Escritor como personagem (25): Pio — Um Vargas sem grife, de Luiz Gustavo Medeiros

Sei que Pio Vargas escreveu que “cada um se mata o suficiente pra continuar vivo” e, embora não mais viva, o poeta continua

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Um Vargas sem grife

Luiz Gustavo Medeiros

“Todo o resto é crochê de desejo”, teve quem riu, quem franziu e quem certamente ficou sussurrando o verso pra ver se, com a repetição, extraía algum sentido. Fiz as três coisas. É difícil assim quando só se escuta o poema, sem a releitura, o papel pesando na mão. E Pio tinha voz boa, pronunciava firme, não derretia nas últimas sílabas como a gente faz aqui em Goiás. Eu era o próximo e falei pro Bira, “agora todo mundo vai ficar pensando no crochê e ninguém vai prestar atenção em mim”, e eu ri, Bira riu e até o Pio, meio que sem querer disfarçar que era isso mesmo, quase me dizendo: é, moço, cê tá lascado.

Pio Vargas: poeta goiano que morreu, aos 26 anos, em 1991 | Foto: Reprodução

E antes teve o “a pátria é o embaixo das roupas”, e Pio riu sozinho, como se quisesse debochar de quem o levava a sério, riu por uns segundos, parou, simulou um semblante ainda mais sério do que o da plateia e continuou, “é lá que dói e se desfazem as linhas mínimas do ventre”, acho que dessa vez debochou dele mesmo também, porque o Pio era texto e performance o tempo todo; nos saraus, nos botecos, nos congressos do partido; uma nota que sempre desafinava por querer, em busca de alguma reação, um nariz torcido, um esgar, um grito; “é lá o magazine de medos”, Pio seguiu num grito insano, teve quem riu, quem franziu, quem saiu e quem xingou. Eu ri, o Bira também. Pio não ficou nem entre os três primeiros, vai ver foi o grito, o deboche, o crochê. Tem palavra que parece que arranha os tímpanos e o Pio parece que gosta é disso, de se engastalhar no ouvido desses que se acham viris demais pra palavras como crochê e ficar lá um tempão unhando, esfolando devagar, até conquistar de vez o desprezo deles. Mais cedo, antes das apresentações, distribuiu cartões aos presentes, com telefone, caixa postal; “Pio Vargas – Poeta”; decerto foi isso; imagina só, a velharada ostentando os tus e vós, as ênclises e mesóclises, os sobrenomes como se saíssem purpurinados no papel e o Piozinho de Iporá, vinte e poucos anos, só ensino fundamental, um moleque-zé-ninguém se achando no direito de se oficializar poeta.

A gente ri, franze, xinga, mas o Pio escrevia sério, tinha ambição, era meu projeto poético isso, meu projeto poético aquilo. Ambição e seriedade não é só aquilo que a velharada tem. Dá pra ter sem olhar pra fora, esperar o sucesso na própria reação. É isso: ele via o mundo como uma multidão de Pios, talvez tenha sido esse o problema, pois difícil mesmo é aguentar a própria rejeição, os outros que se lasquem. Opinião minha, Pio nunca disse isso e, se dissesse, faria rindo, antes de virar num gole só a dobradinha clássica de cachaça e cerveja e do Bira falar “pronto, vai começar”. A mesma frase cochichou pra mim quando Pio desceu do palco e se aproximou da ala da velha guarda, que se escondeu atrás do brilho dos relógios; “velho”, começou intenso com aquele v cuspido, “acho que valho a idade dos espelhos, o tempero dos sais, a metafísica do cais e mais”, nem uma agulha passaria no cu trancado dos diletos poetas da velha guarda naquela hora.

Pio Vargas e o poeta Ubirajara Galli | Foto: Reprodução

Nunca vi Pio puto, puto mesmo, de fechar a cara, mas o imagino se contorcendo de ódio ao ver as homenagens que hoje recebe dos mesmos velhos – mais velhos ainda – com os quais antagonizava. Textos fossilizados por termos como “dileto amigo Pio” ou “nas minhas longevas reminiscências”. E escrevo assim, destilando deboche, porque tento imaginar o que ele pensaria de cada frase que coloco aqui. Vou colocando, me abandonando, irresponsável, tentando encarnar um Pio inspirado vociferando poemas no DCE da UFG. Estou tentando ser Pio e não eu, eu sei. E gosto, ainda que o Bira diga que ele “era maluco, dava muito trabalho”. Mas quando recitei meus poemas naquela noite fui eu mesmo; em pé, imóvel, olhando sem hesitar pra parede pichada do fundo, sem gesticular, sem gritar, totalmente sem graça. E fui ovacionado, primeiro lugar. A plateia sorriu, todos coesos em sorrisos que pareciam aceno na rua a um amigo distante. Pio disse que a velharada gostava de mim e eu ri, franzi, torci o nariz, tudo ao mesmo tempo; porque, diferente de Pio, não consigo não olhar pra fora. Fui ovacionado por sorrisos e aplausos de quem olha pra fora, aqueles mesmos que reprovaram o poema-afronta de Pio. Apesar do primeiro lugar, ele não gostou do meu poema nem da minha apresentação. E, apesar do primeiro lugar, não me defendi. Pio disse: “muito bonito, mas não tem nada de novo, sabe? Você precisa derrotar os seus omissos, sabe?”; a fala peculiar que todos estavam acostumados – “fala Pioneira”, ele brincava –, como se falasse pra si mesmo ou supusesse que eu visse o mundo como ele: uma multidão de eus.

A palavra arranha e esfola os tímpanos, mas o corpo gosta mesmo é de reagir com gestos, caras e bocas e não se levantar contra ela. É a polidez dos que olham pra fora; o que desde sempre faltou ao Pio, que dizia estar pronto pra guerra que encontra quando acorda – “botei vigia nos sentidos e iludi com comprimidos outros seres a meu bordo”. Pareci pronto quando me disseram que ele tinha morrido naquele hotel barato em Turvelândia. Meu corpo reagiu submisso ao fato, como se não se surpreendesse com a morte de um jovem de 26 anos cujo epitáfio fora escrito uns anos antes e impresso em um zine bem-humorado; um muxoxo de lamento, uma fechada rápida de olho e só. Finalmente reagi como alguém que não olha pra fora. Talvez tenha sido uma forma de homenageá-lo, como esse texto no qual tento achincalhar com os eminentes beletristas da cidade comprometido somente comigo e com ele.

Meu poema e apresentação no DCE foram polidos, atributo que muitas vezes é confundido com belo – especialmente por eles, os beletristas. Hoje sei que poesia é corpo que se entrega e se consome, oferenda envenenada ou não. A apresentação de Pio foi grosseira e rechaçada, mas hoje todo mundo se refere a ele como o melhor de sua geração; tem até uma Biblioteca Pio Vargas na Praça Cívica, ao lado do palácio do governador. Poesia também é língua estrangulando palavras estrangulando sentidos estrangulando poetas estrangulando plateias. Que sua morte faz parte do tal projeto poético não posso afirmar, mas sei que ele escreveu que “cada um se mata o suficiente pra continuar vivo” e, embora não mais viva, Pio continua.

Uma resposta para “Escritor como personagem (25): Pio — Um Vargas sem grife, de Luiz Gustavo Medeiros”

  1. Avatar Nádia Aparecida Pires disse:

    Interessante, mas penso que a UBE e academia poderiam fazer novas pesquisas sobre escritores goianos como Léo Lynce, até mesmo José J. Veiga que ainda tem irmão vivo entre outros. Muitas cidades tem histórias peculiares e escritores a serem estudados/ pesquisados. Enfim, estamos sempre lendo sobre os mesmos, precisamos salientar tantos outros que merecem reconhecimento, porém foram mais sutis, ou não tiveram morte trágica, ou por opção optaram.pelo anonimato ou vários outros motivos.

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