Não é de hoje que o assunto “revitalização do Centro de Goiânia” anda circulando por aí, e os veículos de comunicação dentro do seu papel sempre divulgando a ação, que não ganha fôlego de vida à altura do que precisa. É coisa de mais de duas décadas essa conversa. Praticamente só tem havido malabarismo verbal. Quando prefeito de Goiânia, isso de 2001 a 2004, Pedro Wilson, hoje superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-Goiás), deu o pontapé inicial na Avenida Goiás. Falando em Pedro, ele inclusive foi apedrejado após assumir o comando do Iphan: alguém do órgão queria dar-lhe rasteira e disseminou maldades improcedentes sobre ele numa coluna política de um jornal diário da cidade. Aroeira que é, ele moeu a pedra da maledicência.

À época de Pedro, o canteiro central da via estava entupido de vendedores ambulantes. Até no pescoço da estátua do Anhanguera (o pobre diabo velho, que alguns nefelibatas querem sapecar), tinha gente vendendo bugigangas. Pedro os retirou. E mais: fez uma excelente reformulação do espaço. Os muitos pergolados ao longo da via hoje estão repletos de flores — buganvílias de diversas cores (flor brasileira com nome vindo do navegador e escritor francês Louis Antoine de Bougainville — 1729/1811) e flor-de-são-joão —, gerando sombra e atenuando com sua beleza o cinza tétrico do cenário urbano vindo da fumaça dos automóveis. Bougainville esteve no Brasil.

Quando os pergolados foram construídos, algumas pessoas que não sabiam a finalidade paisagística de tais estruturas, ficaram sem entender o porquê delas. Iris Rezende em 2020 sancionou a famosa Lei das Fachadas, mas, porém, todavia os comerciantes não deram bola à respectiva lei voltada à definição de regras e limites de publicidade em imóveis. Tudo por lá continua no furdunço de dantes.

Prédio da Rua 20, no Centro, tem apenas um recipiente para destinar o lixo produzido pelos moradores | Foto: Sinésio Dioliveira

Como já falei aqui neste espaço, sou morador do Centro desde 2012. E também trabalho no Centro. Ao longo desse tempo, venho observando a mentalidade atrasada de muitos moradores e comerciantes do setor. Arrisco a dizer que o Centro é o lugar cujas calçadas são as que mais têm titica de cachorro por metro quadrado. Certa vez, distraído a observar as flores de algumas magnólias perto do Colégio Lyceu, melequei um sapatênis. Xinguei até a terceira geração do dono do cachorro que deixou a merda do bicho na calçada.

Limpei o quanto pude o solado do calçado, mas ainda assim a catinga continuou: vestígios do excremento nas fendas da sola do calçado. Caminhei por alguns minutos e encontrei uma aroeira-salsa. Quebrei um pequeno galho, depois de muito esfregar o sapato, consegui me livrar da catinga com o cheiro das folhas. Em casa, enquanto dava uma lavada caprichada no calçado, voltei a dirigir algumas palavras injuriosas ao dono do cão, a quem chamei de filho de puta com charreteiro. Na hora, ri de mim por usar tal expressão, que vem da época em que o capeta ainda era menino.

Dias atrás após sair do elevador do meu prédio e me dirigir ao meu carro no estacionamento, encontrei um montículo de merda canina no meio do caminho. Esse episódio é coisa miúda no meu arranha-céu. O grave mesmo lá é que não se faz destinação correta dos resíduos que os moradores geram. A maioria destes disponibiliza o material reciclável num tambor específico em cada andar para tal fim. Mas aí o material toma um rumo inapropriado. Ou seja, os materiais recicláveis e os não-recicláveis têm o aterro sanitário como destino, pois tudo é colocado num mesmo recipiente na porta do prédio. Há prédios que usam dois recipientes (um para cada tipo de material), no entanto isso pode ser contado a dedo na cidade.

Já externei meu descontentamento sobre isso, mas a senhora que comanda o prédio, numa postura monárquica, infelizmente, é desprovida de sensibilidade ambiental. Não sabe ela o desfavor que está prestando a Goiânia, fazendo o aterro sanitário aumentar de tamanho com os materiais recicláveis enviados para lá. Materiais estes que poderiam ser encaminhados às cooperativas. O que resultaria em geração de emprego e renda a milhares de pessoas que atuam no segmento em Goiânia e que precisam ser valorizadas. Muitos comerciantes do Centro também estão mergulhados nessa escuridão mental de dar a mínima importância para as questões ambientais do setor, no qual eles têm as suas galinhas de ovos de ouro botando diariamente.

Sinésio Dioliveira é jornalista