Chico Buarque, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau

Compositor, que não precisa mais ludibriar a ditadura, testa a perspicácia do ouvinte-leitor na verificação de determinadas sutilezas sobre o amor e a vida

Cristiano Pimenta

A polêmica gerada pela canção de Chico Buar­que “Tua Cantiga” (do dis­co “Caravanas”, re­cém-lançado) parece tocar, dentre outros, o problema do amor na vida contemporânea. Se as mudanças ocorridas no mundo moderno tornaram o amor líquido e os laços humanos frágeis, segundo os termos do sociólogo Zygmunt Bauman, é preciso certamente indagar a respeito das consequências dessas mudanças no sujeito.

Um comentário de Flávia Aze­vedo conclui que “essa mulher que Chico evoca na canção não sou eu…, essa que precisa ser salva que sonha com o reino do lar, essa que goza ao ouvir ‘largo mulher e filhos’”. Flávia diz que o “mundo interno (das mulheres) mudou…, a gente mudou e até o nosso romantismo está, sim, numa outra vibe”. Poderíamos nos perguntar se o modo de amar romântico, que tem suas origens na prática do chamado “amor cortês”, ainda vigora nos tempos atuais. Mais ainda: se esse é o modo de amar que estaria sendo preconizado por Chico Buarque nesta canção.

Vejamos o texto da canção “Tua cantiga”. No início, a dama — vamos chamá-la assim — aparece como faltosa, como podendo ter “saudade”. Ela também sente a “garganta apertar”, quem sabe, como apontou Guto Leite em um texto de qualidade, por um “lobo mau” que vai “estrada a fora te conduzir”, ou ainda, por “um desalmado que te faz chorar”. Mas, quando essa dama, aparentemente frágil como Chapeuzinho Vermelho, deixa cair seu lenço da torre em que se encontra reclusa e é salva pelo nosso herói, eis que vemos aparecer, aos poucos, seu outro lado, a saber, “exigente” e “caprichosa”: “quando teu capricho exigir/largo mulher e filhos/e de joelhos/vou te seguir”.

Note-se, de passagem, que, dizer “largo mulher e filhos/e de joelhos/vou te seguir” não significa, necessariamente, que o personagem — um marido no caso — desvaloriza mulher e filho. Ao contrário, o ato atesta sua disposição de sacrificar o que lhe é mais precioso, justamente mulher e filho. A prova de amor só é válida por meio de um ato em que o sujeito dá o que não tem condições de dar. E, nesse sentido, se entregar “de joelhos” evidencia o caráter de despojamento de tudo o que há de valioso implicado nesse amor. Como dizia Freud, no amor a tendência é, por um lado, o rebaixamento de quem ama e, por outro, a elevação e enaltecimento do objeto amado, no qual a libido do amante é quase que totalmente investida. Assim, a Chapeuzinho Vermelho se transforma numa “rainha” “cruel”.

Por certo, é justamente uma crueldade o fato de que este ser tão apaixonado venha ouvir de sua amada “outro nome/dos lábios te escapar”. Inseguro, desprovido de autoconfiança e autoestima, ele terá “ciúme” até de sua própria imagem “no espelho a te abraçar”. Junte-se a isso o colorido um tanto triste da linha melódica dessa canção, a entonação de voz que expressa humildade e o ritmo “lundu”, que nos remete aos escravos sofredores (como o da canção “Sinhá”). Tudo isso parece expressar a situação de rebaixamento do amante nessa relação amorosa.

Observemos que todo esse quadro pode ser relacionado ao modo como Lacan (1991) leu a erótica do “amor cortês”, a saber, como fundado numa poesia que apresenta toda uma série de condutas e de comportamentos, por parte do homem, que expressam a lealdade e a submissão a uma dama cruel. Como diz Lacan, “a dama é, no amor cortês, um objeto que eu chamaria de enlouquecedor, um parceiro desumano, ela é tão arbitrária quanto possível nas exigências da prova que impõe a seu servidor. A dama é essencialmente cruel — e semelhante às tigresas de Ircania” (Lacan¹, página 187). Vale dizer que o termo Ircania, território asiático importante na antiguidade, tem o sentido etimológico de “terra dos lobos”.

Irônico-cômico

Por outro lado, há um certo incômodo que podemos sentir com o fato de que na canção de Chico o personagem não se queixa, não pede clemência, não amaldiçoa esse amor que o enclausura, como seria de se esperar. Ao contrário, diante de tal situação, ele afirma: “e eu, sempre mais feliz”! Chega a dizer que sempre será um amante “mais do que hoje sou”. Em outros termos, não há divisão subjetiva, ou melhor, essa divisão não se apresenta no nível do dito. Assim colocado, poderíamos dizer que o nosso herói se aproxima de uma satisfação masoquista ao nível da sua fantasia sexual. Todavia, é necessário perguntar: e ao nível do não-dito, das entrelinhas, não poderíamos dizer que a frase “e eu sempre mais feliz” é uma ironia? Não haveria nesse quadro assim desenhado do escravo-feliz, que pisa em plumas toda manhã para não fazer barulho e que vai ligeiro consolar sua amada, algo da ordem do cômico?

Caso aceitemos essa pitada sutil de comicidade e ironia, isso não nos permitiria desconfiar dessa cena montada com as referências do amor cortês? Em outros termos, será que, tal como o protagonista do “Samba do grande amor” — um conhecido samba de Chico no qual o personagem se dá mal no amor, mas que coloca em dúvida sua entrega e devoção ao ser amado por meio da palavra “mentira” —, não haveria aí, em “Tua cantiga”, alguma mentirinha sorrateira que se insinua pela ironia dessa frase “E eu sempre mais feliz”? Outros recursos estilísticos, como o caráter condicional do texto, “Quando…” e “Se…”, parecem corroborar essa ideia. Igualmente, os versos que tentam garantir a veracidade do seu amor são temperados com uma pitada cômica de ambiguidade: “ou estas rimas/não escrevi/nem ninguém nunca amou”.

Nesse sentido, diríamos que em “Tua cantiga” o amante se atirou “assim de trampolim, foi até o fim um amador”, ou seja, sacrificou mulher, filho, etc., mas há o risco de que tudo seja uma encenação feita para enganar. Enganar quem? Tanto a amada quanto o leitor-ouvinte apressado. Se essa leitura procede, algo do malandro estaria presente nessa praça outra vez.

Recapitu­le­mos: nesse ponto limite em que a verdade se contorce, o amante está, em “Tua cantiga”, por um lado, submetido, rebaixado, etc., mas, por outro, ele encontra um modo de equilibrar a situação, de se dignificar. E não foi por uma estratégia semelhante que Chico Buarque se valeu para enfrentar a censura na ditadura militar? De todo modo, com sua malandragem em “Tua cantiga”, Chico provocou o salutar trabalho interpretativo de muita gente, inclusive o meu.

Nota
¹ Lacan, J., O seminário, Livro 7, A Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

Cristiano Pimenta é psicanalista, graduado em Filosofia (USP), mestre em Psicologia Clínica (UNB), membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

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gabriela albornoz

Me pareció un análisis realmente enriquecedor. Desde los ojos y oídos de una antiquísima fan de Chico, y sin ninguna especialización que me respalde, pues soy apenas Médico Intensivista, puedo decir que la letra me pareció una hermosa declaración de amor, cargada de metáforas apropiadas para la etapa más intensas del enamoramiento. Gabriela

Clarita margherita

Musica impregna no subconsciente coletivo.Se os arquetipos escolha Chico valem na evoluçao do comportamento moderno: VALIDO!
Na era das vitimas d Abuso violencia sexuais, os trinados romanticos caem de cartaz.
Eque a simbologia sutil Entre direto no subcutaneo dos amantes e corelatos.
Dado q o Lobo Mau esta vivo e forte.convem que Femina Figura se arme ate os dentes.
Muita Agua passara! Amadurecer sociedade…trabalho seculos .
Chico de suburbio de Cronica urbana especula o psiquico.pra nosso deLeite