Eu sofro de mimfobia. E você?

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Graça Taguti
Especial para o Jornal Opção

Está na hora de colocar em pratos limpos tudo o que a gente guarda e esconde em nossa cozinha mental. Fobia é medo, terror, perna bamba, paralisia muscular repentina. E por aí segue lista da diversificada sintomatologia. Pra que negar. Eu sofro de mimfobia e morro de medo dos outros que moram dentro da minha cabeça e cutucam minhas ações e decisões, presentes ou futuras. E você?

Tem pesadelos cinzentos? Sombras que o perseguem pelas calçadas da vida, vozes que o atormentam e ameaçam dizendo: Faça isso ou Não Faça — bem no fundo do seu ouvido direito que, de tanta perseguição e assédio, começa a ficar torto.

Sessão franqueza. Quantos diabos moram em você? A pergunta é exatamente essa. Não adianta se benzer nem tentar se esquivar. Não dá pra mentir agora, viu, e eu confesso já ter me submetido a vários exorcismos e nenhum funcionou.

Papo com terapeuta, lamúrias com amigos, bebedeiras, sexo a esmo, Rivotril aos montes. Selfies compulsivos, esbanjando hiperfelicidade nas redes sociais e disseminando inveja aos borbotões. Nada deu certo. Tenho que estender a mão à palmatória, como diria a minha avó. Eu abrigo uma legião de demônios que se intromete no meu olhar, sorrisos, suspiros, discursos perigosos ou maquiavélicos. Xô. Vade-retro belzebu.

É o Exu dos adiamentos. A hiena das falsidades. As serpentes das manipulações. Os escorpiões dos ataques sinuosos e repentinos. O camaleão dos disfarces. O urubu dos vaticínios. O crocodilo das crocodilagens e ignoro quantos mais se revezam dia e noite, farejando minha alma e alternando ronda sobre minhas vontades ou desvontades.

Nessas horas, saio igual louco de pedra, quebrando tudo que é espelho, esmagando tudo que é réstia de alho, destroçando tudo que é rosário, feito vampiro estressadíssimo do século 21. E sabe por que eu tenho medo? Porque eu já me perdi de mim faz tempo, desde que passei a funcionar em dois universos. O virtual e o chamado Real, dentro e fora das telas de celulares e gadgets aparentados.

A gente hoje vive cercada de preservativos sociais digitais, caras e bocas, avatares, felicidades de mentirinha, junk-pessoas, fast-sexo, sem tempo pra gozar ou respirar. Se eu pudesse, confesso, durante o sono, dava um jeito de escapar do meu umbigo, das minhas egocêntricas preocupações e fugia de mim rapidinho e de soslaio. No dia seguinte, minha empregada iria me encontrar esvaziado, tipo um saco, misturado ao edredom pra ser jogado anonimamente na máquina de lavar. Uma ex-pessoa, compreende?

Tenho medo da minha honestidade. Da minha esperteza. Da minha grandeza e mediocridade simultâneas. Da minha arrogância e humildade. Das minha terna e explícita candura e credibilidade. Das desconfianças e cismas frequentes. De virar uma bomba relógio e destroçar a geografia à minha volta. De morrer antes de me transformar em pomba celestial, com asas lindas de um azul iridescente.

Tenho medo de comer demais e estourar que nem balão de festa infantil. Agarrar-me em uma jaqueira e me casar com ela. Apaixonar-me por um urso e me mudar lá para os confins de uma gelada floresta canadense. Ficar viciada em salmão, naturalmente.

Morro de fobia de lugar cheio. De pessoas previsíveis. De papos desgastados. Falta de imaginação e tesão. Medo de quem não arrisca nada pra sair da sua poltrona. De quem se aventura demais e planta um camping na ponta de um despenhadeiro. Dos ativistas de sofá.

Fobia da compulsão de mandar esse governo espúrio, definitivamente pra puta que o pariu e fazer isso com atitude e coragem. De armas em punho, ladeada por Lam­pião, Marighela, Lamarca e Che Guevara.

Convidar o amado Fer­nan­do Gabeira pra me ajudar nesta empreitada. E chegar por fim à esplanada dos ministérios, cantando músicas de Ney Mato­grosso, bem da época dos Secos e Molhados.

Ahhh… Eu tenho medo. E você, você tem medo de quê? Arrepio-me de ansiedade quando imagino embarcar numa expedição dos Médicos sem Fronteiras e me perder nesse mundão carente, deixando largos abraços e água abençoada com muito amor, cobrindo todas as misérias que avisto.

Medo de ser uma pessoa melhor. Ou de piorar de vez, se me entregar aos cantos venenosos das sereias. Pavor de amar demais ou gostar de menos e, imersa na covardia, colocar cadeado nos sentimentos e nos beijos que ainda não nasceram.

Mas nisso tudo, sabe o que é o melhor de sofrer de Mim­fobia? A possibilidade de correr atrás da competência. Semear novas atitudes. Abrir os olhos em meio a tempestades de areia. Esticar as antenas, perceber o faro de raposas que passeiam sobre nosso corpo e, então, ganhar consciência dessas paranoias todas.

Penso que é desse jeito que a gente consegue se candidatar ao posto de maestro vitalício da nossa orquestra de confusões, demandas e ideais.

E aí, quem sabe, num gesto de extrema ousadia, a gente até decida invocar aos céus o espírito de Beethoven para compor uma obra virginal: a 10ª sinfonia. Uma sinfonia cujo último movimento expresse uma belíssima ode ao renascimento humano.
*Título inspirado em frase de Millôr Fernandes.

Graça Taguti é jornalista e escritora.

via Revista Bula

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