Fernando Cupertino

Em Santa Rita do Bugre havia quem dissesse que Nhô Quincas era homem de duas devoções: uma ficava na Matriz e a outra, na venda de Siô Anselmo. Não se podia afirmar qual das duas era mais antiga, porque, quando alguém lhe perguntava, ele respondia que ambas vinham de muito longe e que não convinha meter religião em conversa de homem.

Naquele domingo, porém, Dona Benvinda resolveu tomar providência. Era dia de festa na Matriz, com missa cantada, e desde cedo os sinos repicavam pelas ladeiras da vila, chamando o povo para a celebração. As mulheres vestiam suas melhores roupas e algumas cobriam a cabeça com a mantilha; os homens, de roupa domingueira e chapéu debaixo do braço, iam chegando em pequenos grupos, parando no adro para trocar notícias antes de entrar. As irmandades já se movimentavam dentro da igreja, cada qual cuidando de suas obrigações, e o cheiro das quitandas vendidas nas proximidades se misturava ao da cera das velas.

Dona Benvinda aprontou o marido e, antes que ele saísse, recomendou:

— Hoje o senhor vai direto pra Matriz.

— Pois vou.

Ela conhecia o marido suficientemente bem para saber que aquela resposta não significava muita coisa.

Quincas tomou a direção da igreja. O caminho, entretanto, passava diante da venda de Siô Anselmo, e a porta estava aberta. Havia dois conhecidos encostados no balcão, conversando sem pressa, como se não houvesse sino no mundo capaz de lhes interromper a prosa.

Depois veio outra, que seria a última. Só que, em matéria de última dose, Nhô Quincas tinha a mesma opinião de certos pecadores: a última nunca era a que estava no copo

Siô Anselmo ofereceu uma dose. Quincas aceitou.

Depois veio outra, que seria a última. Só que, em matéria de última dose, Nhô Quincas tinha a mesma opinião de certos pecadores: a última nunca era a que estava no copo.

Quando afinal chegou à Matriz, a missa já ia adiantada. Entrou de mansinho, procurando não chamar atenção, mas tropeçou no primeiro degrau e precisou agarrar-se à coluna da porta. O povo olhou. Quincas, sem perder a compostura, fez o sinal da cruz com tamanha solenidade que parecia ter entrado daquela maneira de propósito.

Encontrou Dona Benvinda e sentou-se ao lado dela.

Por alguns minutos, permaneceu quieto. Depois se inclinou para a mulher:

— Esse banco tá se mexendo.

— O banco está quieto.

Quincas olhou para os lados, desconfiado.

— Então não fala nada. Vai que ele ouve.

Dona Benvinda preferiu não responder.

A missa prosseguiu com a solenidade dos domingos de festa. Quincas esforçava-se para acompanhar as orações, embora de vez em quando fechasse os olhos por tempo demais. Quando o padre começou o sermão, falou sobre as tentações do mundo, as fraquezas do homem e o perigo de se aproximar das ocasiões de pecado.

Quincas escutou atentamente. Quando o padre recomendou aos fiéis que fugissem das tentações, ele murmurou:

— O difícil é quando a tentação fica bem no caminho de casa.

Dona Benvinda lançou-lhe um olhar fulminante, que dispensava qualquer explicação, e ele tratou de ficar quieto.

Chegou o momento da oração. O povo se pôs de pé e, pouco antes da Comunhão, rezou o Pai-Nosso. Nhô Quincas acompanhou com particular entusiasmo. Ao chegar ao “pão nosso de cada dia”, fez um movimento afirmativo com a cabeça, como se tivesse encontrado ali uma verdade que não admitia discussão.

Benvinda, que vinha atrás, não disse palavra. Olhou para o marido, olhou para a venda e seguiu pra casa, resmungando que no dia seguinte haveria de conversar seriamente com aquele homem

Pouco depois, aproximou-se para receber a Comunhão. Voltou ao banco com a expressão compenetrada de quem acabara de cumprir obrigação muito séria. Esperou alguns instantes e então cochichou:

— O padre me deu um pão sem gosto.

Dona Benvinda fechou os olhos.

— É a hóstia consagrada, Quincas.

Ele pensou um pouco.

— Eu sei. Só achei que vinha com mais sustança.

Foi o máximo que Dona Benvinda conseguiu suportar sem lhe dar uma resposta que, certamente, não ficaria bem diante do altar.

Terminada a missa, o povo começou a sair para o adro. Uns cumprimentavam os conhecidos, outros comentavam o sermão, enquanto as mulheres se demoravam nas quitandas e os homens aproveitavam a sombra para uma última conversa antes de tomar o rumo de casa. Era costume de Santa Rita do Bugre que a missa acabasse, mas a conversa ainda demorasse bastante.

O padre, ao fim da missa, havia dito as palavras protocolares:

— Ide em paz.

Quincas, já junto à porta, parou e olhou para a mulher.

— E essa paz, onde é que fica?

— É modo de dizer.

— Então vou sem saber onde é que fica?

E saiu. No adro, deu de cara com Siô Anselmo.

O vendeiro apenas sorriu.

Quincas levantou um dedo, prevenindo qualquer convite:

— Hoje não.

E continuou andando.

Siô Anselmo ficou só olhando.

Quincas deu mais alguns passos, parou, voltou-se e acrescentou:

— Melhor dizendo… ainda é cedo.

E pouco depois, entrou na venda.

Dona Benvinda, que vinha logo atrás, não disse palavra. Olhou para o marido, olhou para a venda e seguiu para casa, resmungando que no dia seguinte haveria de conversar seriamente com aquele homem.

Mas na cidadezinha todo mundo sabia que certas conversas ficavam para o dia seguinte, sobretudo quando diziam respeito a Nhô Quincas e à aguardente.

À noite, já em casa, ele contou à mulher, com a maior dignidade, que tinha assistido à missa, ouvido o sermão, rezado o Pai-Nosso e recebido a Comunhão.

Dona Benvinda permaneceu calada.

Quincas então acrescentou:

— Depois fui ali agradecer.

— Agradecer o quê?

Ele coçou a cabeça, procurando uma resposta que não lhe trouxesse maiores dificuldades.

— A missa.

Dona Benvinda virou-se para ele.

— E precisava agradecer na venda?

Quincas sorriu, satisfeito consigo mesmo:

— Uai, mulher, o padre mandou a gente ir em paz. Eu fui. Só não disse que era pra ir pra casa. E o ambiente ali da venda me dá tanta paz!…

E foi assim que Nhô Quincas ficou conhecido em Santa Rita do Bugre como homem muito religioso: nunca faltava à missa, jamais deixava de rezar o Pai-Nosso e tinha o costume, depois da bênção, de continuar a sua devoção na venda de Siô Anselmo.

Segundo ele, era tudo pela salvação da alma. A alma, pelo visto, é que não tinha pressa nenhuma em se salvar.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.