“A volúpia é uma dor.” Li esta frase não sei onde. Inclusive já procurei no Google a sua autoria, mas nada encontrei com exatidão conforme as aspas, porém achei algumas com certa pertinência.

Sócrates, o filósofo ateniense condenado à morte por ingestão de veneno que Steve Jobs — cofundador da Apple — disse que trocaria toda sua tecnologia por uma tarde ao lado dele, disse não ser escravo do “ventre, da volúpia” por conhecer “prazeres mais doces que não deleitam apenas no momento…” Já o iluminista francês Voltaire disse que “os voluptuosos são carentes de companheiros de devassidão”. E é mesmo, pois nunca vi urubu tendo beija-flor como companheiro.

Giacomo Casanova: o conquistador que pode ter inspirador o don juan goiano | Foto: Reprodução

Com Devilton, nome fictício do personagem do meu relato, a dor resultante de sua volumosa volúpia por ventre veio de uma sessão de catiripapos de um marido enfurecido. Teve de fazer cirurgia no nariz: os buracos praticamente foram invertidos para cima de tanto soco. Minha omissão de seu nome se dá pelo fato de ele ainda estar vivinho da silva, ou melhor, quase da silva, haja vista que há bem pouca areia na parte de cima de sua ampulheta e ainda está com um câncer de próstata.

Pode-se dizer que Devilton, um homem de glande alma, gozou bem sua vida dentro dos ditames diabólicos da volúpia. Isso, óbvio, enquanto possuía vigor físico. Era um sujeito tarimbado em mutretas sexuais. Arrisco a dizer que, em luxúria, a sua expertise era maior que a do famoso veneziano Giacomo Casanova, visto que o que se sabe sobre este são relatos contados (com muitos pontos) há um bocado de décadas após a sua morte, ocorrida 1798. 

Visões de Don Juan | Foto: Reprodução

Devilton banqueteava suas amantes com o dinheiro público, sabia detectar as interesseiras quando iam apresentar o currículo… O que não quer dizer que tenha errado nos seus botes. Como ocupava cargo de alto escalão, tinha o poder de indicar pessoas para “trabalharem” em órgãos públicos, principalmente as amantes, que assim passavam a ser objetos de sua gula sexual. Ou era isso ou então era um “tchauzinho” ao cargo.

Por anos e anos, Devilton viveu mergulhado numa vida de prazeres, e isso sem tirar um tostão do próprio bolso. Tudo por conta dos cofres públicos. Alguns parentes dele também viviam acarrapatados nas entranhas poder sob suas asas protetivas. Chegou a ser deputado por dois mandatos, mas, antes do término do segundo, a ele foi oferecido um cargo de conselheiro de um tribunal de contas e assim dar lugar a um suplente de deputado: um empresário graúdo.

Sobre a dor de Devilton, uma mulher a quem deu um bom cargo, uma advogada, além de se recusar a fazer os favores sexuais (fato que levou ao conhecimento dos colegas de trabalho após a cantada), contou ao marido, de modo mais apimentado. O assédio do Casanova enfim resultou numa baita surra. Devilton deu muita sorte, pois tem marido que mata, sobretudo quando o chifre acontece ou cresce.

Sinésio Dioliveira é jornalista.