Afaste de imediato para bem longe do seu pensamento, altaneiro leitor, o significado negativo da palavra sombra no título desta crônica. Ela passa longe de algo obscuro, sombrio e outras significações afins, como, por exemplo, a que consta no Salmo 24:3, em relação ao consolo vindo da vara e do cajado de Deus àqueles que andam “pelo vale da sombra da morte”. Muitas pessoas, por temor a esse vale sinistro, têm por hábito usar, em sua casa e/ou no trabalho, uma Bíblia aberta justamente em tal Salmo, mas de olhos fechados à necessidade do uso do cérebro para se desviar de muitas coisas inerentes ao “vale da sombra morte”. Enfim, digamos assim, jogam seus neurônios na lixeira e põe sua vida no piloto automático da fé.  

O significado da respectiva palavra está literalmente relacionado a sombra de árvore. Esta crônica, inclusive, foi construída com palavras colhidas na sombra de árvore, pois o Crésio merece e tem a tudo a ver com a atividade profissional que exerce. Não de qualquer árvore, mas de uma que tenha a copa bem fechada. Árvores assim são as que mais proporcionam maior conforto térmico. Podem fazer a temperatura cair em até 5 graus e elevar a umidade relativa do ar até 12º e junto a isso os outros aspectos importantes delas ambientalmente. Encontrei esta informação numa pesquisa científica realizada pela Unesp de Rio Preto, São Paulo.

O Crésio, o plantador de sombra, é meu colega de trabalho. Seu nome completo é Crésio José de Oliveira. Tem meio século de vida. Há dez anos trabalha no viveiro de produção de mudas de árvores da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), onde atualmente é coordenador. Assim como são “benditos os que semeiam livros à mão cheia e manda o povo pensar”, conforme cantou o poeta baiano Castro Alves, os que semeiam árvores também são benditos.

Crésio de Oliveira: este homem contribui para melhorar o mundo, na prática | Foto: Sinésio Dioliveira

Vale lembrar que o livro (objeto em desuso em decorrência na inaptidão das pessoas para com a leitura) é feito de papel, o qual vem da celulose, que é uma substância extraída das árvores. Sobre ler, as pessoas hoje querem mais é ver imagens, que não exigem nenhum esforço intelectual para se ter acesso ao conteúdo. As palavras são desafiadoras, pois “cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra”, conforme disse o poeta Carlos Drummond de Andrade. Milhares das árvores plantadas nas ruas de Goiânia passaram pelas mãos de Crésio. Primeiro ele coloca as sementes numa sementeira, após a germinação, transfere as mudas para embalagens e destas as mudas são transplantadas para um local definitivo da cidade.

Recentemente recebi um recado do Crésio via Whatsapp: “Como sei que você gosta de achachairu, venha logo ao viveiro, pois o pé tá carregado”. Claro que atendi ao pedido do amigo, não sou de fazer desfeita a chegado. O achachairu é uma fruta de origem boliviana, o quilo custa cerca de R$ 30. Há dez anos comi dessa fruta pela primeira vez. Isso numa chácara em Cristianópolis. O amigo Eurico Barbosa, escriba dos bons, estava comigo nesse dia. Quem primeiro falou sobre a fruta foi o padre e botânico francês Charles Plumier, em 1703, numa viagem que fez pelas américas por ordem do rei Luiz XIV, o Rei Sol. Tal rei é o famoso que disse “o estado sou eu”. Frase esta que tem contaminado muitos governos eleitos pela democracia. Antes de se assenhorearem do poder, o povo é o seu senhor (beijam criancinhas e idosos, andam de jumento com chapéu cangaceiro, comem buchada em feira, pastel com garapa…); mas passam a ser “o estado sou eu” ao tomar posse da caneta e a só usar pronomes possessivos na primeira pessoa do singular…

Achachairu: fruta de origem boliviana | Foto: Sinésio Dioliveira

Voltemos ao Crésio, que é um assunto ameno. Cheguei ao viveiro, ele estava cuidando de umas mudas de tamarindo. No viveiro, também são produzidas árvores frutíferas visando à alimentação dos bichos, principalmente os que vivem nos parques. Fomos ao pé de achachairu. O doce da fruta deixou nossa conversa mais saborosa. Além dele, há outros colegas envolvidos nessa tarefa sublime de semear árvores pela cidade afora, como é o caso do Joanes, Félix, Pio, Ricardo (o famoso Smeagol) e outros tantos cujo nome me fugiu. O Crésio ganhou destaque na crônica pelo fato de ele ter se lembrado de mim numa circunstância prazerosa. Tivesse ele me chamado para capinar lote ou plantar batata no asfalto, eu também iria. Aproveitei que estava no viveiro e fui ver as várias árvores ainda bebês e outras já bem grandinhas. Na verdade, milhares delas, que logo irão morar nas ruas, avenidas, praças e parques da cidade.

Sinésio Dioliveira é jornalista