Em “Arrancados da Terra”, Lira Neto revive a saga dos judeus sefarditas do século 17

Jornalista e pesquisador brasileiro faz relato da história do povo judeu na rota Lisboa-Amsterdã-Recife holandesa até a então nascente Nova York

Mariza Santana

Sefarditas é o termo utilizado para se referir aos judeus originários de Portugal e Espanha. Eles possuem tradições, línguas, hábitos e ritos diferenciados de seus irmãos asquenazes, os judeus oriundos da Europa Central e do Leste. Os historiadores supõem que os sefarditas se estabeleceram na Península Ibérica ainda na época das navegações fenícias, depois da destruição dos vários templos de Jerusalém, e já viviam no local no período da ocupação romana.

Embora eles estivessem há muito enraizados na Península Ibérica, muitos inclusive já convertidos à fé cristã, esse fato não os poupou dos horrores da Inquisição da Igreja Católica. Após a expulsão da Espanha pelos reis católicos Isabel de Castela e Felipe de Aragão, e na época em que os tronos espanhol e lusitano foram unificados, muitas famílias de origem hebraica deixaram o local onde moravam e foram se refugiar em Amsterdã, nos Países Baixos, onde havia maior tolerância religiosa.

De Amsterdã para a Recife conquistada pelos holandeses foi só mais uma etapa da aventura pelo mundo desse povo, que procurava viver longe de perseguições. E seguia à procura de bons negócios, principalmente na área do comércio. A saga de algumas famílias sefarditas, no contexto histórico do momento, é revivida com acurado cuidado histórico pelo escritor, biógrafo e jornalista cearense Lira Neto, em sua mais recente obra, o livro “Arrancados da Terra — Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York“.

O autor começa sua narrativa citando uma antiga placa do primeiro cemitério judaico e da sinagoga espanhola e portuguesa da cidade de Nova York, nos Estados Unidos, datada de 1656-1833. Shearit Israel era nome da congregação hebraica mais antiga de Manhattan, e significa “Remanescente de Israel”.

Lira Neto: jornalista e pesquisador | Foto: Divulgação da Companhia das Letras

O local comprova que os judeus sefarditas viveram na então Nova Amsterdã, que viria a se tornar a Big Apple, a grande metrópole norte-americana dos dias atuais. E mais: existe a hipótese de que um grupo de famílias hebraicas teria ido para Nova York do Recife, no Brasil, logo após a cidade ter sido reconquistada do domínio holandês por Portugal.

Lira Neto traz de volta alguns personagens, como o judeu cristão-novo Gaspar Rodrigues Nunes. No final do século 16, em Lisboa, caiu nas garras da crueldade da Inquisição. Preso, torturado, condenado e salvo da morte na fogueira por um triz, ele acaba fugindo de Portugal e migra para Amsterdã, onde já havia uma próspera e bem-organizada colônia hebraica. Retoma os ritos judaicos, muda de nome e forma nova família.

O escritor também apresenta outros personagens conhecidos dos brasileiros, como Mauricio de Nassau, que governou Recife durante a ocupação holandesa; e o Padre Vieira, famoso pelos seus sermões, mas que se mostrou ainda um experiente diplomata, ao se mover com desenvoltura no tabuleiro político da época, entre Brasil, Portugal, Países Baixos e até Inglaterra, no cumprimento da missão de defender os interesses da coroa lusitana.

Monumento em homenagem aos primeiros judeus que chegaram a Nova Amsterdã | Foto: Daniela Levy

Outros personagens vão compor essa reconstituição histórica, como os reis espanhóis Fernando IV e João IV, além de eminentes figuras de judeus de ambos os lados do Oceano Atlântico, guerreiros lusitanos e neerlandeses, índios, pessoas importantes e outros quase anônimos, ou então esquecidos das páginas dos livros escolares.

Lira Neto realiza uma reconstituição detalhada dos fatos históricos, e como eles se entrelaçam em causas e efeitos, envolvendo principalmente os sefarditas que decidiram apostar nas oportunidades de negócios no Brasil. Em uma narrativa deliciosa, principalmente para quem é fã de História, ele vai desvelando o que conseguiu levantar em pesquisas históricas, a respeito dessas pessoas, muitas vezes arrancadas de sua terra, mas que continuaram mantendo uma forte identidade devido à religião que professavam.

No final do livro, o escritor conta que sua ideia original era escrever uma biografia de Maurício de Nassau (por sinal, “Nassau”, do historiador Evaldo Cabral de Mello, é uma biografia competente do holandês. Saiu pela Companhia das Letras e conta com 320 páginas). Mas, ao mergulhar na documentação relativa ao domínio holandês em Pernambuco, se deparou com um tema paralelo que, aos poucos, o fez desviar completamente do projeto inicial. Pesou também a descoberta de sua própria ascendência de cristãos-novos. Antepassados seus que, perseguidos pela Inquisição Ibérica, se refugiaram em Pernambuco e depois no serão do Ceará.

Certamente, assim como no caso de Lira Neto, no sangue de muitos brasileiros corre ainda hoje um pouquinho de sangue sefardita. Por isso, Arrancados da Terra é uma obra tão especial, porque traz de volta a saga de personagens anônimos que também contribuíram para a formação do povo brasileiro, esse amálgama de raças e culturas.

Ao leitor que se interessa pelo assunto vale consultar “De Recife Para Manhattan — Os Judeus na Formação de Nova York” (Planeja, 256 páginas), da historiadora Daniela Levy.

Mariza Santana é crítica literária do Jornal Opção. E-mail: [email protected]

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