As coisas sobre as quais nos propomos a falar exigem de nós um olhar mais próximo, mais esquadrinhador para que assim saibamos definir (ou pelo menos arranhar alguma definição mais próxima) o que elas verdadeiramente são, o que verdadeiramente dizem. Neste caso, exige-se uma avaliação mais pormenorizada para se detectar palavras com segundas intenções (e até terceiras), as quais muitas vezes costumam camuflar propósitos abomináveis. Na fábula do grego Esopo, que viveu seis séculos antes de Cristo, o corvo, que tinha um pedaço de queijo no bico, foi levado no bico e o entregou de bandeja à raposa. Acreditou que esta falava a verdade no elogio que fizera a seu canto. Abriu a boca para cantar, o queijo caiu e foi parar justamente na goela da felpuda. O pedaço de queijo… never more…

Não sei se esquadrinhei bem o que presenciei em relação a um casal que vi dias atrás. Cabe, portanto, a você, altaneiro leitor, peneirar minhas palavras e constatar se estão ou não afinadas com o fato que buscam contar. Em frente a uma loja de produtos chineses, estava eu à espera de uma amiga que comprava um presente para sua sobrinha no estabelecimento. Vi então o respectivo casal vindo na calçada. O homem de aspecto saudável e um tanto musculoso (usava uma camisa de manga curta que mostrava seus braços roliços (bons para enfrentarem uma capina), aparentando uns 50 anos, empurrava uma cadeira de roda na qual estava a mulher.

Percebi-os pelo que a mulher estava falando num pequeno megafone. Ambos não estavam bem trajados (nem poderiam, visto que assim a obtenção de esmola ficaria difícil). “Me ajudem por favor, pessoal, com qualquer quantia. O pouco com deus é muito; o muito sem deus não é nada.” O que mais comovia as pessoas que passavam no sentido de fazê-las ajudar a mulher não era a sua frase de súplica. Mas sim uma grande ferida que tinha no pé esquerdo, já atingindo uma parte da perna. Uma ferida aberta, muito dolorida de se ver. Conforme o homem ia empurrando a cadeira, a mulher ia repetindo a mesma frase e no meio dela intercalando um “obrigado” a quem lhe dava esmola.

Era uma ferida de estrangular os olhos distraídos de quem a visse. Dar de cara com aquela carne aberta, úmida, desencadeava em muitos o ato de caridade. Comovida com o que vira, uma mulher parou ao lado da cadeira de rodas, retirou algumas moedas de sua bolsa e estendeu sua mão direita sobre a ferida. Entendi que fizera uma oração rápida buscando livrar a mulher da ferida. E outra que nem dava tempo de se fazer uma prece longa, pois o casal precisava prosseguir (e prosseguiu) em seu caminho na busca de mais esmola.

Essa ferida talvez seja daquela da qual a esfíngica Clarice Lispector falou no conto “A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais”. No texto clariceano, a Bela era Carla; a Fera, um mendigo. Carla, cujo marido era um banqueiro, “simplesmente não tinha o que fazer. Faziam tudo por ela”. Era uma dondoca. Tinha muitas amigas em comum quanto a “se vestir bem e dar jantares a dezenas de pessoas”. O encontro dos dois se deu na Praia de Copacabana. Após sair do salão de beleza, resolveu caminhar na orla da praia, unhas pintadas, cabelos ao vento, nada a fazer… “Não se lembrava quando fora a última vez em que estava sozinha consigo mesmo. Talvez nunca.”

Foi aí que surgiu um mendigo sem uma perna e de muletas no meio do caminho de Carla. E pediu-lhe uma esmola. Ela tinha apenas na bolsa a cédula de maior valor de então, algo como a nossa de 200 reais. Desconcertada no encontro com o mendigo que tinha uma grande ferida na perna, deu ao homem a cédula. A esmola foi tanta que o mendigo achou que Carla não batia bem. Pensou mais (e obscenamente): “é daquelas vagabundas que cobram caro de cada freguês e com certeza está cumprindo alguma promessa”. No caso, dar uma esmola graúda a ele.

Carla, que não tinha o hábito de pensar, acabou constatando algo em comum entre ela e o mendigo. Descobriu-se também mendiga, não a ponto de pedir esmola, mas de mendigar o amor do marido banqueiro, que tinha duas amantes. Sua reflexão expôs a ferida de sua alma: “mendigo pelo amor de Deus que me achem bonita, alegre, aceitável, e minha roupa de alma está maltrapilha…”

Não sei afirmar se a ferida da mulher que vi tem a mesma finalidade da ferida do homem sem perna: usar a ferida para comover as pessoas e assim descolar alguns trocados. Vi-a na cadeira de roda e me lembrei do personagem clariceano, que a escritora chamou de fera. Se sei alguma coisa, não sei, mas arrisco a dizer que por aí há muita gente mendigando amor, cargos públicos…  e muitas vezes até beijando os pés dos picas-grossas que dominam as entranhas pútridas do poder.

Sinésio Dioliveira é jornalista