Esquecimento e memória dos anos da ditadura militar na obra “Ainda Estou Aqui”, de Marcelo Rubens Paiva

A narrativa mescla a biografia da mãe, vítima de Alzheimer, com a do próprio autor, e devagar vai delineando um quebra-cabeças ao redor dos acontecimentos que se deram com o pai, naqueles dias sombrios de janeiro em 1971

Marcelo Rubens Paiva, autor de “Feliz Ano Velho”, conta novamente parte de sua história em “Ainda Estou Aqui” | Foto: Divulgação

Flávia MF
Especial para o Jornal Opção

O livro de Marcelo Ru­bens Paiva, “Ainda Es­tou Aqui” (Edi­tora Alfagua­ra, 2015, 295 páginas), segue uma temática constantemente abordada pelo autor: a ditadura militar no Brasil. Não é para menos: é notório o assassinato de seu pai, Rubens Beyrodt Paiva, por militares, em 1971. O ex-deputado, engenheiro e morador do bairro Leblon no Rio de Janeiro foi levado de sua casa por oficiais sem mandado judicial no dia 20 de janeiro e nunca mais foi encontrado. Rubens Paiva, o filho, já é um conhecido e premiado dramaturgo e jornalista. Uma de suas obras mais famosas, “Feliz Ano Velho” (1982), expõe o acidente que o tornou tetraplégico, aos 20 anos de idade, e, nela, já trata do desaparecimento de seu pai.

“Ainda Estou Aqui”, por sua vez, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria de votação popular em 2016, na estreia desta categoria, que foi realizada em parceria com a empresa transnacional Amazon. A obra compreende a tentativa de escrever uma biografia (que se torna, em partes, uma autobiografia) homenageando a história de força e coragem de sua mãe, Eunice Paiva. Mas tal tentativa funciona apenas de modo parcial. Talvez por ainda lidar com os fantasmas de uma perda tão violenta, potencializada pela luta de anos da família pelo reconhecimento desse assassínio – já que o corpo do pai nunca foi encontrado e, por mais de duas décadas, foi dado oficialmente apenas como “desaparecido” – a his­tória acaba se voltando para o horror daqueles anos nebulosos.

Eunice Paiva, nos dias de hoje, sofre de Alzheimer. Deixar isso claro, desde o início da narrativa, juntamente com o episódio em que acontece sua interdição judicial, já traz para o leitor uma conturbada reflexão sobre justiça. O percurso en­frentado por ela, que acompanhamos ao longo dos capítulos que des­crevem, de forma não linear: a en­trada de militares em sua casa, a prisão de seu esposo e, posteriormente, a sua e da filha de 15 a­nos, a au­sência de no­tícias, o desespero dos parentes e amigos, sua formação tardia em nível superior, o su­cesso na carreira após os 50 anos e a batalha constante por respostas que permeou todos esses acontecimentos. Todo este percurso nos mostra uma mulher que decidiu ser mais do que uma viúva inconsolável.

Um fato que chama atenção é a postura que Eunice nunca teve, nem permitiu aos filhos terem: a de vítimas. Marcelo relata as muitas e muitas vezes em que ela se trancou no quarto após o jantar para chorar sozinha o infeliz destino de seu marido. Ao mesmo tempo, em frente às câmeras, se mostrava forte e decidida. Nos bastidores, nunca desistiu de buscar uma postura do governo sobre o caso, enfrentando a resistência dos militares. Reinventou-se como mulher, deixou no passado o papel de dona de casa perfeita, graduou-se no curso de direito como resultado da ânsia por justiça, e, depois de formada, também passou a atuar em prol do direito indígena e dos direitos humanos, com o reconhecimento que a levou a participar de reuniões das Nações Unidas (ONU) na Europa.

A linguagem do livro passa longe das formalidades. Marcelo utiliza palavrões, gírias; é direto nas descrições. O que pode não agradar a alguns leitores traz, ao mesmo tempo, um olhar muito sincero e aberto sobre os acontecimentos. Ao mesmo tempo estão presentes exposições técnicas sobre o Alzheimer, o que torna a leitura ainda mais rica, posto que esclarecem dúvidas sobre a evolução da doença. Além disso, há também trechos dos processos sobre o desaparecimento do ex-deputado e de depoimentos sobre o assunto, grande parte em formato de citações. Assim, o autor consegue passar parte da sensação de pesquisa e descoberta, tanto sobre a patologia, quanto sobre os fatos relacionados a Paiva que ficaram por anos na obscuridade.

A narrativa mescla a biografia da mãe, vítima de Alzheimer, com a do próprio autor, e devagar vai delineando um quebra-cabeças ao redor dos acontecimentos que se deram com o pai, naqueles dias sombrios de janeiro em 1971. É possível apreender da leitura toda a sensibilidade que Pai­va imprime a respeito da forma co­mo seu pai foi levado, a crueldade com que foi torturado. Os depoimentos que deram as últimas pessoas que o viram no quartel do Des­tacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de De­fe­sa Interna (DOI-CODI) sobre a situação em que se encontrava após os interrogatórios – severamente machucado e desorientado – são peças importantes para compreender o terror vivido no início daquele ano.

Independente do envolvimento do engenheiro com a resistência no país, já que se sabe que não tinha orientação comunista, é inaceitável pensar no procedimento que foi levado a cabo por órgãos e representantes de um governo oficial. Essa é uma das grandes contradições dos Estados autoritários: tolher a liberdade para manter a liberdade. Agredir cidadãos de forma clandestina, às escuras, colocando-os em uma situação de constante desconfiança e vigília. Ao invés de defender as pessoas, as ataca.

O título do livro penetra de maneira muito coerente nos acontecimentos ao longo do tempo e abrange diferentes âmbitos. Eunice proclama “Ainda estou aqui!” nos raros momentos de lucidez em meio ao caos em sua mente provocado pelo Alzheimer. A lembrança de Rubens Paiva pai, a luta por sua dignidade e pela verdade a respeito de sua morte ainda está presente. A ditadura, os resquícios de violência deixados por ela, as famílias destruídas, as dores, a tristeza, o autoritarismo e os objetivos que visava alcançar ainda também continuam presentes.

O bordão usado por Eunice “A família Paiva não chora em frente às câmeras!” traz ao leitor um sentimento de orgulho e força, que pode ser entendido da seguinte forma: quando uma família é vítima de uma ditadura, não apenas ela é violentada, mas a nação toda, a humanidade como um todo. Essa é a mensagem ensinada pela verdadeira heroína da família. Apesar do esquecimento ao qual sua mente está fadado, a memória dos dias de violência será seu legado para o país. Independen­temente dos vieses ideológicos, o que importa, em qualquer circunstância histórica, é a vida humana e sua integridade.

Flávia MF é graduada em História, pela Universidade de Brasília (UnB), e em Relações Internacionais, pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).

Foto: Reprodução

Ainda Estou Aqui
Autor: Marcelo Rubens Paiva
Editora: Alfaguara
Páginas: 295
Ano: 2015

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