Pelo fato do seu corpo assemelhar-se a um capacete de soldado dos tempos antigos, o inseto recebeu nome soldadinho, também conhecido como viuvinha. Não sei seu nome científico, nem me dei ao trabalho de pesquisar. Quando não sei o nome de alguma planta, ave, cogumelo, inseto, recorro a grupos do Facebook dos quais participo relacionados a tais assuntos. Geralmente a resposta sempre vem com o nome científico, e por este chego ao nome popular no Google. Em nossa avifauna, há também uma viuvinha.

Minhas escrevinhações sobre as coisas são de passatempo, portanto só me basta  o nome popular. Algum tempo atrás, publiquei nas minhas redes sociais um poeminha sem eira nem beira e nele continha a palavra “espinho”. Uma pessoa me mandou, via inbox, uma explicação biológica, me informando que o termo “espinho” estava incorreto, que o certo era “acúleo” e citou a diferença entre ambos. Agradeci pela informação (que eu já sabia), mas não estiquei a conversa, pois percebi que se tratava de alguém sem alma poética, alguém que sabe das abelhas, mas sem conhecer a delícia do mel.   

Foto de Sinésio Dioliveira

Voltando ao soldadinho, ele entrou voando sem rumo na minha sala de trabalho, em cuja calçada ao lado tem uma pata-de-vaca, árvore muito apreciada pelo inseto, certamente por haver algum sabor especial na resina da espécie. Ele pousou justamente na minha camisa. É provável que o verde do tecido o fez pensar que estava diante de uma árvore. Tirei-o da camisa e coloquei sobre o teclado do meu computador.

Foi Clarice Lispector, mais especificamente seu romance “A Paixão Segundo G.H”, que me fez colocar o bichinho na tecla h. Letra esta que, na língua portuguesa, não tem vida fonética; é meramente uma letra existente por questão etimológica. Ela não é fonema como a letra vizinha: o g. Este, sim, tem vida sonora. As duas, que são vizinhas de parede no teclado, me fazem ver nelas a encruzilhada hamletiana: “ser ou não ser: eis a questão”. É a própria obra que me faz ver isso. Pode ser estrabismo meu. É você, altaneiro leitor, que pode dizer se é viagem minha ver Shakespeare nas duas teclas. Fato decorrente da indução da própria narradora: “O mundo eriçado de antenas, e eu captando o sinal. Só poderei fazer a transcrição fonética”.  

No livro não é revelado os nomes relacionados às respectivas letras presentes numa valise. Narrada em primeira pessoa, a personagem G.H., que é uma escultora, conta do seu “não ser”: “Como eu não sabia o que era, então ‘não ser’ era a minha maior aproximação da verdade…” Bom que essa encruzilhada do “ser” e o “não ser” vem à tona após G.H. entrar no quarto de sua empregada, que havia pedido conta após seis meses de trabalho: “nada me fazia supor que eu estava a um passo da descoberta de um império. A um passo de mim”.

Clarice Lispector: uma das mais importantes prosadoras brasileiras | Foto: Reprodução

A saída de Janair, uma empregada negra, foi filosoficamente providencial à patroa, que nos seis meses não havia entrado no quarto. Pensou que iria encontrar uma “penumbra confusa”, mas se espanta ao se “deparar com um quarto inteiramente limpo”. Uma estupefação lhe invade: “arrepiei-me ao descobrir que até agora eu não havia percebido que aquela mulher era uma invisível”. Chega a dizer que “o quarto era o retrato de um estômago vazio”. Dentro do quarto, G.H. começou  a “inverter a direção habitual do trabalho do pensamento”, como o filósofo Henry Bergson definiu como ato de filosofar.

Comer a barata de gosto “quase adocicado como certas pétalas de flor”, encontrada no quarto da empregada, foi a sua salvação metafórica. Porém, põe-se a cuspir-se: “eu cuspia a mim mesma, sem chegar jamais ao ponto de sentir que enfim tivesse cuspido minha alma toda”. G.H. diz que aquilo lhe fez sentir alegria, foi-lhe epifânico: “Através da barata viva estou entendendo que também eu sou o que é vivo. Ser vivo é um estágio muito alto, é alguma coisa que só agora alcancei. É um tal alto equilíbrio instável que sei que não vou poder ficar sabendo desse equilíbrio por muito tempo — a graça da paixão é curta”.

Curta também foi a permanência do soldadinho no teclado. Coincidentemente foi justamente para a letra g que ele caminhou, mas nela pouco tempo ficou. O danadinho ruflou as asas e voou em direção à pata-de-vaca. E o cronista ficou com os olhos pregados nas duas letras e pensando no tanto de gente que conhece precisando comer barata de quarto de empregada.

Sinésio Dioliveira é jornalista