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Não resisti à beleza dos cega-machados na Avenida Goiás. Meu automóvel não queria parar, foi preciso que eu ralhasse duro com ele para que contivesse a sua pressa. Resmungou que eu tinha coisas mais importantes a fazer do que olhar flores. Prevaleceu, porém, minha vontade. Ainda bem.

Pode parecer birutice minha, mas tem hora que temo virar uma marionete nas mãos da máquina, virar um cão mandado. Ouvi dizer que há pessoas que transam enquanto vasculham suas redes sociais à procura de likes. Em vez de pegar com Deus (o nietzschiano que está morto por excesso dostoievskiano de demônios dentro das pessoas), pego com a poesia para me livrar desse mal do século, que caminha a passos rápidos para piorar. Essa história de pegar com a poesia escutei-a numa entrevista que o educador, filósofo, professor, psicanalista Rubem Alves concedeu ao diretor e dramaturgo Antônio Abujamra no programa Provocações. Ambos já morando noutra dimensão.

Essa minha irresistibilidade diante da beleza das árvores, gosto muito dela. O período da florada é o meu prazer maior. A cor das flores vai até dentro de mim bem como o zunido das abelhas se refestelando no néctar e no pólen. E as flores, certamente sabe o altaneiro leitor, precisam primeiro existir dentro de nós para que possamos ver as de fora. No tempo em que fiquei filmando os cega-machados, um deles se dirigiu a mim. Não me deu conselhos como fez a amendoeira com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Apenas expôs a sua insatisfação, que era também a de outros ali perto dele. “Sinésio, os veículos de comunicação só sabem fazer matéria sobre florada de ipês; há quem me chame de ipê-roxo, até as flores do jacarandá-mimoso também são chamadas de ipês”.

Ele prosseguiu: “Tenho a impressão de que as flores não devem existir dentro dos repórteres envolvidos com essas pautas, que, a meu ver, são realizadas mecanicamente, sem que saibam verdadeiramente da beleza das árvores e, essencialmente, saibam da sua importância ambiental dentro do ecossistema”. Respondi-lhe que apenas poderia ajuntar algumas palavras em solidariedade ao seu descontentamento. No caso, esta crônica de meia-pataca.

Pois bem. Encostei o carro e fui colher o colorido da florada dos cega-machados e assim também me florescer. Coisa que a poesia me proporciona. Fiz fotos, vídeos. Inclusive registrei duas casinhas de joão-de-barro entre as flores de árvores diferentes. Os dois casais mostraram bom gosto na escolha do local de sua moradia. Foi então que me lembrei de uma espécie da mesma árvore, na Rua 61, próxima às da Avenida Goiás. Eu, inclusive, já falei dela aqui neste espaço. Como era perto, fui caminhando até ele. Não para ver suas flores, mas por outro motivo. Ruim por sinal. Sinistro, na verdade. Na crônica anterior, até mencionei o nosso xerife do meio ambiente — dr. Luziano Carvalho —, solicitando que ele entrasse no circuito para se descobrir o criminoso ambiental. Acharam a cabeça da mula-sem-cabeça, mas não o dendroclasta.

Ao longo da Avenida Goiás, há muitos cega-machados, perto da antiga Estação Ferroviária há um numero maior deles | Foto: Divulgação

Era um belo cega-machado. Em 2024, foi a sua última florada, e ela não foi bela como as anteriores, quando ainda não tinha sido atacado por uma pessoa vil. Sua morte ocorreu de modo lento. Agonizou aos poucos: o veneno matou as células do seu tronco, disso resultou a interrupção de sua alimentação de seiva bruta — água e sais minerais que vão das raízes às folhas — e de seiva elaborada (açúcares advindos da fotossíntese que são levados a todas as partes da árvore). No meio da noite certamente, a pessoa vil fez dois furos em seu tronco e inoculou um veneno maligno. Daí deu-se início à sua morte.

Encontrei na calçada apenas um pedaço de seu tronco. Sua morte foi consumada. O que deve ser uma alegria podre à pessoa que o envenenou. Que alminha horrenda a dessa pessoa. O demônio mora dentro dela.

Casa de joão-de-barro em cega-machado na Avenida Goiás | Foto: Sinésio Dioliveira

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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