Marcelo Brice
Especial para o Jornal Opção

Quando tive a audácia de uma candidatura para um pós-doutorado em Portugal com o crítico machadiano que mais me instiga na atualidade – e certamente um dos mais vivazes de toda a fortuna crítica –, o professor Abel Barros Baptista, não suspeitava que meu ano lisboeta daria tantas vivências e memórias.

Seria um momento ímpar na minha história, na história do Brasil e, por último, mas não menos importante (com um risinho aqui), na história da humanidade. Logo que fui aceito e a universidade na qual atuo me informou da aprovação de minha demanda, estávamos indo para o segundo ano de uma pandemia que se afigurava como o fim dos tempos – ainda mais sendo brasileiro e governado por um delinquente de piadas ruins, não se pode dizer que isso seria somente uma impressão.

Vamos aos eventos que vão se conectar ao momento ímpar da minha história. Perto de fazer valer a decisão de atravessar o Atlântico e saindo de uma sessão de psicanálise, fui maltratado por um uber que me julgou bêbado. Esperei que ele me levasse até o destino para, então, gastar muito da minha verve e didática o desancando e explicando que passava pela suspeita de uma doença rara e que ele estava sendo preconceituoso e grosseiro.

Marcelo Brice (direita) com o amigo Herbert Santos, que o “convenceu” a usar a bengala pelas ruas de Lisboa | Foto: Arquivo pessoal

No dia anterior a minha partida, comprava coisas de viagem, e lancei para meu amigo: “Herberth, o que você pensa sobre eu comprar uma bengala?” E ele: “Acho uma boa. Aí você não pega fila no aeroporto! Eu te espero lá. E ainda tem um charme”. Argumento melhor e mais apropriado não haveria de ter meu amigo de todas as horas.

Se um dia quiçá Deus quiser, sistematizo essas experiências de memória, como se fossem crônicas de Lisboa. Agora, duas que me martelam.

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As expressões portuguesas são imensas! Certa vez, depois de já fixado e sozinho, fui lanchar numa padaria portuguesa simpática, meio desalentado e triste, com vários lutos rondando e fazendo a vida. Lanchei e, claudicante, me despedia do atendente e ele – um jovem português contrariando a máxima de que os patrícios são ásperos –, assim se despediu de mim: “Força!”.

Fiquei todo feliz e voltei para casa com a ideia de que a civilização venceu! Sim, ele fora objetivo, mas muito sensível, ao me desejar “força!”. Além de diferente do uber, foi além: foi seu oposto.

Mas… ledo engano! No dia seguinte, fui de novo à padaria, onde fui tão bem tratado, ora. E enquanto lanchava, via o meu atendente perfilar outros “força!” para gente que aparentemente não precisava, como eu. E aí que pensei: Não é à toa aquelas faixas-cachecol nos jogos de seleção com dizeres: “Força, Seleção das Quinas!”. Força pra lá, força pra cá, até chegarmos à forca. É que “força!” é um modo de dizer brasileiramente um “vai com Deus”, sendo laico um “até logo, faça bom retorno”. É, amigos, a primeira decepção a gente nunca esquece.

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As vovozinhas portuguesas são imensas!

Na manhã em que me encontrei com o meu supervisor no pós-doutorado pela primeira vez, passei por uma provação. Achava (e acho) um invento muito diferenciado o tal do metrô, e me refastelava de lá pra cá, passos lentos e certos, devagar e sempre. Entrei na saudosa Estação de Laranjeiras, depois de um café ligeiro na tasca do seu José (vulgo, “o Salvador” – depois conto a razão de meter-lhe essa bela alcunha) e, chegando o carro do metrô, entrei um pouco desatento e ansioso; e também, é claro, por ser portador da doença de Machado-Joseph, o carro deu aquele arranque inicial e eu não estava suficientemente prevenido, não consegui segurar nas barras de inox acima da minha cabeça e fui arremessado para trás, com bengala com tudo, me estabaquei no chão.

Por sorte dos deuses machadianos, fui direto ao chão, não batendo a cabeça e sendo amortecido pela companhia da indefectível mochila. Logo, todos se puseram solidários e me ajudaram, me levantaram, perguntaram se estava bem. E eu, afirmando positivamente. Até que a demonstração mais alva de solidariedade veio: já de pé, feliz por não ter tido um traumatismo craniano, um vozinha portuguesa-moçambicana levantou-se obstinada de seu assento, nitidamente resoluta e certa de que ajudaria aquele mancebo – no caso, eu –, foi até mim e bateu leve e delicadamente com a palma da mão da minha mochila e na minha jaqueta, retirando-me a poeira, como um espanador de pó. Eu olhei bem para os olhos dela e disse: “Muito agradecido, senhora”.

E fui pensando que, não tendo quebrado nada, eu que me virasse com o dano psicológico da queda no metrô. Pesaroso por não ter dito a todos: beijinhos grandes.

Agradecido e sem decepção, a gente cai é pra levantar. E certo de que quedas boas são essas em que uma “Força!” em forma de um bater a poeira fazem a pandemia parecer coisa pouca… Mentira!

Marcelo Brice é professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com estágio pós-doutoral em literatura na Universidade Nova de Lisboa (UNL-IELT).