“De mais a mais, eu mato mais pela morte do que pelo dinheiro. Minha encomenda era seu marido, num vou fazer nada com a senhora não, que frita peixe como ninguém”

A história a seguir é verdade verdadeira, não o nome das pessoas envolvidas. Não as conheci, mas conheci a cidade em que ocorreram os fatos, que me foram contados por um conhecido, que antes eu julgava ser amigo. Sua ambição desenfreada o fez vender o bumbum de sua alma. Ele, no entanto, me foi útil ao se mostrar de alma imunda, pois me afastei dele antes de ganhar um beijo de véspera de escarro. Alguns dias atrás — naquele período de calor de fazer até o capeta chupar picolé —, vi um cachorro de rua rolando num resto de carniça seca no asfalto (acho que era um pombo doméstico morto por um automóvel apressado), eu o vi na alegria podre daquele cão. Vamos à história.

A amizade entre Juraci e Malvino durou precisamente cinco meses e 13 dias. Astucioso que é, você, altaneiro leitor, já manjou que o título foi sugado do que disse o machadiano Brás Cubas, personagem de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, sobre o amor de uma cortesã (garota de programa naquela época) espanhola por ele: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. A cortesã era a dona do puteiro, ao qual Brás Cubas foi levado por seu tio, que perguntou ao sobrinho se ele “queria ir a uma ceia de moças”.

Segundo o personagem, a sua chegada ao coração de Marcela demorou trinta dias e isso não “cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso”. Essa chegada ao coração de Marcela é questionável, haja vista que a cortesã era “luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes”. Vamos à história.

Juraci e Malvino se tornaram amigos num boteco, cujo dono era aquele. Nesse período de amizade, Malvino chegou a salvar Juraci de afogamento quando ele pescava traíras e tilápias numa lagoa e a canoa tombou. Malvino surgiu do céu e o salvou, jogando-lhe um pedaço de corda de sisal já velha. Por pouco Juraci não foi “estudar a geologia dos campos-santos”.

 Malvino era o melhor freguês: tomava suas pingas e cervejas e tira-gostos (principalmente peixe frito) e pagava certinho. Nunca pediu pra pendurar. Fato que às vezes levava Juraci a se perguntar onde o cliente conseguia dinheiro, visto que não o via trabalhar desde que chegou à cidade. Uma vez até comentou o assunto com Adenailda, sua mulher, que lhe recomendou a não julgar mal as pessoas e se lembrar de quem o salvara quando caiu da canoa. O comentário da esposa afugentou de vez sua indagação sobre o amigo.

Juraci, de certa forma, tinha razão em ficar desconfiado do freguês. Em seu passado, havia uma nódoa de sangue: briga num puteiro da pequena cidade em que morava. Confusão que foi resolvida a tiros entre alguns jovens de duas famílias mais antigas do lugar e inimigas. Se tivesse havido o mesmo saldo de morte entre as duas famílias, provavelmente o jorrar de sangue teria uma longa pausa.

Juraci perdeu um primo; do outro lado morreram dois irmãos, um deles vitimado por Juraci com dois tiros. A pólvora das mortes foi uma quenga de beleza abundante, que saiu da cidade no outro dia por recomendação da dona do puteiro. Um tio de Juraci o levou para uma fazenda em outro Estado, a uns 800 quilômetros da cidade. Por lá ficou quase dois anos. Voltou e montou um boteco copo-sujo numa rua atrás do cemitério. Alguns pinguços inclusive faziam piada: dizendo que, se morressem no boteco de tanto tomar pinga, já estavam perto da “terra dos pés juntos”, de modo não gerariam trabalho à família.

Bonfim, tio de Juraci, aconselhou-o a não voltar: “Sua volta é alegria pra nossa família, mas tristeza pra outra, e a ferida pode voltar a doer e mais sangue ser derramado”. O conselho do tio entrou num ouvido e saiu no outro: “A vontade de vingança deles já passou, tio, estou aqui há quase dois anos, e ninguém fez nada, mas, se fizer, o 38 vai cuspir fogo de novo”. Ele não se despregava do trabuco.

O monstro mora, quase sempre, ao lado: hora é de esquerda e hora é de direita | Foto: Reprodução

Numa manhã de novembro, Malvino foi ao boteco de Juraci tomar duas pingas como de costume. Acabou tomando quatro. Só havia ele de freguês. Os dois acabaram combinando para a noite daquele mesmo dia uma pescaria. Muitos peixes eram vendidos no boteco.

Ao voltar da cozinha trazendo numa das mãos uma porção de peixe para Malvino e na outra um pedaço que veio comendo, Juraci foi surpreendido com dois tiros no peito ao abrir a cortina de pano. Nem deu tempo de pegar seu revólver na cintura. Ao ouvir os tiros, Adenailda veio correndo assustada, e, ao ver o marido caído e agonizando, não teve medo de questionar Malvino sobre o assassinato sendo que ele havia salvado a vida de Juraci.

— Não salvei Juraci por amizade não, dona. Foi pra não deixar a água da lagoa fazer o que me foi pago pra fazer. De mais a mais, eu mato mais pela morte do que pelo dinheiro. Minha encomenda era seu marido, num vou fazer nada com a senhora não, que frita peixe como ninguém. Fiquei muito tempo na cidade por causa dos peixes.

Sinésio Dioliveira é jornalista