Ricardo Silva
Ricardo Silva

“Unsane”, o excelente thriller psicológico de Steven Soderbergh

A protagonista de “Unsane”, interpretada com primor pela excelente Claire Foy, sofre de um mal que a acompanha para todos os lugares: a sensação de perseguição constante

Para onde vai, a protagonista do filme sente estar sendo observada, e isso faz com que mude de cidade | Foto: Divulgação

Sawyer Valentini aparentemente é uma moça comum: trabalha, é dedicada ao trabalho, tem encontros, pequenos flertes de internet. Nada fora da curva. Mas a protagonista de “Unsane”, interpretada com primor pela excelente Claire Foy, sofre de um mal que a acompanha para todos os lugares: a sensação de perseguição constante.

Para onde vai, sente estar sendo observada, e isso faz com que mude de cidade, seja transferida de posto de trabalho e precise estar em constante estado de alerta. O seu perseguidor tem um rosto específico. É o seu ex-namorado, que não aceitou muito bem o rompimento entre eles e aparentemente está seguindo os passos de Sawyer em todos os lugares.

Esta é a premissa do mais recente trabalho do cineasta Steven Soderbergh (“Sexo, mentiras e videotape”, “Onze homens e um segredo”, “Solaris”, entre outros). Todo rodado por iPhone, o longa de Soderbergh é bastante competente no seu primeiro ato ao introduzir o espectador na rotina de Sawyer por meio de uma câmera que a acompanha à distância, como se fosse uma espécie de stalker também.

Por causa dessa sensação de perseguição, Sawyer tem surtos de ansiedade e vai atrás de ajuda numa clínica psiquiátrica para buscar aconselhamento e acaba sendo manipulada a ponto de ser internada involuntariamente a assinar alguns papéis que não leu. Neste momento, o clima do filme torna-se kafkiano, com a protagonista não entendendo muito bem o que está acontecendo e rapidamente se transformando numa paciente da clínica.

Sem saber o que fazer para sair dessa armadilha, Valentini tenta provar sua sanidade dizendo que aconteceu um erro, que não deveria estar ali, que não é louca — o que tem o efeito contrário do esperado. Já internada, ela tem uma amarga surpresa: o seu ex-parceiro consegue uma forma de ser um dos enfermeiros do lugar. A partir daí o longa tem uma virada, e os jogos psicológicos começam a ficar mais intensos, tanto para a protagonista quanto para quem está vendo o filme.

Deixando sempre tênue o limite das certezas, Soderbergh usa muito bem a câmera subjetiva para amplificar os sentimentos de atordoamento da sua protagonista. Ele brinca constantemente com a certeza do espectador — mesmo que em muitos momentos o roteiro caia em certas redundâncias e seja previsível, permitindo mesmo ao espectador menos atento que possa antecipar certos desfechos.

Mesmo esses pequenos desalinhos — que receberam duras resenhas da crítica especializada — não tiram o brilho do filme do diretor estadunidense. O filme levanta boas discussões a respeito de temas em voga sobre violência feminina através de um thriller psicológico que constantemente joga com as convicções do expectador sobre quão longe os abusos “precisam” ir contra uma mulher para que ela tenha sua voz ouvida e levada a sério.

Além disso, o filme aponta também suas críticas ao sistema psiquiátrico e de seguro de saúde dos Estados Unidos, que tratam os seus usuários como metas numéricas que precisam ser alcançadas a qualquer custo, desumanizando todo o processo de seus serviços.

Extremamente experimental, ainda que não ultrapasse muito os limites das experimentações com seu roteiro raso  — mesmo que angustiante —, Unsane”é um excelente filme que sabe de suas intenções e usa bem seus artifícios narrativos possibilitando um debate sobre assédio e saúde mental, sem perder seu viés de suspense e terror.

Assista ao trailer do filme “Unsane”:

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