a Igreja Católica.

Os donos das terras da região unindo-se à Igreja pressionaram a República, exigindo o aniquilamento do movimento. Criaram factoides, que na época ainda não possuíam o nome de “fake News”, que a imprensa reproduzia: Canudos se armava para atacar cidades vizinhas e suas milícias fortemente armadas iriam partir em direção à capital para depor o governo republicano e reinstalar a Monarquia.

Antes da denúncia de “Os Sertões”, Machado de Assis já havia escrito sobre Canudos na “Gazeta de Notícias”. Em crônica de julho de 1894, comparava os seguidores do Conselheiro aos piratas das canções românticas de Victor Hugo. Machado deixava-se encantar pelo toque de poesia e mistério que envolvia o líder religioso, além de criticar a imprecisão e as más intenções das notícias sobre o movimento. Quando a guerra contra os famintos foi desencadeada, Machado protestou. Comentava que pouco se sabia sobre a seita e doutrina de Conselheiro, capazes de mobilizar milhares de seguidores: “De Antônio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não se lhe conhecem discursos.” Como as mortes nos combates não afastaram os fiéis de seu líder, Machado questionava: “Que vínculo é esse […] que prende tão fortemente os fanáticos ao Conselheiro?”

Antônio Conselheiro: o líder de Canudos | Ilustração: Reprodução

Euclides da Cunha em Canudos

O repórter observou que o combate apresentava uma “feição primitiva, incompreensível, misteriosa.” Surpreendia-se que os jagunços, já em número reduzido, aguardassem que o Exército fechasse o cerco da cidade em vez de fugirem, enquanto ainda lhes restava uma estrada aberta para a salvação.

Três expedições militares contra Canudos haviam sido derrotadas; na quarta, em 1897, os militares destruíram todo o arraial. Após receber promessas de que a República lhes garantiria a vida, uma parte da população sobrevivente se rendeu com bandeira branca, enquanto um último reduto resistia na praça central do povoado. Apesar das promessas, todos os homens presos, assim como mulheres e crianças foram degolados, numa execução sumária que se apelidou de “gravata vermelha”. Mas o último núcleo do arraial resistiu.

“Canudos não se rendeu (…) resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.”

Antônio Conselheiro: resistência total às forças do governo | Ilustração: Reprodução

O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada a faca. No dia 6 de outubro de 1897, quando o arraial foi arrasado e incendiado, o Exército registrou ter contado 5.200 casebres.

O conflito de Canudos mobilizou aproximadamente 12 mil soldados, de 17 Estados brasileiros. Calcula-se em mais de 25 camponeses mortos. A guerra de Canudos acabou se constituindo num dos maiores genocídios já praticados no Brasil.

Os guerreiros de Pajeú

A guerra de Canudos produziu líderes e, desde as primeiras escaramuças, provocou sérias baixas às tropas sanguinárias do Exército de Caxias.

Euclides da Cunha nomeou alguns dos comandantes da resistência: João Abade, o “comandante de rua”, conhecedor de todos que entravam e saíam do arraial, mantinha contato com mensageiros e sabia de tudo que se passava em Canudos e seus arredores, era conhecido e respeitado por todos, o próprio serviço de inteligência do arraial. Antônio Fogueteiro, recrutador de combatentes entre os camponeses; Chico Ema, chefe da segurança interna do povoado; Pedrão, Estêvão e Joaquim Tranca-Pés, líderes de grupos de guerrilheiros responsáveis pela guarda de serras e estradas circundantes de Canudos.

Mas a chefia das operações militares estava a cargo de Pajeú.

“A figura de Pajeú se destaca desde os primeiros choques armados. É ele o homem que empreende a perseguição audaciosa à derrotada 2.a expedição do Major Febrônio de Brito. (…) Investem contra ela não só com o objetivo de eliminar soldados, mas também arrebatar-lhe armas e munições.”

Num depoimento ao jornal “O País”, de janeiro de 1897, o derrotado Major declarou: “Nunca vimos, eu e meus camaradas, tanta ferocidade! Vinham morrer como panteras, dilacerando entranhas, agarrados às bocas das peças… Todos eles traziam armas de fogo, bons e afiados facões, cacetes pendentes dos pulsos”. Quanta mentira contada pelo “herói” de algibeira, o Major Febrônio. Os insurretos possuíam apenas poucas e antiquadas as armas de fogo dos, embora tivessem, isto sim, pulsos fortes e vontade indomável.

No combate travado na Serra do Cambaio que dava acesso a Canudos, Euclides nos fala da figura heroica de João Grande, o organizador e líder dos clavinoteiros (clavina era uma arma de fogo utilizada por cavaleiros) fantasmas, que comandava os precariamente armados resistentes.

Enquanto as tropas tentavam subir os contrafortes da serra, os sertanejos surgiam e desapareciam, agitavam-se, pareciam ser em muito maior número do que realmente eram. Além disso, eles iludiam de modo engenhoso a carência de espingardas e o lento processo de carregamento das poucas que possuíam. Todos usavam máscaras e se dispunham em grupos de três ou quatro rodeando um único atirador, passando sucessivamente as armas carregadas pelos companheiros invisíveis ao fundo da trincheira. De sorte que, se alguma bala fazia baquear o clavinoteiro, substituíam-no imediatamente e em meio ao fumo, o mesmo busto mascarado seguia apontando sua arma para os soldados e atirando.

Se a movimentação permanente dos “jagunços” dificultava sobremaneira a pontaria dos soldados, quando eles surgiam na própria retaguarda da tropa a subir a encosta do Cambaio, deixava-os desnorteados. Os sertanejos evitavam, por inferioridade, a peleja franca. E dentre eles, erguia-se a figura daquele negro gigante, de enorme força e agilidade empunhando um clavinote curto, o líder João Grande. Ele, o único que não se mascarava, desencadeava as manobras, as figurações e as correrias de seus combatentes, subindo, descendo, atacando, fugindo. Quando alguns deles caiam varados pelas balas, os soldados os exterminavam a coice de armas e comemoravam.

Euclides da Cunha adotou uma maneira historiográfica inovadora: um arranjo poético emprestado ao conflito. O fruto obtido é uma obra híbrida, narrativa e ensaio, literatura e história | Foto: Reprodução

Mas a desigualdade de forças era enorme e as tropas foram gradualmente subindo o morro. Quando já perdera quase toda sua gente, João Grande avançou diretamente contra a artilharia. Nesse avanço uma bala sua matou o oficial comandante federal, general Wenceslau Leal. Foi quando um rojão o destroçou e aos companheiros mais próximos. Estava conquistada, após mais de três horas de combate a Serra do Cambaio, que abria o acesso a Canudos. Quando a tropa fez a contagem dos sertanejos mortos não encontrou mais de vinte e dois, vinte e dois homens que resistiram a uma tropa de cento e oitenta, entre oficiais e praças.

A cabeça de João Grande foi decepada e erguida como um troféu na caminhada.

Euclides da Cunha ao romper por completo com as versões do Exército de Caxias e dos coronéis do sertão, segundo as quais o movimento de Canudos seria uma tentativa de restauração da Monarquia, comandada à distância pelos monarquistas, em primeiro lugar, perdeu o emprego. Mas, logo a seguir, tornou-se internacionalmente famoso com a publicação da obra-prima que lhe valeu vaga para a Academia Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Os escritos “da experiência” de Euclides da Cunha constituem uma obra notável do movimento pré-modernista que, além de narrar a guerra, relata a vida e sociedade de um povo explorado e mantido na miséria pelo latifúndio. De certa forma, Euclides descobriu o verdadeiro interior do Brasil, muito diferente da representação usual que dele se tinha.

Carlos Russo Jr. é crítico literário.

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