E se um alienígena descobrisse o Brasil?

Um devaneio de quem vê terras indígenas mais ameaçadas do que nunca

E se um alienígena descobrisse o Brasil hoje? Fico imaginando as manchetes dos jornais. Em um site de webjornalismo, provavelmente leríamos “Ignorando a existência de humanos, alienígenas dizem ter descoberto o Brasil”. As pessoas, apavoradas, indagariam pelos becos: “O que será de nós agora?”.

Nos botecos, o tema dos debates com certeza seria sobre quais costumes teriam que mudar primeiro. O que teriam que renunciar e, ainda, aceitar à sua rotina. Grupos mais revolucionários se reuniriam em assembleias para decidir um cronograma de luta e resistência.

Nas escolas, os professores correriam contra o tempo para tentar preservar a história ancestral brasileira nas mentes dos estudantes, para que os extraterrestres não fizessem sumir as memórias de uma só vez.

Pais e mães tentariam ensinar seus filhos a não aceitar as novas imposições. Outros fariam o contrário, para garantir a sobrevivência de suas famílias.

– Nós vamos deixar de falar português? – diria uma comentarista em um programa de TV com mais perguntas que respostas.

Os governantes entrariam e sairiam de reuniões atrás de reuniões à procura de uma forma de garantir soberania, sem perder investimento de outros países. Uns, mais ufanistas, proporiam declaração de guerra para proteger seu território.

– Afinal, nós chegamos aqui primeiro, temos uma cultura instalada que precisa de respeito – argumentaria. Crianças já teriam iniciado brincadeiras de quem consegue melhor imitar uma mão alienígena. Dois dedos unidos para cá, dois para lá e um espaço para simular que só possuem três e não cinco. Uma clara referência a “Star Trek”.

Na internet, os “memes” seriam incontáveis. Prevejo fotos do elenco de “Choque de Cultura” acompanhadas de frases como “achou que ia ter o Brasil pra sempre? Achou errado, otário!”. No Whatsapp, já consigo vislumbrar meu tio mandando um textão com a informação falsa de que haveria um modo de impedir a invasão alienígena, com uma narrativa repleta de emojis e sirenes de alerta.

O Greenpeace já estaria mobilizado para defender a preservação da Amazônia e impedir a exploração exterior. Um grupo de muita gente branca formaria uma frase visível à distância incalculável: “A Amazônia é nossa”. Os índios, por sua vez, ririam.

– Tolos, acham que já não passamos por isso?

Despreocupados, achariam graça daquela gente pálida, se sentindo os defensores da natureza.

– Para quem resistiu 519 anos, mais alguns não irá ser difícil, agora já temos a experiência.

Apesar do genocídio à população indígena brasileira, iniciado com a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500, muitas nações resistem no território tropical. Ao contrário dos demais, já estariam vacinados e, alguns, até tripudiavam: – É, tudo que vai, volta.

Seria recompensador ver um brasileiro não-indígena aceitar qualquer pedido por uma viagem em uma nave espacial. Assim como seus antepassados foram enganados por espelhos. Ou vê-los ameaçados de perder suas terras, como eles vêm sendo desde o início por quem quer que seja.

A realidade se inverteria, talvez, e a resistência procuraria nos índios uma ajuda para tentar se livrar dessa situação ou permanecer vivo. Com sua generosidade, eu até aposto que o fariam, mas não sem contextualizar e relembrar, todos os dias, o que já lhes fizeram passar e quantos já não foram assassinados.

Os únicos de que teriam sincera compaixão seriam dos negros, que, descendentes dos povos da África, vieram sequestrados para serem escravizados em seu lugar. Esses de nada tinham culpa. Mas não podiam negar a simpatia pelos alienígenas, que deixaram os brancos desesperados pela preservação da propriedade privada e pela não efemeridade de sua história.

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