Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Destarte, imitamos

Não está aqui o cronista defendendo o pastiche, mas, tenta, isto sim, exemplificar parcamente a questão da persistência de modelos na literatura e da validade de se recriar para inovar

José Guilherme Merquior disse alhures que uma pessoa é capaz de uma ou duas ideias originais, quando as tem; o resto é recriar, citar, cotejar, comparar, copiar, reinventar – ou o que quer que seja aplicável ao escritor não complacente com o mero pastiche ou o simples roubo de ideia alheia.

Merquior teve suas obras completas relançadas pela Editora É Realizações

Um dos episódios de que gosto muito sobre o reaproveitamento de ideias alheias, com todo respeito ao que se reinventa, vem de Jorge Luis Borges, para quem os escritores “somos versículos, palavras ou letras de um livro mágico, e esse livro incessante é a única coisa que existe no mundo; ou melhor dito: é o mundo…”  

Sabemos que Borges pode ter mentido mais do que apenas na data de nascimento, tendo declarado ter nascido em 1900 (e não em 1899, como prova a certidão de idade), mas isso não enodoa o talento do velho bruxo de Buenos Aires. Pode ter falsificado fatos e trocado fontes em sua pequena grande “História universal da infâmia” – e daí? pergunto.

O argentino Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899, embora para muitos, incluindo Carpeaux, valha a mentira que o jovem autor contara ao editor da revista “Nosotros” Alfredo Bianchi: “nasci em 1900!”

Tal mentira é leve para um escritor que falsificou histórias e fabricou uma miríade de lendas com o seu saber enciclopédico e seu humor peculiar, principalmente quando escrevendo em parceria com o amigo Bioy Casares, sob o pseudônimo de Bustos Domecq. Assinaram juntos o livro “La leche cuajada de La Martona” (1935).

É como se o velho bibliotecário dissesse –, principalmente no seu livro “A história universal da infâmia” que: sim! “posso ter mentido, mas tudo que disse tem uma fonte e é nessa zona de verdade desestabilizada onde o pecado da mentira é mais abstrato e mais perturbador”.

Ou, conforme à fonte original: “a verdade não se diz; se delata, sempre parcialmente, naquilo que se diz”. Isso é totalmente diferente do blogueiro atual desta “Civilização do espetáculo” (título de Mário Vargas Llosa) que falsifica com finalidade explícita de convencimento político-ideológico do oponente e não de fazer ficção (e não História).

Segundo Otto Maria Carpeaux, Borges “integrou os elementos irracionalistas do criacionismo num sistema filosófico cuja tese principal é o caráter cíclico do Tempo e, portanto, a reversibilidade de todos os acontecimentos”.

E Carpeaux prossegue: “Mas em vez de um tratado de metafísica, [Borges] escreveu contos filosóficos, as “ficciones” altamente fantásticas, engenhosamente construídas e baseadas em notas eruditas diabolicamente inventadas, com a ajuda de toda a erudição fabulosa de que Borges dispõe realmente. É uma arte das mais requintadas, algo fria e desumana, sempre fascinante: obra significativa do século XX”.

Ele próprio, Borges, dá azo à tese de que há sabedoria em não se desejar ser original:

 Aqueles que copiam minunciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal, fazem-no por confundir esse escritor com a literatura, fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto é afastar-se da razão e a ortodoxia. Durante muitos anos, eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey” (Jorge Luis Borges, em Outras inquisições).

Não está aqui o cronista defendendo o pastiche, mas, tenta, isto sim, exemplificar parcamente a questão da persistência de modelos na literatura e da validade de se recriar para inovar, emular modelos literários – como em Machado de Assis e em J. L. Borges.

Merquior dá a Borges o título de “O mago de Maipu[i]”, admitindo que diante de Borges “é tentador aproximá-lo de pelo menos dois outros grandes casos de schopenhauerianismo literário: Machado de Assis e Kafka; Machado para quem a vida é a dor da vontade cega e Kafka, para quem o pecado original é o princípio da individuação no plano ético, a individualidade sem destino comunitário”.

Jorge Luis Borges, nessa aproximação que faz Merquior, tem “o estilo corrosivo de seu  maior antecessor no humorismo latino-americano – o Bruxo do Cosme Velho – seu fantástico é, também ele, um convite paradoxal a que a poesia (a alta literatura) se acerque, uma vez mais, obliquamente embora, da prosa da vida, humilde e fascinante”.

Em um livro desafiador, polêmico e “militante”, o professor João Cezar de Castro Rocha cria o conceito de “compressão de tempos históricos” que nos ajudaria a entender “o fenômeno envolvido na apreensão de códigos distintos”, na imitação.

Isso poderia servir para o leitor avaliar “a potência da poética da emulação”. Para João Cezar, [Borges] “o autor de Ficciones elaborou uma alternativa que se beneficia do princípio da aemulatio” e para justifica-la, cita Borges:

“Creio que nossa tradição é toda a cultura ocidental, e creio também que temos direito a essa tradição, direito maior do que o que podem ter os habitantes de alguma outra nação ocidental.”
[…]
“Creio que os argentinos, os sul-americanos em geral, estamos em situação análoga: podemos manejar todos os temas europeus, manejá-los sem superstições, com uma irreverência que pode ter, e já tem, consequências afortunadas”.

Ao leitor que desejar aprofundar este conceito de emulação, recomendo a síntese que o professor João Cezar apresentou na revista Rascunho, online[ii]. Ali, Castro Rocha, ao analisar exemplos da pintura universal e da literatura, refere-se “ao par imitatio e aemulatio, dominante especialmente a partir da cultura latina, dado o desafio de assimilar as técnicas e as obras da cultura grega e do legado helenístico”.


João Cezar de Castro Rocha, professor titular de Literatura Comparada na UERJ, coordena a Coleção J.G. Merquior

O professor João Cezar foi aluno de René Girard e aprofunda questões da “teoria mimética e os desafios da mímesis em circunstâncias não hegemônicas”, lançando um olhar abrangente para os conceitos teóricos do pensador francês, de modo a pensar criticamente o teatro de Shakespeare, a representação teatral (e da ficção, de modo geral) nos países latino-americanos
– ele não gosta da expressão “países periféricos”, preferindo países “não hegemônicos”.

“Culturas Shakespearianas” (2017) é mais um livro dentro do projeto que começa com “Machado de Assis: por uma poética da emulação (2013) e a que devem se seguir “Poética da emulação” e “Desafio da Mímeses”.

É um “ensaismo cubista” pleno de ideias – nem todas originais, mas que nos garantem que um contemporâneo pode ter mais do que uma ideia original, embora possamos discordar delas, continuamos sendo por elas desafiados e admirados do brilhantismo com que são desenvolvidas; após as quais se segue uma conclusão militante, na linha do que faz o crítico no jornal “Rascunho”, republicando “O mini manual do guerrilheiro urbano: leituras e prismas[iii]”, do terrorista Carlos Marighela.

A partir do entendimento de conceitos básicos da obra de René Girard, principalmente pela perspectiva aberta pela “teoria mimética”, João Cezar realiza um esforço admirável no sentido de entender a “posição da literatura na teoria mimética” e as consequências que podemos tirar de estudos correlatos (Johnsen, Bandera, Merril) e da “aposta na potência epistemológica da literatura, vale dizer, na produção de conhecimento sobre nós mesmos”.

A ironia do estudioso não o permite cair no abismo do “risco de inflar o ego com a teoria que se formula” – o remédio é, segundo João, shakespeariano: “não se levar muito a sério e concentrar-se no trabalho”.

É aí que João se aproxima de José. “Basta ter uma ou duas ideias próprias e trabalhar muito – o tempo todo” – afirma:

“Uma antropofagia mimética ou uma mímesis antropofágica propiciam a transformação do “outro outro” em sujeito, convertendo sua “visibilidade débil” em presença constitutiva na pólis contemporânea, nuançando as assimetrias do mercado simbólico globalizado. Ao fim e ao cabo, para adquirir voz própria não deveria ser necessário expressar-se neste ou naquele idioma.  Basta ter uma ou duas ideias próprias e trabalhar muito – o tempo todo”

Isso é a supremacia do academicismo, mas o leitor comum entenderá que está diante de um crítico e professor, de um analista acima da média e capaz mesmo de com muito trabalho deixar seu nome na história da crítica deste país.

Recorro a uma resenha de Antonio Marcos Vieira Sanseverino sobre João Cezar[iv], que reabilita o estudo que fez o professor-crítico sobre o livro “Machado de Assis: por uma poética da emulação”. Teria sido emulando Eça de Queiroz e outros europeus que o mulato carioca de um país não hegemônico teria dado uma viravolta em sua obra, com o lançamento de “Memórias póstumas de Brás Cubas”:

“De um lado, a reinvenção conscientemente anacrônica da aemulatio, em sua reciclagem pós-romântica, através da poética da emulação, provoca efeitos inesperados no plano da política cultural. O mais importante teria favorecido a superação da crise artística de Machado, uma vez que lhe permitiu compreender de forma inovadora o relacionamento de um escritor periférico com o modelo das “grandes nações pensantes” (p.153 do livro de Castro Rocha).

Castro Rocha reforça que neste livro (que quero muito ler e ao qual voltarei, com certeza nesta coluna) pretendeu “oferecer um novo retrato de Machado de Assis mediante o resgate de sua complexa relação com Eça de Queirós, momento em que o autor de Dom Casmurro principia a resgatar conscientemente a técnica da aemulatio”.

Não é segredo para o leitor experimentado (e atento) que Shakespeare imita os gregos, que Petrarca imitou Cícero, que Machado imitou Eça de Queirós e Ariano Suassuna bebeu na fonte ibérica dos contadores de histórias. Os exemplos se multiplicam e este não é o cronista adequado para a dissertação nem o espaço que reivindique ser exaustivo. Só aplaco as dores da emergência de ler.

No entanto, deixo a meus seis leitores mais um exemplo acadêmico[v] que poderá levar o leitor com veleidades literárias a pensar, seriamente, em começar a imitar seu autor predileto, como às vezes eu próprio faço, sem culpa alguma – e, quem sabe, uma hora dessas ainda me caiam uma ou duas ideias originais do céu acima da cabeça:

“O Tratado da imitação, de Dionísio de Halicarnasso, do século I a.C., é uma das principais obras que teorizam sobre tal concepção. Às vezes ofuscado, nos dias de hoje, pelo brilho de Platão, de Aristóteles e dos latinos, esse tratado é uma excelente fonte para a discussão sobre a imitação de escritores-modelo, atividade denominada de emulação. Esta pode ser definida, conforme o faz o tradutor da versão que consultamos, como um esforço que leva o imitador a igualar, se não a ultrapassar, o próprio modelo, definição corroborada por Quintiliano, segundo o qual “só pela imitação não há crescimento”, pois “também serão celebrados aqueles que forem considerados como tendo superado os seus antecessores e ensinado os seus sucessores”.

Uma nota final

Serve esta para avisar aos mais próximos que minha posse na Academia Goiana de Letras, eleito que fui para a Cadeira 32, dar-se-á no dia 18 de abril próximo. E lembro que foi a partir da imitação de um canto xavante que toda a minha aventura de poeta menor começou:

“Com o sono eu sonho
Durmo e sonho –
os outros vão cantando.


Eu sonho pra tornar felizes
os outros que cantarão meu sonho.


Eu durmo e sonho –
o que os outros cantarão”

(Canto Xavante)
(Esta pequena epígrafe marca o meu primeiro livro de poesia (“Frágil armação”), sendo até hoje uma chave para os poemas que rabisquei ao longo desses trinta e quatro anos.

Adalberto de Queiroz, 64. Jornalista e poeta, autor de “Frágil armação” (Editora Caminhos, 2ª. ed., 2016) e “O rio incontornável” (Edit. Mondrongo, 2017).


[i] MERQUIOR, José Guilherme. “As ideias e as formas”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, pág. 77-80.

[ii] ROCHA, João Cezar de Castro. In: Jornal Rascunho, versão online, link consultado em 07/03/2019: http://rascunho.com.br/poetica-da-emulacao-um-quadro-teorico-1/

[iii] ROCHA, João Cezar de Castro. In: Jornal Rascunho, versão online, link consultado em 07/03/2019 http://rascunho.com.br/minimanual-do-guerrilheiro-urbano-leituras-e-prismas-4/

[iv] SANSEVERINO, Antonio Marcos Vieira. “A viravolta machadiana: velho problema, nova questão. Resenha de “Machado de Assis: por uma poética da Emulação”, de João Cezar de Castro Rocha.

[v] SALTARELLI, Thiago. “Imitação, emulação, modelos e glosas: o paradigma da mímesis na literatura dos séculos XVI, XVII e XVIII”. Link em Ufmg, “Aletria”, nr. Especial (2009) – http://bit.ly/2THTyl0

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