Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Amor à França (2): a poesia de Yves Bonnefoy

Corria célere o ano de 1989 – que coisas aconteciam que o tornaram um rio tão ligeiro, além da queda do Muro de Berlim e da revolta estudantil na China? –, a vida seguia seu curso e eu continuava meu aprendizado da língua francesa, estudando e lendo no idioma de Molière

“Poèmes”, livro de Yves Bonnefoy que reúne produção de 1947 a 1975

Ah, sim, quando caiu o Muro de Berlim, naquele 1989 cheio de eventos políticos, eu ainda me considerava uma espécie de “iluminista” num país que hesitava (e hesita) em alcançar a Civilização; via o cerco fechar-se contra os estudantes em Pequim, culminando com o Massacre da Praça da Paz Celestial, participando de passeatas e “atos públicos” em minha cidade.

Naquela quadra da vida, vi e participei de movimentos políticos, da militância típica da redemocratização do País, fui mais um dos jovens universitários apoiadores das candidaturas de esquerda, como militante; entendi que estava num dilema de vida ou morte pela democracia…

Hoje, ao olhar para as anotações sinto-me como o crítico gaúcho Paulo Hecker Filho[i], “em estado de prece, isto é, cansado. Menos corporalmente que no tempo”. E mais ainda certamente, porque, como o gaúcho, eu “sei que os fatos nos atravessam como a água aos campos – sumindo… mas deixam atrás uma verde novidade, delícia dum momento, embora: delícia!”.

A delícia de viajar juntava-se à consciência do correr do tempo e as novidades se juntavam à experiência que se ia acumulando. E com a maturidade vieram decisivas mudanças de postura, abdicação de crenças políticas da juventude, quando feneceram as empolgações típicas do esquerdismo juvenil, que ficaram como rabiscos em “cadernetas de viagem, em agendas de trabalho, notas às margens do tempo…

Sim, Hecker Filho tem razão, pois “cadernetas são ladras da vida”, e, assim, quando o rio da vida nos move, correnteza abaixo, nós nos tornamos presas fáceis das sensações esparsas: as mesmas que ele sentira em Buenos Aires, que eu senti em Paris ou Pas-de-Calais, que o leitor sentira ou sentirá alhures…

Em maio de 1989, Marc Souchon (da Universidade de Besançon, França), professor – mais um que veio a se tornar meu amigo -, dedicou-me “Poèmes”, de Yves Bonnefoy, na esperança de que vivêssemos num mundo mais poético: “Avec toute mon Amitié, tous mes encouragements et mes voeux pour um monde plus poètique“.

A amizade e os votos de incentivo em prol de “um mundo mais poético” daquela dedicatória me levaram a venerar a figura do poeta e dos versos deste volume que cobre a produção poética de Bonnefoy de 1947 a 1975.

E assim, o jovem que havia aprendido a amar Vítor Hugo, Molière, Lamartine, Baudelaire, adentrou ao mundo dos poetas do século XX com a poesia de Edmond Jabès, René Char e, principalmente, de Yves Bonnefoy, entre outros.

A notícia do desaparecimento do poeta deu-se em meio ao ruído da Copa de futebol da Europa, no dia 1º. do mês de julho de 2016, em Paris, aos 93 anos. Por conta de todo o noticiário específico e das férias, só vim a chorar a morte do poeta dois dias depois do ocorrido.

Essa presença de Bonnefoy em minha vida há de continuar forte, chegado que foi pela mão de um amigo francês que viveu por um tempo em Goiás. E, passados 29 anos, renovo meus votos de amor à poesia de Bonnefoy e minha profissão de fé na Literatura.

De minha parte mais ainda depois que me afastei de minhas funções diárias como empreendedor, ou que me livrei das “agruras do comércio”, posso então seguir vivendo ainda mais de perto o conselho do amigo Marc Souchon, professor-visitante, “professor-leitor”, mas sobretudo saudoso amigo de quem enternecido me recordo nesta crônica.

Yves Bonnefoy (1923-2016)

O poeta Bonnefoy:

Yves Bonnefoy (1923-2016): busca, sem trégua nem concessões, do “vrai lieu” (o lugar verdadeiro) da grande poesia

Em julho de 2016, enfrentamos os leitores da poesia francesa do século XX, o desaparecimento deste que foi um dos mais importantes e produtivos poetas de “la vieille France”, foi a hora do adeus a Yves Bonnefoy ou para outros, hora de conhecer a poesia do bardo francês.

Dele disse em obituário a Enciclopédia Universalis: “A obra de Yves Bonnefoy (1923-2016) situa-se sob o signo da injunção de Rimbaud (em Illuminations): « trouver le lieu et la formule » [“encontrar o lugar e a fórmula”].

“A obra do poeta Bonnefoy se liberta muito pouco do surrealismo, numa busca que vai se revestir de múltiplas fórmulas, em diálogo constante com umas e outras, a saber: poemas onde se afirma uma busca da presença que devolve a palavra ao seu verdadeiro lugar (como “Du mouvement et de l’immobilité de Douve”); relatos onde a potência do sonho revela o que o cotidiano dissimula (como em “L’Arrière-pays”); ensaios nos quais se desenvolvem, sobre os rastros de Baudelaire, um diálogo entre pintura e poesia (caso de “Le Nuage rouge”); e traduções, onde, por fim, fica evidente o domínio do verbo Shakespeariano – de “Jules César” ao “Conte d’hiver”, afinal Bonnefoy foi tradutor de Shakespeare para o francês.

Assim, aos francófonos, recomendo a leitura completa no link consultado em 8 de julho de 2016 (clique aqui para saltar à Universalis.fr./) e aos não-francófonos que desejarem conhecer a obra de Yves Bonnefoy, recomendo este belo website O Poema, dedicado à obra de Bonnefoy, traduzido no Brasil pelo francófilo professor Mário Laranjeira.

“A poesia de Yves Bonnefoy[ii] é marcada por uma busca, sem trégua nem concessões, do ‘vrai lieu’ (lugar verdadeiro) – esperança, sempre a preceder a palavra -, da unidade a ser reencontrada. Aceitação do limite, da finitude e da morte que conduz ao encontro, na outra margem, das coisas simples em que revive a manifestação do ser: a moradia, a luz, o fogo, a pedra, a folhagem, a neve, o amor.”

“Sua obra poética já foi traduzida para mais de vinte idiomas e é reconhecida pela crítica como comparável ao que de melhor se produziu na França em todos os tempos.”

Dou-me conta, que ao dar adeus a Bonnefoy acumulo uma dívida imensa em minhas recordações e em meus escritos esparsos, com os poetas da minha formação francofônica, feita na Alliance Française dos saudosos anos 80 do século passado…

E a ti, poeta amado, fico certo de que já soou “o gongo, contra a arma disforme da morte”.

Yves Bonnefoy, nascido em Tours, em 1923, morreu em Paris no dia 1º de julho de 2016.

Enquanto vou seguindo o rio, me acompanho de sua poesia, vivo os caminhos, como no seu poema “Les Chemins” (Os Caminhos), que tive a ousadia de traduzir e a submeto à paciência do leitor de Destarte:

“Caminhos, em meio
À matéria das árvores. Deuses, entre
os tufos deste canto incansável de pássaros.
E todo teu sangue arqueado abaixo de mão sonhadora,
Ó próximo, oh! meu dia inteiro.

Quem colhe o ferro
Oxidado, entre as altas ervas, não esquece jamais
Que dos escolhos do metal a luz pode se apossar
E consumir o sal da dúvida e da morte”.

E para encerrar este trecho da viagem desta “memorabilia”, deixemos que o rio fale: “Douve Fala” (Douve Parle[iii]), poema de Bonnefoy, na tradução do professor Mario Laranjeira:

“Que palavra surgiu perto de mim,
Que grito nasce numa boca ausente?
Mal posso ouvir o grito contra mim,
Mal sinto o hálito que me nomeia.
 
“Quelle parole a surgi près de moi,
Quel cri se fait sur une bouche absente?
A peine si j´entends crier contre moi,
A peine si je sens ce souffle qui me nomme.
No entanto o grito em mim vem de mim mesmo,
Estou murado em minha extravagância.
Que voz divina ou que estranha voz
Consentira em habitar o meu silêncio?”
Pourtant ce cri sur moi vient de moi,
Je suis muré dans mon extravagance.
Quelle divine ou quelle étrange voix
Eût consenti d´habiter mon silence?”

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta. Autor de “O Rio Incontornável”, Editora Mondrongo, Itabuna (BA), 2017.

[i] HECKER FILHO, Paulo. “A Alguma Verdade: Crítica e autocrítica”, Porto Alegre, Edição do Autor, 1952 – pág. 204 et passim.

[ii] BONNEFOY, Yves. “Obra Poética”, tradução e organização de Mário Laranjeira, São Paulo: Editora Iluminuras, 1998.

[iii] BONNEFOY, Yves. Poemas traduzidos e publicados online: http://www.culturapara.art.br/opoema/yvesbonnefoy/yvesbonnefoy.htm

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