“Caravanas”, de Chico Buarque: a culpa deve ser do Sol

Mais que poético, álbum “Caravanas”, de Chico Buarque, é um disco-manifesto, com negros torsos nus e sungas estufadas, e o artista continua o mesmo libertário de sempre, com um recado ao público contemporâneo, atento ou não

Chico Buarque: “Seu manifesto não olvida da grande chaga social do Brasil, a escravidão: ‘E essa zoeira dentro da prisão / Crioulos empilhados no porão / De caravelas no alto mar’.”

Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

Antes mesmo de chegar às lojas, com a divulgação do videoclipe oficial da faixa de abertura – “Tua cantiga” –, o 23º álbum de estúdio de Chico Buarque “Caravanas” (Biscoito Fino, 9 músicas, 2017), já dava o que falar. Talvez motivado pela reação ao seu engajamento na defesa da impopular presidente Dilma Rousseff, meses antes, houve uma desproporcional crítica à letra da canção, musicada pelo pianista Cristóvão Bastos. O pretexto foi banal. Na quarta estrofe da primeira faixa, o eu-lírico do autor de “Mulheres de Atenas” (“Mirem-se no exemplo/ daquelas mulheres de Atenas / vivem por seus maridos/ or­gulho e raça/ de Atenas”) – este, muito mais misógino pois as mulheres eram abandonadas ainda “gestantes” –, escreveu: “Largo mulher e filhos / e de joelhos / vou te seguir”, caso o coração da amada suplicasse, ou seu capricho exigisse. O mundo caiu, sob uma saraivada de críticas nas redes sociais e na imprensa – de feministas, machistas e machistas neofeministas – a ponto do cantor ter que se manifestar publicamente: “Continuar casado seria muito mais machista, em tais circunstâncias”, disse Chico, por meio de sua assessoria.

Os críticos se fixaram nesta canção. Atendo-se apenas às análises feitas em veículos goianos, têm-se alguns exemplos. O psicanalista Cristiano Pimenta, em artigo publicado na edição 2.200 do Jornal Opção, intitulado “Chico Buarque, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau”, cita um comentário da feminista Flávia Azevedo em que ela conclui: “essa mulher que Chico evoca na canção não sou eu…, essa que precisa ser salva, que sonha com o reino do lar, essa que goza ao ouvir ‘largo mulher e filhos’”.

É certo que o psicanalista relativiza a postura da feminista citada por ele: “largo mulher e filhos/e de joelhos/vou te seguir” não significa, necessariamente, que o personagem — um marido no caso — desvaloriza mulher e filho. Ao contrário, o ato atesta sua disposição de sacrificar o que lhe é mais precioso, justamente mulher e filho”.

Anteriormente, no mesmo veículo (Jornal Opção, edição 2.198), o músico e professor do Instituto Federal de Educação – IFG –, Thiago Cazarim, inquirira em forma de trocadilho: “Pau que bate em Chico também bate em eu-lírico?” O questionamento é uma referência ao argumento “ad hominem” utilizado pelos desafetos do compositor para desqualificar sua obra, ou melhor, para desqualificar o Chico engajado. E concluiu sua crítica com outra indagação: “Será possível, ainda hoje, seguir romanceando o abandono do lar como bela figura poética? Longe de ser uma ironia, essa pergunta é um desafio a ser tomado a sério. Somente a partir dela se pode dar uma resposta efetivamente literária – e não meramente política – à falta de sensibilidade poética alegada pelos críticos especializados”. Um leitor comentou, no post do Facebook, sobre esta crítica, que “o mundo está de porre”, já que os críticos e o público não são mais sensíveis à licença poética.

“Tua Cantiga” à parte, Chico Buarque não existiria como o conhecemos se, em determinados mo­mentos, não abordasse temas polêmicos e, à primeira vista, politicamente incorretos. Quem não se lembra da música “Geni e o Zepelim”, do álbum duplo “A ópera do malandro”, onde a população jogava “b…” na injustiçada travesti? Apesar de julgada como uma pária, a transformista da música era, na verdade, heroína. Hoje, quase certamente, o autor seria crucificado por expor Geni – arquétipo do feminino, mais que dos travestis – à execração pública, enlameada por excrementos humanos.

Mas o velho Francisco de “Caravanas” continua o mesmo Chico libertário de sempre. Que fez guinadas à esquerda no disco “Roda Viva” (1967), quando os autores da peça, montada e dirigida por José Celso Martinez Correia, em 1968, e finalmente proibida, foram apedrejados pelo Comando de Caça aos Comunistas (PCC).

Nova guinada no LP “Chico Canta” (1973), modificação de “Chico Canta Calabar”, cujo título (e até a capa) fora vetado pela censura, assim como o musical “Calabar: o elogio da traição”. Acossado pela censura, o filho mais eminente do sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda deixava bilhetes musicados nas frestas das muralhas da ditadura, sob o pseudônimo Julinho de Adelaide (“Acorda amor / Eu tive um pesadelo agora/ Sonhei que tinha gente lá fora / batendo no portão / que aflição / era a ‘dura’ / numa muito escura viatura / minha nossa / santa criatura / chame o ladrão!”). Usou novamente a estratégia, quarenta anos depois, com “As caravanas”. Não mais para burlar a censura, mas para deixar, à Chico Buarque, um recado ao público contemporâneo, atento ou não.

O inusitado é que quase ninguém notou a música-manifesto, ofuscada pela polêmica de “Tua cantiga”. Não foi por falta de pistas. A Biscoito Fino, produtora do disco, postou em seu site, na internet, ao mesmo tempo, os videoclipes oficiais das duas músicas. Oportunisticamente, em tempos de recrudescimento fundamentalista religioso, a segunda foi ignorada. A música-tema, a última do álbum, foi inserida na fresta da nona faixa propositalmente? O maracatu “As caravanas” não é meramente uma música de protesto do compositor, como “Apesar de Você”, ou “Vai passar”. Mais que isso, é decididamente uma música-manifesto, nos moldes do rap “Haiti” (Tropicália II, 1993), de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

O alvo desse manifesto é a classe média, a “gente ordeira e virtuosa” da Zona Sul carioca “Que apela / pra polícia despachar de volta / o populacho pra favela / ou pra Benguela, ou pra Guiné”. A xenofobia grassa, hoje, a Europa e o mundo. A burguesia e a classe média brasileira, impossibilitada de acomodar e inserir as levas de pretos e pardos em patamares dignos de humanidade e cidadania, os isolam em favelas, ou prisões, ou melhor ainda, em cemitérios.

São essas as “Caravanas do Arará – do Caxangá, / da Chatuba / As caravanas do Irajá, / o comboio da Penha”. Essas turbas da Zona Norte, ou dos morros, saem de seus guetos e “pintam em Copacabana”, Leblon e Ipanema, para desassossego geral. “A culpa deve ser do sol”, acentua em estribilho, Chico Buarque.

Nada há de lírico ou romântico quando o autor de “Eu te amo”, “Lígia” e “Atrás da porta” informa que “esses estranhos suburbanos /tipo mulçumanos do Jacarezinho” […] “malocam seus facões e adagas / em sungas estufadas e calções disformes” […], com suas “picas enormes” cujos “sacos são granadas”.

Não é à toa que a “gente ordeira e virtuosa” anseia pela intervenção de milicianos e da polícia, e não dos educadores. “Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria”. As cracolândias têm que ser destruídas a bala; a maioridade penal diminuída; a pena de morte instituída. Essa a lógica da sociedade brasileira, nos dias de hoje.

É contra esse pensamento torto que se investe Chico Buarque em sua música-manifesto. “Filha do medo, a raiva é mãe da covardia”, libela Chico. Os presos possuem uma ética própria, onde o estupro é crime capital, capaz de purgar todos os malefícios que eles (exceto os estupradores) causam à sociedade. E os livres, que compram recibos para descontar imposto de renda, furam filas e ocupam indevidamente espaços nos estacionamentos de deficientes físicos e idosos, sentem-se remidos porque existem criminosos piores, os políticos. “A culpa deve ser do sol / Que bate na moleira, o sol / Que estoura as veias, o suor / Que embaça os olhos e a razão”.

O manifesto buarqueano não olvida da grande chaga social do Brasil, a escravidão: “E essa zoeira dentro da prisão / Crioulos empilhados no porão / De caravelas no alto mar”. É insensato que, em pleno século XXI, com as prisões entulhadas de pretos e pardos, as universidades abriguem um mínimo dos descendentes da massa laboral do sistema escravocrata, representativos de mais de 50% da população brasileira. Chico Buarque faz a correlação “porão-prisão”, para lembrar que há um passivo social do perverso regime escravagista em relação aos negros do Brasil; e que nada de bom advirá, quando esse populacho resolve descer dos morros, para “encher os olhos”, com o “mar turquesa à la Istambul”.

A questão racial é ainda, subliminarmente, aventada – como “luva de pelica” – na valsa “Massarandupió”, de autoria de seu neto Chico Brown, debutando com a letra do avô escritor. Edu Lobo, ou Francis Hime, dois frequentes parceiros do compositor, não fariam melhor.

Chico Brown é filho de Carlinhos Brown com Helena, filha de Chico Buarque. Em 2008, houve grande polêmica quando o autor de “Eu te amo” desabafou, em entrevista à televisão, sobre a questão racial no Brasil ao ser interpelado por ter um neto “mestiço”: “Ninguém no Brasil é branco!” […] “Se a Xuxa não se casar com o Taffarel vão se acabar os últimos brancos no Brasil”. […]. “É uma coisa muito mal resolvida no Brasil, o brasileiro não aceita o fato de ser mestiço, não aceita mesmo. É uma coisa que pega fundo”.

Em vídeo postado no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=ZZ4CZPlLqtQ), Chico Brown relata as circunstâncias da escolha de sua música (entre várias outras) para a parceira com o avô. Embora não haja referência direta ao episódio, é notável que no disco-manifesto, o neto “mestiço” de Chico Buarque em­placasse uma das principais músicas.

A bela e afinada voz de Clara Buarque, irmã de Chico Brown, vem a público em “Dueto”, protagonizada com o avô. Esta canção, não inédita, foi interpretada por estrelas como Maria Betânia, Nara Leão e Roberta Sá, sempre em duetos com Chico Buarque. “Danem-se os astros, os autos, / os signos, os dogmas, / Os búzios, as bulas, anúncios / tratados, ciganas, projetos” […] “Se dane o evangelho e todo os orixás”. O ponto alto dessa interpretação, entretanto, é a atualização, não presente na letra, feita ao final da canção, de forma incidental e aparentemente improvisada: “Consta no Google / No Twitter / No Face / Na Timber / No WhatsApp / No Instagram / No E-mail / No Snapchat / No Orkut… / No telegrama… / No Skype…”. A rebento caçula de Helena e Carlinhos Brown não poderia estrear melhor.

Atualmente, a ideologia de gênero é um dos temas mais palpitantes no Brasil, por meio das redes sociais, no Congresso Nacional, nas escolas e até nas igrejas. Antagonicamente, seguidores de Jair Bolsonaro, do pastor-deputado Marco Feliciano e das esquerdas digladiam sobre a questão, camuflando motivos ideológicos e político-partidários mais profundos.

Chico Buarque, que abordara a temática lésbica em “Bárbara” (“O meu destino é caminhar assim /Desesperada e nua / Sabendo que no fim da noite serei tua / Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva /Acumulando de prazeres teu leito de viúva”), volta à carga com “Blues para Bia”, de sua autoria – letra e música – mas com DNA de Luiz Cláudio Ramos, o violonista, responsável pelos arranjos de todas as faixas, exceto a primeira (arranjos do coautor, Cristóvão Bastos), e “casualmente” arranjada por Jorge Helder. Após “compor doce melodia” para a bela, o personagem de Chico joga a toalha: “Talvez fique encabulada / Talvez queira me avisar / Que no coração de Bia /Meninos não têm lugar / Porém nada me amofina / Até posso virar menina / Pra ela me namorar”. Mais andrógino, e engajado, impossível.

Corte brusco para a descompromissada “A moça do sonho”, parceria com o velho de guerra e de Bossa Nova, Edu Lobo. “Súbito me encantou / A moça em contraluz / Arrisquei perguntar: quem és?”. Tudo se revelaria um sonho, porém: “Soprei seu rosto sem pensar / E o rosto se desfez em pó”.

A paixão futebolística do dono do Politheama (primeiro, jogo de botão; depois time de futebol de várzea), dá a tônica informal do autor de “O Futebol”, canção antiga, inspirada em Ronaldinho Gaúcho, do Barcelona (“Para avançar na vaga geometria / O corredor / Na paralela do impossível, minha nega / No sentimento diagonal / Do homem-gol”).

Desta feita, um samba buarqueano, manifesto contra o antijogo, as cartolagens e as compras de votos, para sediar Copas do Mundo. Como numa partida do esporte introduzido por Charles Miller no Brasil, “Jogo de Bola” é um samba cantado como Falcão ou Sócrates o jogaria: “Salve o futebol / salve a filosofia de botequim / salve o jogar bonito / O não ganhar no grito…”. E dá “Vivas à galera / vivas às marias-chuteira / cujos corações incandescias / Outrora / quando em priscas eras / Um Puskas eras / A fera das feras da esfera”. O país do Futebol precisa ouvir mais Chico Buarque.

Não faltou a rumba – dança cubana em espaço binário, como os irmãos Castro –, tão ao gosto de Chico e dos simpáticos ao regime da ilha caribenha de Fidel, Che Guevara e demais barbudos de Sierra Maestra. Em “Casualmente”, parceria com o baixista Jorge Helder, Chico revisita “Pequeña serenata diurna”, hit esquerdista do cubano Silvio Rodriguez, gravado em 1976. Ao contrário daquela, porém (“Vivo en un país libre / cual solamente puede ser libre”), não exalta as liberdades do regime castrista. Resigna-se à saudade das morenas cubanas, que no imaginário masculino, enrolam charutos em coxas torneadas, ou cantam nos bares de Havana: “No volverá nunca más / la canción sentimental / Que casualmente em la Habana / escuché cantar / A una mujer / Como ya no veré / Otra vez nada igual”. Seria uma evidência de que continua leal à ideología e ao regime castrista, ou somente nostalgia de tempos felizes no paraíso comunista?

Colocado na ordem deste texto, o álbum parece perder força. Acontece justamente o contrário. Não por acaso é encerrado com “As caravanas”, com suas batidas africanas, fortes como negros do pelourinho soteropolitano, das congadas de Goiás, ou dos maracatus do norte das Gerais.

A sociedade brasileira esconde-se em condomínios fechados e redes sociais – passa férias na Europa e Dubai, e faz compras em Miami – enquanto uma massa analfabeta e faminta se arma, espremida em guetos sociais e étnicos. Aquela só bate panelas quando lhe é conveniente.

Chico Buarque é clarividente ao relatar o que já ocorre nas capitais do Brasil e, em particular, no Rio de Janeiro. A explosão do caldeirão social, em um país que nega cotas raciais e sociais mínimas e melhor distribuição de renda, é uma realidade. A turba faminta e desesperançada, se não conquistar, ou não ganhar, toma! Chico, o “Velho Francisco” até tem dúvidas de sua lucidez: “Doido sou eu que escuto vozes / não há gente tão insana / Nem caravanas do Arará”. A culpa deve ser do Sol.

Nilson Jaime, mestre e doutor em agronomia, membro das Academias de Letras de Palmeiras (Apla) e de Pirenópolis (Aplam), é colaborador do Jornal Opção.

Leia sobre a música “Cantiga”, de Chico Buarque

Chico Buarque, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau

 

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Caro Gilberto, não precisa publicar este comentário. Como não tenho seu e-mail, faço o alerta por aqui. O autor do texto não é Nilson Jaime? O meu nome foi excluído da autoria, com o tradicional “Nilson Jaime, especial para o Jornal Opção”.
Aguardo a correção. Obrigado e desculpe-me por fazer o alerta por aqui. Não precisa publicá-lo.

Muito bom, Nilson. Meu deleite como avô – e que me fez ter mais empatia pelo Chico que me desgostava nos últimos trabalhos (e atitudes) – foi a parceria com do “vô Ico com Chico Brown” – https://www.youtube.com/watch?v=ZZ4CZPlLqtQ
É emocionante ver esse lado humano da “máquina de poetar e fazer música” que é (foi, será) o Buarque de Holanda – e, ao que parece, a família continuada dele e Brown.

Chico sempre fantástico e bem resolvido….elabora as letras das canções como manifesto. É respeitadissimo em Portugal, que o acolhe e o defende de desafetos de sua nacionalidade. No dia 4 de novembro, aconteceu na cidade de Goiás um saral e recital, “Todas as mulheres em mim”; onde poetisas e escritoras reclamaram seus afetos/desafetos, também nas canções de Chico.

Muito bom o texto, de quem entende do riscado. Só 2 opiniões,talvez inválidas : Tua Cantiga pode ser, também, para a tão sonhada democracia social tão buscada e tão mal tratada no Brasil de hoje. Daí o “largar mulher e filho” por um idealismo de vida. E o verso “ninguém nunca amou” é baseado no belíssimo Soneto 136 ( acho que é esse o número) de William Shakespeare.

Apenas um reparo: Lígia é, letra e música, do Tom

De fato, Alberto Escher, a música e a letra são do Tom. Eu a ouvi a vida inteira como parceria dos dois. O poeta Luiz de Aquino até me alertou sobre meu equívoco. Após sua alerta, fui checar no original do álbum “Sinal Fechado” (1974) e dei-me conta que estão certos. Obrigado por alertar. Aos leitores, minhas desculpas.

Muito bom o texto, mas só um detalhe q me incomodou: travesti é uma designação feminino, então não existe “o travesti” e sim A travesti.

O Chico é o maior poeta brasileiro, coerente a vida toda. Um homem de princípios.

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