Em nossas atividades de trabalho, muitas vezes passamos por diversos locais, e assim conhecemos inúmeras pessoas. No entanto nos tornamos amigos de poucas. E essas poucas, a meu ver (estrábico), certamente têm a ver com o que versejou brilhantemente o poeta Fernando Pessoa, um dos meus bardos preferidos, pela pena de Ricardo Reis, um de seus heterônimos: “Ninguém a outro ama, senão que ama. / O que de si há nele, ou é suposto”. Alberto Caeiro é o meu predileto, haja vista que seus versos cantam a simplicidade da vida, e isso em decorrência do seu convívio com a natureza.

Não ponho fé nessa conversa que rola por aí de que os opostos se atraem em situação de caso amor. Pode, sim, ocorrer afinidade instintiva na amálgama dos corpos. Porém, se não houver empatia mental para se ter o que conversar depois do calor da cama, a relação vai para o beleléu. O sofá será inútil aos dois, pois não terão o que falar à altura do que os ouvidos do outro quer ouvir.

Nos três anos em que trabalhei no Tribunal de Contas do Estado, onde dei curso de Redação Oficial e Língua Portuguesa, isso de 2007 a 2010, o Eurico Barbosa estava entre as poucas pessoas que se tornaram minhas amigas. O amor à literatura foi o elo que nos uniu como amigos. Ele, como bem disse o amigo jornalista Euler Belém, “era pequeno no tamanho, mas um Hércules na palavra”. Seu coração também era hercúleo. Nunca conheci em Goiás um parlamentar com o estofo intelectual dele. Hoje a rotina parlamentar é a fala de abobrinhas, das trolagens e coisas afins.

Sinésio Dioliveira em 2008 quando ganhou o troféu Goyazes na categoria crônica; ao seu lado o poeta Francisco Perna Filho, o escritor Eurico Barbosa, o escritor Antônio José de Moura, e os jornalistas Euler de França Belém e Walter Menezes | Foto: Arquivo

Mesmo estando aposentado enquanto conselheiro do órgão, ele, que também foi deputado estadual e um intelectual lapidado, aparecia por lá toda semana para visitar os amigos, não só os graúdos como também os miúdos (e destes passei a fazer parte). Seu coração era grande e passava longe da abominável acepção das pessoas guiada pelo calibre financeiro. Ficava um bom tempo na sala do cafezinho do Tribunal. Foi lá que principiamos a nossa primeira conversa. Também era escritor e um orador tarimbado. Eu até então só o conhecia pelos seus artigos substanciosos publicados no jornal Diário da Manhã e em matérias sobre ele no Jornal Opção.

A partir de então, passamos a conversar com mais frequência. Se falávamos dez palavras, sete envolviam literatura. Trocamos livros de nossa autoria. Visitei-o inúmeras vezes em sua modesta casa no Setor Sul. E até fui umas três vezes à sua fazenda em São Miguel do Passa Quatro. Dona Jaci, sua esposa, que foi embora da vida primeiro do que ele, gostava muito de plantas ornamentais. Em volta da sede da fazenda, entre as muitas flores a embelezarem o quintal, as de capuchinha se destacavam. Foi lá, entre as plantas, que tive a alegria de fotografar um ninho de tico-tico-rei com dois filhotes, como também a fêmea trazendo uma pequena lagarta o bico para alimentar os filhotes.

Alguns meses atrás, o Eurico Barbosa publicou uma crônica no Diário da Manhã, na qual contava sua tristeza por não estar recebendo mais a visita de amigos. Dias depois, eu o encontrei num evento na Academia Goiana de Letras da qual fazia parte. Falei-lhe que não o visitava porque os telefones de sua casa e do seu celular não atendiam mais as ligações, davam como números inexistentes. Antes eu falava com ele fácil. Marcava de ir à sua casa e ia. Muitas vezes só nos falávamos por telefone.

Dia 17 de maio foi a última vez que o vi. Estava no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás participando do lançamento do livro “A História Cultural da Imprensa Goiana no Século XIX”, das professoras Rosana Maria Ribeiro Borges e Marialva Carlos Barbosa. Com o peso dos anos (viveu 91 anos), estava enxergando muito pouco e tinha dificuldades de se locomover sozinho. Sempre estava acompanhado de alguém para ajudá-lo. Sempre que o encontrava nos eventos literários, por saber de sua dificuldade em enxergar, eu me aproximava dele e dizia um verso de um poema meu que ele dizia gostar muito: “Os pássaros são notas musicais de uma canção celeste…” Esta a senha para eu me identificar. Ao ouvir, sorria, me cumprimentava e dizia que eu estava sumido.

Por ter sido um flamenguista de quatro costados, os filhos de Eurico, extremamente zelosos com seu progenitor, cumpriram à risca a vontade do pai: colocaram a bandeira do Flamengo sobre seu caixão. A da Academia Goiana de Letras também foi colocada. Um pastor amigo meu que estava no velório e que também foi amigo do Eurico Barbosa, falou que o Eurico iria para o céu, pois duas semanas antes ele havia se reconciliado com Deus. Pensei com meus botões, ao ouvir o pastor: “O homem da índole justa do Eurico Barbosa, de coração amoroso como o dele, não tinha por que se reconciliar com Deus”.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

Mamãe tico-tico-rei trazendo uma pequena lagarta para alimentar seus filhotes | Foto:: Sinésio Dioliveira