“De Canção em Canção” é música para os olhos

Diretor reúne elenco pesado para brincar com a câmera e opta por lirismo do que em sua filmografia passada

Diretor reuniu atores do peso de Ryan Gosling e Rooney Mara| Foto: Divulgação

Assistir ao novo filme de Terrence Malick, “De canção em canção”, é como ouvir um disco novo de uma banda indie, de cabo a rabo, sem interrupção. Você vai se divertir num momento ou outro, mas na maior parte do tempo se sentirá entediado, melancólico e, por vezes, confuso.

Malick, aclamado por filmes como “Além da linha vermelha” (1998) e “A árvore da vida” (2011), é famoso por seu entusiasmo com a linguagem cinematográfica em si, muito mais do que com qualquer outro aspecto do filme. Suas obras trazem imagens exuberantes, muito bem trabalhadas, e com uma forte puxada filosófica.

Desta vez, o diretor e roteirista reuniu um elenco pesado para brincar com a câmera, e escolheu imprimir um lirismo maior do que em sua filmografia passada. A sinopse oficial diz tratar-se de uma olhada geral na vida de dois casais em Austin, Texas, fortemente ligados pela cena musical da região, e que perseguem o sucesso através da sedução, traição e do rock’n’roll. Mas não chega a ser tão divertido quanto parece.

Na linha de frente, um Ryan Gosling pré-La La Land (já que as filmagens dessa obra aqui começaram em setembro de 2012) e Rooney Mara surgem como BV e Faye, o casal mente aberta bonzinho que tenta encaminhar uma vida estável juntos. Michael Fassbender é Cook, um empresário musical arrojado e bem sucedido, que enganará várias ninfetas, inclusive Faye e a inocente garçonete Rhonda, composta pela sempre linda Natalie Portman.

Para a experiência, Malick preferiu abandonar as decupagens de roteiro tradicionais e os storyboards, instruiu os atores superficialmente, os colocou em cena e levou a câmera para a mão na maior parte do tempo. Com poucos takes, o objetivo era captar a ação de forma mais natural e crua possível. O efeito é bastante convincente quando se vê Fassbender rolando no chão com Anthony Kiedis, Flea e Chad Smith, do Red Hot Chilli Peppers, ou aguentando uma conversa enjoada de Iggy Pop. De outro lado, Mara adota Patti Smith como mentora e chega a subir ao palco com o sumido (mas muito bem-vindo de volta) Val Kilmer. As cenas de shows foram, em sua maioria, gravadas no Austin City Limits Music Festival e no SXSW 2016.

O filme começa morno, lembrando bastante comercial de cemitério ou de empresa de seguros, mas tem lá seus picos de emoção. Aos poucos, a identificação com os personagens aumenta, e a curiosidade por saber onde tudo vai parar ajuda a esperar pelo final das pouco mais de duas horas de exibição.

O problema é que o roteiro é fraco. Em que pese a beleza da narrativa visual e sonora, ainda que tremulantes, a história dos casais principais é apresentada de forma bastante superficial, e não fosse pelos artifícios do diretor – inclusive em apresentar o enredo de forma não-cronológica – o roteirista Malick seria facilmente confundido com o de um filme qualquer da sessão da tarde. Até mesmo os pontos de virada, com um bom potencial dramático envolvendo a aparição de Cate Blanchet (por um lado) e a saída de cena de Portman (em outro momento, com belos planos de câmera fixa – especialidade inclusive filosófica do diretor), são bastante discretos, evidenciando que não era a intenção de Terrence explorar uma grande trama em primeiro plano.

O filme, que conta ainda com Holly Hunter e Bérénice Marlohe no elenco (Christian Bale e Benício Del Toro chegaram a gravar cenas, mas foram cortados de última hora), estreou nos Estados Unidos no último dia 10 de março, na programação do Festival SXSW 2017 (South By Southwest Festival). Chegou às telas brasileiras em circuito reduzido no dia 20 de julho. A expectativa é bastante alta de quem ainda não assistiu, mas as opiniões dos críticos se dividem. Recomenda-se parcimônia na audição.

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