Em vez de “quem planta colhe”, prefiro dizer “quem planta não encolhe”.  Minhas plantinhas me tornam grande, principalmente quando me sacio da poesia que eclode nas suas flores. Meu gengibre-roxo está em iminência poética. Dias atrás foi a vez da coroa-imperial. E para colher isso em minha casa, eu preciso agir, dando-lhes adubo e água. Ainda não cheguei a ponto de conversar com elas. Esse papo de não se ter mão boa para plantar é conversa mole de quem não é chegado em cuidar de plantas.

Dias atrás quando estava em casa molhando minhas plantinhas e acompanhando o prazer delas em ter sua sede saciada, ouvi o som de uma vassoura varrendo. O som veio da rua. Interrompi, por alguns instantes, a tarefa de regar as plantas, e fui à janela ver a pessoa a limpar a minha rua à noite, isso por volta das 21h.

Gengibre roxo | Foto: Sinésio Dioliveira

O gari estava sozinho. Ia varrendo, ajuntava o lixo num monte, voltava para pegar o carrinho deixado para trás e recolher o lixo. Estava usando uma máscara, certamente para não absorver a poeira. Não foi possível ver detalhes do seu rosto, pois era noite, e eu o observava do quarto andar.  Mesmo com máscara, ele acabou dando um espirro. Foi pelo espirro que cheguei ao título desta crônica miúda. Apesar de Deus andar muito ocupado com coisas realmente importantes e, portanto, sem tempo para ouvir preces humanas, sobretudo no atendimento de pedidos de coisas ao alcance do uso das faculdades mentais, ainda assim peço a Ele que dê muita saúde a esse trabalhador invisível, que retira a sujeira da minha rua e da sua, caro leitor, que está gastando seu precioso tempo lendo esta crônica, quando poderia estar mergulhado em “Ensaios”, livro de Michel Montaigne, publicada em 1580, no qual o autor fala da importância da fé, mas recomenda o uso das faculdades mentais. Segundo Montaigne, “não há como duvidar um só momento sequer seja este o emprego mais digno que nos caiba dar a nossas faculdades mentais”.

Se fizermos uso delas, perceberemos que a sujeira (não me refiro a folhas de árvores, que não são lixo) não chega à rua sozinha. É levada por pessoas cuja imundície mental não lhes permite agir com zelo em favor do bem-estar da cidade e consequentemente tornar melhor os espaços públicos. É esse lixo que entope as bocas de lobo, e que, no período da chuva (como estamos agora), gera grandes transtornos. Transtornos estes como alagamentos, enxurradas, que podem ocasionar até morte, como aconteceu recentemente com o motociclista Warley Melo Adorno, de 22 anos. Nos últimos 12 anos, dez pessoas também perderam a vida na mesma circunstância, sendo nove de Goiânia e uma de Aparecida de Goiânia.

Montaigne: ensaísta francês | Foto: Reprodução

A impermeabilização da cidade também tem uma grande parcela de culpa nesse tipo de problema. O cimento tem matado a terra dos quintais e assim impedido que o solo absorva a água da chuva. Terremoto não tem como se evitar, pois ele resulta do movimento ou choque das placas tectônicas, mas as enchentes danosas nos grandes centros urbanos sim, haja vista que elas decorrem de lixo em bueiros, tipo de piso usado nas calçadas, projeto de drenagem insuficiente, ocupação irregular do solo, principalmente às margens de cursos hídricos. Nesse sentido, cabe, pois, voltar à recomendação de Montaigne sobre o sensato uso das faculdades mentais.

Foto de Sinésio Dioliveira | Foto: Reprodução

Enquanto observava o gari no cumprimento de seu trabalho e vendo o resultado benéfico de sua ação à cidade, me vieram à mente muitos políticos que se elegem em cima da promessa de dar fim à sujeira política e acabam aumentando a sujeira que prometeram acabar.  Jogar todos os políticos na vala da comum podridão parlamentar não é certo, mas é acertado dizer que são poucos que agem com presteza como aquele gari; grande número deles não vale o que gato enterra.

Dias atrás um senador goiano exibiu, ridiculamente, em suas redes sociais, parte de seu trabalho parlamentar: retirou a camiseta para mostrar uma tatuagem que fez em suas costas em homenagem a um ex-senador. Se fizéssemos uso inteligente da urna eleitoral como o gari faz com sua vassoura, poderíamos mandar muitos políticos imprestáveis para o lixo.

Sinésio Dioliveira é jornalista