O promotor de Justiça Jales Guedes Coelho Mendonça, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), é um rei Midas. Só que é bem diferente do personagem da mitologia grega, ao qual o deus Dionísio deu-lhe o poder de transformar tudo que tocasse em ouro. Seu pedido a Dionísio, movido pelo visgo perigoso da ambição, acabou se transformando numa maldição que quase o levou à morte. A pedido de Midas, o deus grego do vinho e um dos importantes do Olimpo apiedou-se do desespero do rei e pôs um fim em seu poder.

Jales Mendonça não transforma tudo que toca em ouro, mas apenas algumas coisas. E essa sua capacidade, contrária à de Midas, não veio de presente dado por algum deus mitológico, veio de sua inteligência, de sua sabedoria. É sabedor de sobra da importância da fé, mas é também conhecedor do que o filósofo francês Michel de Montaigne disse em “Ensaios” sobre a necessidade de se usar, além da fé, “os meios de investigação que o homem recebeu de Deus”, no caso as faculdades mentais. O período de pujança administrativa por que passa o IHGG é uma prova explícita da capacidade de Jales, que tem ao seu lado outras pessoas tarimbadas ajudando-o a tocar, na maior harmonia, o instituto.

Rogério Cruz, Geraldo Coelho Vaz, Beto Selva, Renato Castelo e Sinésio Dioliveira | Foto: Nelson Santos

Era sobre esse poder “aurífero” de Jales que eu falava com o poeta Gabriel Nascente no evento realizado dia 5 deste mês nas dependências do IHGG tendo como tema os dois anos de gestão de Jales à frente da entidade. Vendo algumas pessoas passarem por Gabriel e o chamar de “poeta”, contei-lhe uma metáfora em dois versos sinesianos: “Há muitas pessoas que sabem das abelhas, mas que desconhecem o sabor do mel”. O Gabriel me olhou fixamente e me disse: “Sobre o que você está falando, grande?”. Expliquei-lhe a metáfora: “Há muitas pessoas que sabem que o Gabriel Nascente é um poeta, mas bem poucas conhecem ao pé da letra a poesia do Gabriel”. Os escribas em geral passamos por isso.

Jales Mendonça: presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás | Foto: Divulgação

Minha conversa com o Gabriel parou aí, pois vi o prefeito Rogério Cruz na solenidade e tratei de me aproximar dele, não para engraxar seu sapato com adjetivos dourados, mas para pedir-lhe algo que julgo ser importante à vida cultural de Goiânia. Não cheguei no prefeito de imediato e lhe fiz o pedido. Deixei que falasse com a galera graúda primeiro. Assim que surgiu um espaço, encostei nele. 

Calcei a cara e mandei ver: “Prefeito, no Rio de Janeiro há esculturas do poeta Carlos Drummond de Andrade e da escritora Clarice Lispector, respectivamente em Copa Copacabana e no Leme; em Campo Grande (MS) tem do poeta passarinho Manoel de Barros. Goiânia merece uma também. O senhor poderia dar à cidade uma Cora Coralina e colocar sua escultura no primeiro parque de Goiânia: o Bosque dos Buritis, que é, digamos assim, o nosso Central Park”. Ele me ouviu atentamente e comentou que gostou da ideia.

Cora Coralina: a poeta da Cidade de Goiás que conquistou o Brasil | Foto: Reprodução

Rogério então tirou seu celular do bolso, me pediu meu nome e meu telefone, anotou em sua agenda. O publicitário, apresentador e poeta Hamilton Carneiro (“Façam silêncio. Estou lendo Bariani Ortêncio”), que estava perto do prefeito, fez um comentário sobre o gesto: “Não é todo dia que a gente vê um prefeito anotando em seu celular o nome de pessoas que o abordam”. Não creio que o prefeito tenha feito tais anotações com o objetivo de me despistar quanto ao lhe pedi. Se o fez, quem mais vai perder é ele, pois estará se excluindo da autoria de uma ação que vai lhe render muitos elogios.

Além de Hamilton Carneiro, também presenciaram a minha conversa com o prefeito o poeta e escritor Geraldo Coelho Vaz, Beto Selva (genro do icônico Bariani Ortêncio) e o cantor e compositor Renato Castelo, que canta que “Na Vila Operária tem um bar que se chama Liberdade”. Agora é esperar a palavra do prefeito sair do campo do abstrato e ganhar vida. Fato que será muito comemorado pelos visitantes do Bosque dos Buritis.

Sinésio Dioliveira é jornalista