“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.” Esta frase de “O Pequeno Príncipe”, sabe bem você, altaneiro leitor, está muito surrada de tanto uso. Outro dia ganhei a respectiva frase acompanhada de um “bom dia”, via whatsapp, de uma pessoa que nem sabe se o príncipe é pequeno, grande, maquiavélico, se foi ele que encontrou o sapatinho de cristal da Cinderela. Essa obra é uma das mais importantes que li na minha vida, possui metáforas profundas. Na sua leitura, aprendi a suportar duas ou três lagartas para conhecer as borboletas. Fato que permitiu a minha alfabetização em borboletas e assim ler as coisas ao pé da letra. E até rabiscar alguns versos miúdos sobre muitas delas. 

Precisei recorrer a tal frase de Exupéry dentro do que pretendo falar nesta crônica: os cegos de ignorância, que desperdiçam seus olhos — um dos mais importantes órgãos dos sentidos — apenas em ajuntar remela. Queria ter usado outra metáfora, uma mais polida esteticamente, mas, em minha falta de criatividade, vai “remela” mesmo. Esse desperdício dos olhos é resultado de coração oco, é coisa de gente com “o elmo cheio de nada”.  E cabeça vazia, como bem sabemos, é morada certeira do diabo.

Algum tempo atrás, li uma matéria no site do UOL que dizia que o coração é o primeiro órgão do corpo humano a se formar, e que, já nos 16 dias de gravidez, o coraçãozinho do bebê dá início aos seus primeiros batimentos cardíacos. Segundo a Bíblia, é no coração que está a morada da razão, do poder de decisão. Inclusive em Provérbios 4:23, há uma recomendação valiosa: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida”. Eu não sei se tenho guardado bem o meu coração da influência das coisas malignas. Tenho feito o que posso nesse sentido. Em meus ensimesmamentos a esquadrinhar as razões do coração, sempre me lembro do que disse Blaise Pascal em relação às razões do coração, as quais, segundo ele, são desconhecidas pela razão.

Dias atrás, fiquei alguns instantes observando uma abelhinha verde numa flor de vedélia. O ato de ver o pequenino inseto e a flor fez meu coração se sentir feliz. Foram meus olhos que os viram, mas foi meu coração que os enxergou. Os olhos, na verdade, são uma espécie de garoto de recado, cuja tarefa é levar as coisas de fora para dentro. Os olhos são encabrestados pelo coração, e eles não se demoram na observação das coisas sem que o coração permita.

Enquanto observava a abelha na flor, me lembrei de um homem cego caminhando numa calçada sem piso tátil. Nos poucos instantes do sinal fechado, pude ver a inquietação de sua bengala branca, cuja cor indica ausência total de visão, ao contrário da de cor verde. Felizmente uma moça de coração grande ajudou o homem a concluir o percurso da calçada segurando em seu braço.

Vejo constantemente no Centro, mais precisamente num trecho da Avenida Anhanguera com maior fluxo de pessoas, muitos comerciantes cegos de ignorância, insensíveis à deficiência de visual de muitas pessoas. As lojas de móveis saem na frente na estupidez: entopem as calçadas de móveis, atrapalhando o trânsito até quem não tem nenhum problema visual. Cegueira de alma é algo perigoso. Platão falou dela em “Mito da Caverna”.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza