Curiolando, o curió que se salvou da fome do gato

Sinésio Dioliveira

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Conto dedicado à minha amiguinha Bárbara Toledo Gomes, de 9 anos

Curiolando vivia feliz como todas as aves que moravam numa pequena floresta. To­das despreocupadas com semear, segar e recolher provimentos para os celeiros. Por lá o Pai celestial ainda as sustentava. A floresta era cortada por um ribeirão repleto de peixes. Suas águas eram tão límpidas que era possível ver os peixes com facilidade. Lambaris e piaus predominavam por lá. E por isso eram presas fáceis dos mar­tins-pescadores, socós, tuiuiús…

Nessa floresta viviam também saracuras, jaçanãs, garças diversas, tizius, coleirinhas, bigodinhos, canários-da-terra, sabiás-do-campo, almas-de-gato e outras muitas aves.

Certa vez, já quase no fim de uma tarde de novembro, em ple­na primavera, Curiolando teve u­ma surpresa desagradável. Ao buscar comida nos pendões de ca­pim para seus dois filhotes de duas semanas, pousou num galho se­co. Achou o galho diferente, mas, como dar comida para seus fi­lhinhos era algo mais urgente, Curiolando nem teve tempo de observar direito onde havia pousado.

O galho seco estava entre os pendões de capim, num lugar ideal para facilitar o recolhimento das sementes de capim. Ele sentiu seus pés presos ao galho. Assustado, tentou voar para escapar. Só que não conseguiu e ficou preso de cabeça para baixo, batendo as asas barulhosamente. Daí a poucos instantes apareceu um homem correndo e desprendeu os pés de Curiolando do galho seco e o colocou dentro de um alçapão. Desesperado, ele se debateu nas laterais do alçapão em busca de liberdade, a ponto de sangrar o bico. O homem, um vendedor de passarinhos, capturou Curiolando com visgo de leite de jaqueira. Não era um galho propriamente, mas um pedaço de ferro simulando um.

Depois disso, Curiolando nunca mais viu seus filhinhos nem a mãe deles. Foi levado embora para bem longe da floresta da qual tanto gostava. A viagem foi muito sofrida: algumas horas de ônibus dentro de uma caixa de madeira cheia de compartimentos e com alguns furos nas laterais dos compartimentos. Os furos eram para entrada de ar e assim as aves transportadas não morrerem. Essa caixa estava dentro de uma mala também furada mas de modo discreto. Alguns pássaros acabaram não resistindo à viagem, mas Curiolando sim.

Curiolando acabou sendo vendido, e seu destino foi morar na cidade grande. Ele, que tinha uma floresta para viver, acabou aprisionado numa minúscula gaiola que, durante o dia, ficava pendurada na parede de uma área e à noite o dono a recolhia para dentro de casa.

Foi quase um ano engaiolado. Após alguns meses, Curiolando acabou cantando, mas não da maneira feliz como era na época da liberdade. Ainda assim seu canto deixava o homem que o comprou orgulhoso. Seus chilreios eram ouvidos ao longe, inclusive chegaram aos ouvidos de um gato pardo, que acabou localizando o curió. A partir de então, o felino passou a desejá-lo como refeição e passou a observá-lo de longe.

Numa certa tarde, já beirando as 17 horas, o homem teve uma crise de hipertensão. Sua mulher, então, desesperada, chamou um táxi, e os dois foram
para o hospital. O homem estava tão mal que nem se lembrou que Curiolando tinha ficado na área.

Isso foi a oportunidade de o gato realizar o seu desejo. Che­gou silenciosamente. Foram dois pulos inúteis sem alcançar a gaiola, mas no terceiro sua pata dianteira esquerda acertou a gaiola, que se soltou do prego na parede. Na queda, a travinha da porta a­cabou se quebrando e, no de­sespero do acontecimento, Curi­o­­lando acabou achando a porta aberta. O gato ainda tentou pegá-lo, saltando sobre ele, assim que Curio­lando levantou voo, mas em vão.

Voou por alguns minutos. Pousou na copa de um angico bem alto de uma praça. Perma­neceu por lá alguns instantes até se recuperar do susto e ganhou o céu novamente. (Talvez em direção à floresta onde vivia feliz!)

Sinésio Dioliveira é escritor e jornalista.

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