Existem certas manifestações que são tidas como mimimi injustamente. Há muitas pessoas cuja abundância de estupidez e insensibilidade lhes faz agirem indiferentes aos problemas dos outros. É algo que tem a ver com a famosa expressão popular: “pimenta nos olhos dos outros é refresco”.

Ainda à frente do comando do país, o ex-presidente Jair Bolsonaro tomou, por duas vezes, o caminho do “refresco” na época da pandemia da Covid-19, que vitimou 15 milhões de pessoas no mundo — mais de 706 mil só no Brasil. Como o sofrimento alheio não doeu em Bolsonaro, ele minimizou o problema, inclusive recorreu a um humor abominável: imitou alguém com falta de ar, dando a entender que o alerta sobre a letalidade da doença era pura e simplesmente mimimi. Até cloroquina mostrou a uma ema do Palácio das Esplanadas como deboche. 

Dante e Virgilio no Inferno: alta literatura | Foto: Reprodução

Algo com uma leve semelhança aconteceu em nosso torrão goiano em janeiro de 2022. Enquanto a doença maligna ceifava milhões de vida mundo afora, um magistrado tomou o caminho do “refresco”. Em vez de usar suas redes sociais para fazer, de modo objetivo, sua manifestação pública contra governo de Rogério Cruz, ele tomou o caminho sarcástico recorrendo a um trocadilho infeliz: “Parece que a única coisa de positivo que o atual prefeito de Goiânia fez até agora foi o teste para Covid-19”. Li isso numa coluna política de um jornal local. Fiquei indignado, visto que naquele momento eu enfrentava um problema sério de ansiedade, haja vista que havia morrido quatro colegas de trabalho, e eu estava com covid. É fácil fazer humor quando não é a gente que está vendo a avó pela greta.

Antes de ir para a UTI, um desses meus colegas, um jovem de 33 anos, chegou a postar em seu Instagram, numa de espécie de oração, um trecho da música “Pavão Misterioso”, do cantor e compositor Ednardo: “Me poupa do vexame / De morrer tão moço  / Muita coisa ainda / Quero olhar…”. A vida, infelizmente, deu as costas à sua súplica. Antes da manifestação inapropriada do magistrado, o prefeito Rogério, via Agência Municipal de Meio Ambiente, tinha autorizado o Sindjustiça a realizar uma homenagem dentro do Bosque dos Buritis aos serventuários da Justiça que morreram em decorrência da doença: o plantio de 40 mudas de árvores nativas do cerrado, que foram doadas pelo órgão, que ainda fez os berços. Na Amma não se usa o termo cova, visto que a palavra contrasta com o local que vai receber uma árvore bebê. Inclusive o presidente do TJ, desembargador Carlos Alberto França, participou do evento e até realizou plantio.

John Kennedy e Dan Brown: quem inspirou Javier Milei? | Fotos: Reproduções

Na semana passada, aconteceu um fato que realmente gerou um explícito mimimi. O aluado argentino Javier Milei, candidato a presidente da Argentina (que nos remete a alguém bem próximo a nós que as urnas puseram para correr), replicou uma postagem do economista Alberto Benegas Lynch. Frase esta cuja autoria foi atribuída ao poeta Dante Alighieri e que os contestadores afirmam ser do escritor Dan Brown, autor do best-seller transnacional “O Código Da Vinci”: “Os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.

Achei tempestade em copo dágua, muita flatulência para pouca coisa sólida. O ruim em Milei, a meu ver, são suas ideias incongruentes para realização de um governo pacífico e verdadeiramente próspero aos argentinos. Muitos veículos de comunicação caíram matando nesse episódio da postagem. Muito nhenhenhém.

Essa contestação sobre a autoria da frase me levou a pesquisar sobre o assunto. Antes de Milei citá-la, a sua busca na internet sempre apontava Dante como autor.

No pleito eleitoral do ano passado, especificamente no segundo turno da eleição presidencial, não teclei 22 nem 13. Eu queria a opção 666. Na hora, a minha neutralidade me trouxe o trecho fumegante da famosa frase: “os lugares mais quentes do inferno”. Então, juro, elevei meu pensamento ao poeta romano Virgílio (70 a.C.-19 a.C.) e roguei-lhe que me ajudasse como fez com Dante no enfrentamento do inferno pela minha neutralidade; também lhe pedi uma Beatriz para me acompanhar na travessia do suplício e chegar ao paraíso e assim gozar tudo que for possível. 

Neste final de semana, vasculhei o inferno de Dante e encontrei em sua “Divina Comédia” um trecho relacionado àqueles que não cheiram nem fedem, que não acendem vela para Deus nem para o diabo.

Dante, incomodado com o sofrimento de um grupo de pessoas, pergunta a Virgílio a causa e recebe a seguinte resposta: “Que rebeldes a Deus não se mostraram, / Nem fiéis, por si sós havendo sido / Desdouro aos céus, os céus os desterraram; / Nem o profundo inferno os recebera.”

Este trecho da “Divina Comédia” prova que a tal frase não pode ter sido de Dante, pois aqueles que optaram pela neutralidade não são destinados aos “lugares mais quentes do inferno”.  Não li nenhuma obra de Dan Brown, então não sei se é mesmo sua tal frase. Na busca da elucidação do imbróglio, fui ao Google, que me trouxe o artigo “Aos omissos, o inferno”, publicado num blog de um economista e professor universitário. E tal frase está lá. Na página, há um comentário de um leitor, que cita equívoco do articulista: “A frase é bem legal, mas a citação em questão não é de Dante. Esta foi uma declaração de John F. Kennedy, e atribuída por ele a Dante Alighieri”.

Estou como barata tonta nesse assunto. Se Kennedy, que morreu assassinado em 1963, a citava, como Dan Brown, que nasceu em 1964, pode ser o seu autor? Leitor, por favor, me ajude caso você tenha lido todas as obras de Brown. Tenho outras leituras mais urgentes, como “Histórias Encantadas Entre Cordilheiras de Areia” e “Expedição Abissal”, obras respectivamente de Cássia Fernandes e Hélverton Baiano — que, tão bons escritores, merecem vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), ao lado do poetão Gabriel Nascente (um gênio literário que o Brasil precisa conhecer; sobretudo, ler).

Sinésio Dioliveira é jornalista