Em “As Vidas de Dubin”, Bernard Malamud descreve a crise do fim da maturidade de um biógrafo judeu

Na obra do autor americano, o personagem principal é um biógrafo que tem um caso uma moça mais jovem e começa a questionar o seu casamento de conveniência

Mariza Santana

William Dubin é um biógrafo consagrado. Escreveu sobre a vida do escritor e filósofo norte-americano Henry David Thoreau (1817-1862), recebeu uma medalha das mãos do presidente dos Estados Unidos por sua obra; e obteve sucesso e reconhecimento com o livro “Vidas Breves”, uma coletânea de biografias de personalidades que viveram pouco.

Agora, o biógrafo de origem judaica se prepara para um novo desafio: escrever a biografia do influente escritor e poeta inglês H. D. Lawrence (1885-1930), que também teve uma vida curta – morreu em 1930, aos 44 anos, vítima de uma meningite tuberculosa.

Lawrence renovou a estética da literatura britânica do século 20, mas ainda hoje é incompreendido, e muitas vezes chamado de indecente, imoral e pornográfico. Em suas obras — como o romance “O Amante de Lady Chatterley” — dava sexualidade aos personagens, como uma forma de retratar a intimidade de uma sociedade. Seus escritos possuíam um tom social, pois refletia a época em que viveu, período da industrialização acelerada da Inglaterra, que contrastava com as tradições do homem do campo. Era também um grande poeta (“O amor existe, e é coisa funda,/mas há coisas mais profundas que o amor//Antes de tudo, há o homem só”, em tradução de Leonardo Fróes).

Ao mergulhar nos documentos, cartas e episódios da vida do escritor inglês, o biógrafo, que mora em uma região rural do Nordeste dos Estados Unidos, vê sua vida sofrer uma reviravolta. Não somente por causa do literato a ser biografado, mas de Fanny, uma mulher que provoca uma verdadeira reviravolta na sua pacata vida. A amante, bem mais jovem, forma um triângulo amoroso junto com o protagonista e sua esposa, Kittie. Ela coloca em xeque um casamento sólido e de longa duração, embora baseado mais na conveniência do que no amor.

A partir dos encontros e desencontros com Fanny, o relacionamento de Dubin com a mulher Kittie e com os filhos Gerry e Maud, o biógrafo embarca em um carrossel de questionamentos. Seus sentimentos se modificam, dependendo da estação do ano. No inverno, ele enfrenta momentos depressivos, de pura insensatez; na primavera consegue se revigorar junto com as árvores e as flores do bosque próximo à sua casa.

Bernard Malamud: escritor americano | Foto: Reprodução

Relatando assim, parece que o livro “As Vidas de Dubin” é uma obra cansativa, sem grandes emoções. Mas o escritor norte-americano Bernard Malamud (1914-1986) narra, com tanta intensidade, as diversas facetas emocionais de William Dubin e sua história, assim como dos outros personagens, que é difícil interromper a leitura dos capítulos. Isso para acompanhar a crise de um homem no final da maturidade — no início do livro ele tem 56 anos, e todo o desenrolar da narrativa se passa em três anos, na década de 1970, período do breve governo de Richard Nixon. O bravo biógrafo está se aproximando dos 60 anos de idade.

À medida que sua vida sentimental vai se complicando, William Dubin enfrenta uma crise criativa e dificuldade para continuar a escrever a biografia do escritor inglês. Entretanto, quando seu relacionamento com Fanny deslancha, ele descobre uma nova vida e emoções inéditas, mais sensuais, fato que contribui para que possa entender melhor seu biografado, e seguir escrevendo sua nova obra.

O título do livro também poderia ser “A Vida Dupla de Dubin”, pois ele não consegue dar um fim ao seu casamento para se abrigar apenas nos braços jovens da amante. Embora loucamente apaixonado por Fanny, os laços que o ligam à mulher são muito fortes.

Ele vai se enveredando nessa crise existencial, como se estivesse em uma teia de aranha, de onde tem dificuldade de se desvencilhar. Mas deixemos o suspense quanto ao desfecho do livro, para não tirar o prazer do leitor de seguir, sôfrego, pelas páginas deste bem elaborado romance. O crítico Malcolm Bradbury assinala que “Dubin registra as vidas dos outros porque não consegue uma sua para viver”.

O autor do livro, Bernard Malamud, foi um escritor norte-americano de romances e contos, e um dos mais conhecidos autores judeus dos Estados Unidos do século 20. A crítica de seu país considera o livro “As Vidas de Dubin” como o seu mais belo romance, ao contar uma história comovente, com profundas reflexões sobre a vida e o fim da maturidade. Já o crítico Robert F. Kiernan postula que “seu romance mais eloquente é ‘O Faz-Tudo’” (Record, 398 páginas, tradução de Maria Alice Máximo).

Mariza Santana é crítica do Jornal Opção. E-mail: [email protected]

Trecho inicial do romance “As Vidas de Dubin”

“Às vezes se encontravam nas estradas, houvesse flores ou neve. Greenfeld passeava por várias estradas. O inverno, todo encapotado, Dubin, um homem grisalho de um metro e oitenta e pernas finas, caminhava pelo gelo e pela neve, segurando uma vara de vidoeiro branco. Greenfeld lembrava-se dele caminhando e expirando fumaça branca. Às vezes, quando seus caminhos se cruzavam, um acenava para o outro através dos campos cobertos de neve e varridos pelo vento.  Recordava-se do rosto de Dubin, meio escondido nos dias gelados, quando estava frio demais para conversarem. Quando podiam, contavam piadas ao passar. Já conhecia a do rabino que, ao ouvir o sacristão rezar: — Meu Deus, não sou nada, Vós sois tudo! —, replicava: — Veja só quem diz que não é nada! Dubin então soltava uma gargalhada cheia. Uma vez, quando parecia não estar bem, ele disse: — Isto aqui tem que ser o centro do universo, meu caro. — Onde? Esta estrada onde nos encontramos. Batia o pé enquanto falava. De outra feita, ao passar, disse: — Bolas, vivemos numa corda bamba, — e em seguida gritou: — Uma tristeza. — E um minuto depois: — Em essência, quero dizer. — Havia vezes em que Dubin lhe entregava um bilhete, que ele lia mais tarde e arquivava. Uma vez o flautista leu ali mesmo o pedaço de papel e rasgou-o. — O que está fazendo? — o outro gritou: — Isto eu já conheço — e perguntou: — Por que você não faz um diário? — Eu não — o biógrafo respondeu. — Não quero me tornar imortal.” (Editora Nova Fronteira, com tradução de Edna Jansen de Mello, 467 páginas)

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