Espelho disruptivo de nossa ruína

Território criativo de Antonio Figueiredo emula um trânsito multidimensional, numa escrita nada ortodoxa, atravessada por expansões oníricas e fluxo de consciência

Ronaldo Cagiano

Especial para o Jornal Opção

A realidade é essa coisa sórdida e bruta.

E seu presente é todo feito de passados.

“Velha história de maçãs” — Samuel Rawet

Quando publicou “as visitas que hoje estamos” (Iluminuras, 2014), seu romance de estreia, Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira chamou a atenção da crítica para a radicalidade de uma escritura esteticamente inovadora, trazendo hálito novo a uma literatura brasileira contaminada por vozes requentadas, fatigada pelo mais do mesmo. Obra de profunda imersão na condição humana ao esmiuçar seus dilemas e contradições, trouxe um sopro de subversão e renovação formal ao extrapolar as fronteiras entre gêneros e realizar um recorte dos subterfúgios, mazelas, existências apequenadas e diatribes de uma cidade do interior.

Após conquistar um espaço diferenciado no cenário das nossas letras, o autor retoma aquela trilha visceral de experimentalismo da linguagem com a publicação de “siameses” (Kotter Editorial, Curitiba, 1336 páginas), obra caudalosa e de fôlego, dividida em dois volumes, fruto de uma dedicação de ourives nesse projeto que foi contemplado com o apoio do prêmio “Rumos”, do Itaú Cultural.

Tanto na poesia (“peixe e míngua”, Nankim Editorial, 2003; e “eu, morto”, Iluminuras, 2020), quanto no infanto-juvenil (“O amor pega feito um bocejo”, Cia. das Letras, 2014), o território criativo de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira emula um trânsito multidimensional, numa escrita nada ortodoxa, atravessada por expansões oníricas e fluxo de consciência, meticulosamente burilada, em que estão sempre presentes os paradoxos, as inquietações metafísicas do ser e o caótico sentido social e político que caracteriza a própria trajetória individual e  coletiva.

Em “siameses” o autor intensifica sua aguda percepção dos cenários, temas e atmosferas, por meio de uma dicção ao mesmo tempo feérica e metafórica, povoada de flahsbacks e insights críticos, que repassa o país nas últimas décadas, espelhando as metamorfoses e o escalonamento de valores de uma sociedade e das instituições perdidas em seus próprios descaminhos ou labirintos.

Ao conduzir o leitor por um cipoal de desassossegos, o narrador deslinda um universo caleidoscópio que conforma a vida de dois personagens – Osmar e Procópio – que vão desatando, por meio de uma conversa alargada, os entretempos de suas vidas no confronto e na observação de outras tantas.

O que sobressai dessa obra, além do requinte artístico, é a possibilidade de nos reencontrarmos com a nossa própria realidade em meio ao caos contemporâneo, algo de que carece a atual produção literária nacional, muito seduzida pelos fetiches do deus mercado, cooptada pelas pautas e pelos temas reclamados pelo politicamente correto e que, na maioria das vezes, endossam autores de contexto em prejuízo de autores de (verdadeiro e pujante) texto.

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira: escritor | Foto: Divulgação

No cerne de “siameses” encontramos o vórtice de uma história entremeada de embaraços e sutilezas, em que a destreza do autor vai costurando com inegável profundidade de escafandrista sua híbrida ambientação. Nesse particular a dimensão epopeica do romance se instaura, a partir de uma concepção virtuosíssima, ao colocar o leitor no centro de um conflito – a traição, um triângulo amoroso entre Tomás, sua esposa Rebeca e Azelina, uma sedutora vendedora – num extrato simbólico do próprio e desajustado tempo em que vivemos. No desenrolar das conversas entre um reverberante Osmar e um contido Procópio, espelha-se também uma contraposição entre campos distintos e constrói-se, em clave nelsonrodriguena, uma crônica do mundo que se esconde atrás das aparências.

No pequeno burgo em que transcorre a história, o autor vai expondo o esgarçamento de todo um sistema moral vigente, ao destrinchar as camuflagens, torpezas e devastações sofridas pelas vidas em causa, caudatárias de uma realidade habitada por perversidades, obsessões e tragédias, que só poderiam culminar num desfecho avassalador. No escoadouro dessas tensões, que tem nos seus protagonistas, o leito por ondem fluem os problemas de variada ordem, avulta o reflexo do esgotamento das virtudes e do encarceramento do ser pelos seus próprios desvios morais.

A partir do próprio título o autor concede a chave para que o leitor ingresse na escura e pantanosa realidade que esse romance propõe deslindar, pois sinaliza o liame inseparável de uma raia de cumplicidades que não se desatam, retroalimentada pelas próprias ambiguidades e dicotomias. O que, em suma, é a imagem de um país e do próprio mundo, agora insularizados por uma pandemia, o que acabou por expor nossas fragilidades e impotências, com instâncias e pessoas subjugadas a terríveis instintos, na voragem de uma distopia incapaz de reverter a tendência de uma civilização e da modernidade arrasadas por um vírus.

Irônico, cáustico, iconoclasta e provocador, “siameses” impõe-se pela coerência com que mapeia nossas rupturas e ruínas e resgata uma realidade tão atormentada, transcendendo a composição romanesca para inserir-se na esfera de uma abordagem candente, reflexiva e ontológica desses tristes tempos, mas carregada de inegável poesia.

Ao escrutinar a dimensão humana, no que ela carrega de essencial ou de insondável, “siameses” pauta por uma narrativa não linear, especulativa da instabilidade que conforma essas vidas. Em sua gênese formal, o romance converte-se num mosaico de palimpsestos, oferecendo muitas camadas de leituras: embrenha-se por caminhos e atalhos, movimentos, marchas e contramarchas, pistas e contrapontos, inflexão crítica e filosófica – recursos estilísticos que o tornam multifacetado. É a um só tempo um prisma de variadas faces: narrativa da vida como ela é; poesia retirada da banalidade e dos flagrantes do quotidiano; pintura sem retoques de nossas vicissitudes; instalação, que reúne o espólio ou os cacos de histórias (re)partidas; teatro, em cujo palco, a realidade a ficção – siamesas – se confundem, ao representar o que há de cômico, dramático, épico e satírico nas experiências vivenciais objeto da investigação autoral.

Vale lembrar, para situar a filiação do escopo de toda a obra de Antonio Geraldo, a preponderância de uma concepção criativa que faz um mergulho no centro de nossas questões fundamentais, o que guarda estreita sintonia com o que afirmou Gabriel García Márquez: “Todo bom romance é uma transposição poética da realidade. Sim, acho que um romance é uma representação cifrada da realidade, uma espécie de adivinhação do mundo. A realidade que se maneja num romance é diferente da realidade da vida, embora se apoie nela. Como acontece com os sonhos.”

Eis a sensação de prazer epifânico que nos desperta a leitura dessa obra polifônica, tão densamente arquitetada e enriquecida pela intertextualidade, que culmina num verdadeiro tour de force, na esteira de uma complexa e habilidosa engenharia semântica, privilegiada pelo recurso de poderosas imagens e o manejo seguro e versátil das diversas vertentes literárias que coexistem em monumental simbiose, levando-nos a percorrer o espectro dissonante por onde transitam vidas esgarçadas e a própria arte em tempos de instabilidade. Com “siameses”, Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira promove um ponto de viragem no cenário da atual literatura brasileira e atinge o pleno domínio da concepção artística, ao valorizar e explorar todas as possiblidades de expressão da nossa língua, esculpindo um poderoso universo ficcional.

Ronaldo Cagiano, escritor brasileiro, reside em Portugal. É colaborador do Jornal Opção.

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