Cordelia Fine persegue o implacável “Testosterona Rex” em seu novo livro

Na obra ganhadora do Royal Society Science Book Prize de 2017, que chegou pela editora Três Estrelas, a filósofa, psicóloga e escritora usa arsenal científico para derrubar mitos que esmagam as esperanças de igualdade sexual

Tirem as crianças da sala! Escritora Cordelia Fine, em seu livro, fala de ideologia de gênero – ainda que no idioma da ciência. Foto: Divulgação

Desde que mundo é mundo, meninos não choram, usam azul e brincam de carrinho. Meninas brincam de boneca, usam rosa e são mais sentimentais. Quando eles crescem, a tendência se efetiva. Garotos viram homens racionais, calculistas e extremamente competitivos nos negócios; ao passo que as garotas, mais sensíveis e maleáveis, voltam suas perspectivas para carreiras e interesses em consonância com sua essência, naturalmente mais sociável e maternal. Veja bem o termo – “naturalmente”. Ou seja: tais constructos seriam a mimese das condições encontradas na natureza, somada à nossa herança genética ancestral, para determinação do que venha a ser masculinidade e feminilidade. Conceitos estritamente arraigados àquela imagem tão perpetrada pelos documentários de domingo à tarde sobre a vida selvagem: a luta implacável pela sobrevivência da espécie coloca, de um lado, os machos, que precisam trucidar uns aos outros para assumir a liderança da manada, garantir o domínio do território e copular com seu harém de fêmeas, fazendo jorrar sua sementinha pelo mundo. A estas, por outro, mais recatadas e dos lares, cabem-lhe essencialmente o papel de reprodução e cuidados com a prole. Certo?

Errado. Erradíssimo. Pelo menos para a escritora Cordelia Fine. Filósofa e psicóloga britânica nascida no Canadá, Fine vem fazendo em sua carreira uma verdadeira cruzada para desconstruir tudo aquilo que aprendemos no Discovery Channel. E novamente, em seu já terceiro e mais recente livro, ela muniu-se de todo arsenal científico a seu alcance para atacar a tão temível ‘fera’ que dá nome à obra. Ganhador do Royal Society Science Book Prize de 2017, “Testosterona Rex: Mitos de Sexo, Ciência e Sociedade” chegou ao mercado brasileiro pela editora Três Estrelas. O trocadilho no título entre o nome do tiranossauro e o hormônio masculino conceitua um poderoso mito que, na visão de Cordelia, esmaga as esperanças de igualdade sexual. A proposta da autora é, por meio de uma linguagem fácil e bem-humorada, refutar o preceito pseudocientífico de que a biologia que faz com que homens/machos e mulheres/fêmeas sejam naturalmente diferentes entre si. Seja nas savanas africanas, seja nas selvas de pedra das grandes metrópoles. Para ela, os conceitos de ‘masculino’ e ‘feminino’ nada mais são do que convenções sociais e culturais, e que teses e pesquisa científicas seriam deliberadamente enviesadas com o intuito de reiterar tais estereótipos.

Esta é, senhoras e senhores, para muitos, a parte mais assustadora do livro de fato: Cordelia Fine fala, nada mais, nada menos, sobre ideologia de gênero! Rápido! Tirem as crianças da sala! Isto mesmo: ideologia de gênero, ainda que no idioma da ciência. No que que diz respeito a parte engraçada do livro, é um ingrediente extremamente discreto na escrita de Cordelia. Não sei se é por se tratar de um humor britânico ou científico, que passam longe de gargalhadas (apesar de que dou muitas risadas com as piadas nerds de “The Big Bang Theory”), ou se eu não entendi direito as tiradas. Mas no outro intento, Cordelia mostra a que veio. É uma árdua e arguta combatente do pressuposto de que, em função de um passado ancestral que recompensava homens competitivos e mulheres carinhosas, essas diferenças são supostamente recriadas em cada geração por hormônios sexuais e cérebros masculinos e femininos. “Na biologia evolucionária, a seleção sexual vive um estado de convulsão empolgante; revelações empíricas estão virando de ponta-cabeça fatos tidos como líquidos e certos, ao passo que mudanças conceituais estão descartando antigos pressupostos”, diz Cornelia na conclusão do capítulo “Mosquinhas mirabolantes”.

Confundir sexualidade humana (cultural) e reprodução (natural) é classicamente pseudocientífico. É claro que a sexualidade visa a reprodução – se você for lêmure. Se for humano, a sexualidade visa a muito mais do que a reprodução; foi isso que a evolução fez para a natureza humana

Entre os vários exemplos que ela traz no livro, está o do biólogo e geneticista britânico Angus Bateman, que conduziu uma série de experimentos com as drosófilas, também conhecidas como mosquinhas-das-frutas. Eles se tornaram a fonte de uma torrente de alegações sobre as diferenças psicológicas que se desenvolveram entre mulheres e homens. Qualquer pessoa que um dia já tenha se deparado com a ideia de que homens dirigem Maseratis pela mesma razão que pavões cultivam caudas primorosamente ornamentais foi tocada pelas repercussões desse estudo pioneiro. A pesquisa de Bateman foi inspirada pela teoria darwiniana da seleção sexual, uma subteoria muito debatida no âmbito da teoria darwiniana da seleção natural, esta sim, amplamente aceita. No entanto, por razões que ainda permanecem obscuras, a parte destes estudos que trazem evidências científicas dos benefícios reprodutivos da promiscuidade feminina simplesmente desapareceu da literatura científica.

O “Paradigma de Bateman”, como às vezes é conhecido, expandido em um estudo pioneiro do biólogo evolucionário Robert Trivers, foi durante muito tempo o “princípio norteador e a pedra angular de boa parte da teoria da seleção sexual”. Irrefutavelmente elegantes, as conclusões de Bateman, aprimoradas por Trivers, desfrutaram por muitos anos do status de princípios universais. Tornaram-se também o fundamento de alegações sobre as diferenças que mulheres e homens desenvolveram, em que caudas de pavão são substituídas por Maseratis, ou por um escritório melhor e mais bem localizado, ou por troféus imensos e reluzentes. Apenas substitua a expressão “muitas fêmeas” por “muitas namoradas” e “traços característicos que os machos mais bem-sucedidos têm” por “Maseratis que os homens mais bem-sucedidos têm”, e todos os pontos se ligam. A partir dessa perspectiva evolutiva, uma mulher que deseja um status elevado na carreira é um pouco parecida com um peixe que deseja uma bicicleta, pois estaria “contrariando sua natureza”. Entretanto, nas últimas décadas, houve tal reviravolta conceitual e empírica na biologia evolucionária que, segundo especialistas, hoje os artigos clássicos de Bateman e Trivers são, em larga medida, citados apenas por “razões sentimentais”.

Título: Testosterona Rex: Mitos de Sexo, Ciência e Sociedade

Autor: Cordelia Fine

Editora: Três Estrelas

Valor: R$ 48,60

A testosterona, assim nos disseram, é a essência da masculinidade, e o sexo biológico é uma força fundamental em nosso desenvolvimento. Mas após toda a leitura do livro (relevante sim, mas igualmente maçante), a grande lição que “Testosterona Rex” deixa é que o sexo não cria naturezas masculinas e femininas. Em vez disso, o sexo, os hormônios, a cultura e a evolução trabalham juntos de maneiras que tornam a dinâmica de gênero passada e presente apenas uma sugestão de serviço para o futuro – não uma receita. Para Cordelia, já não podemos mais supor que decretar as diferenças sexuais como “biológicas”, “inatas”, transculturalmente universais, ou manifestações de adaptações sexualmente selecionadas, seja o mesmo que supor que estamos inexoravelmente presos a nossa constituição fisiológica. Para quem tem interesse neste debate, “Testosterona Rex” é um mix de ciência evolutiva, psicologia, neurociência e história social para ir além dos velhos debates da “natureza versus criação” e explicar por que é hora de fazer o mito tirânico da testosterona Rex desaparecer.

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