Como nasce um filme: mergulho na realidade dos povos indígenas

Cineasta goiano narra a história de fundo que deu origem ao curta-metragem “O Turista no Espelho”, selecionado para a mostra competitiva do IV Fronteira – Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental, em Goiânia

Prática do etnoturismo por uma aldeia indígena próxima de Manaus, em 2011: etnias dessana, tukana e tuyuka ofereciam aos turistas alguns rituais e explanações sobre sua cultura | Guaralice Paulista/Divulgação

Lourival Belém Jr.
Especial para o Jornal Opção

Em 2013, participei da “II Oficina de Ava­lia­ção das Macrorregio­nais de DST, AIDS e He­patites Vi­rais” junto às populações indígenas, no Mato Grosso, cu­jo relatório, pos­teriormente, me deu um norte para a construção do argumento de meu documentário mais recente, “O Turista no Es­pelho”. O filme bus­ca a realidade dos povos nativos da Amazônia e dialoga com a situação de marginalidade de comunidades campesinas do país.

As oficinas de que participei, so­bre a política de equidade do Sis­te­ma Único de Saúde (SUS) junto aos in­dígenas, me fizeram sentir como um estrangeiro, observando uma nova organização social.

Eu estava integrando uma área dos parceiros convidados mais distantes, implicados na transversalidade destas ações. Estivemos reunidos num hotel de Cuiabá, do dia 4 a 6 de junho de 2013, em aproximadamente 30 pessoas, sendo um quarto delas de origem indígena declarada.

A troca de experiências entre os in­tegrantes do grupo foi muito ri­ca. Ao longo da preparação, várias ques­tões ligadas ao campo da equidade foram levantadas. Dentre as quais, falou-se da relação abuso de dro­gas/abusos sexuais, do abuso de bebidas alcoólicas pelos adolescentes, das dificuldades dos trabalhos dos psicólogos, onde eles existem, e do desinteresse das comunidades por palestras sobre drogas (“ninguém fica”).

Incansavelmente, foi destacada a necessidade de se conhecer aquele povo com o qual nos relacionamos, sua visão de mundo, corporalidade, a forma como cada comunidade se organiza. A língua, por exem­plo, é uma proteção resistente da cultura de um povo. E neste ca­so, é também uma barreira às tecnologias que vêm de fora.

A tradução é sempre um ponto que requer atenção especial, facilitada quando o Agente Indígena de Saú­de (AIS) tem habilidade bilíngue. Quando não é o caso, há ma­nei­ras de se certificar de que o que foi dito foi bem compreendido pe­los povos indígenas. Uma delas é ou­vir de um terceiro o que foi en­ten­dido, numa espécie de tradução de volta à nossa língua da informação passada.

Preconceito, discriminação e violência se imbricam aqui e exigem de todos nós muito estudo, re­fle­xão e diálogo permanente para equa­cionarmos o respeito à cultura in­dígena e a proteção às pessoas que são vítimas destas ações e têm pou­ca ou nenhuma capacidade de defesa dos seus direitos.

O uso de drogas, as relações ho­moafetivas, as crianças que nascem com deficiências físicas – em al­gumas etnias, são mortas ao nascerem – e os portadores do HIV me­recem cuidado especial.

As discussões sobre as propostas de trabalho com as comunidades indígenas foram abrindo meu olho para além daquilo que eu já sabia. Leituras me foram importantes. Nessas horas, a literatura também po­de ser uma luz a ser jogada sobre os problemas que enfrentamos.

Como diz o narrador de “Dois Ir­mãos”, de Milton Hatoum, “Nin­guém se liberta só com palavras”. Mas elas podem ser um marco de­fi­nidor de águas, como em um trecho de “Ontem, Como Hoje, Co­mo Amanhã, Como Depois”, de Ber­nardo Élis:

“Ora, levar para garimpo mu­lher branca era muito difícil. Ga­rim­po é lugar excomungado de sem conforto; mulher branca ne­nhuma ia aguentar. E se aguentasse, ficaria caro. Bom seria levar a ta­puia. Ela cozinharia para Sulivero, la­varia a roupa, cuidaria das coisas en­quanto ele estivesse na cata. Ser­vi­ria de mulher. E ficaria barato. Put-Kôe não exigia nem vestido, não exigia comida boa, não exigia calçado, não queria cama, nem casa, nem coisa alguma.”

 

“O técnico, na origem, pede apenas mais um corpo. Os indígenas nos mostram que são sempre povos e almas. Podem ser destruídos, dizimados como sabemos na história das Américas, mas não aceitam ser subjugados. Não podem ser derrotados.”

 

Algumas reflexões
O modo de fazer a abordagem nes­ses trabalhos me levaram a algumas reflexões, que, por sua vez, me con­duziram ao desenvolvimento do meu filme. Aparentemente, não pa­re­ce difícil executar as técnicas discutidas nessas oficinas. Imagino que en­tre nós os problemas possam ser su­perados com um esforço razoável.

Aprendemos a aceitar um abu­so do técnico que age dentro de uma racionalidade instrumental (ló­gica de dominação da natureza e sub­missão do homem à sobrevivência material).
Com os povos indígenas, a resistência é muito grande e escancara nossa brutalidade, a dificuldade de respeitar o outro. Pelos diálogos que estas oficinas nos proporcionaram, penso que as almas destas inúmeras etnias conseguiram enternecer as duras e sofisticadas tecnologias dos homens e “laboratórios” que se deslocam para as aldeias.

O técnico, na origem, pede apenas mais um corpo. Os indígenas nos mostram que são sempre po­vos e almas. Podem ser destruídos, dizimados como sabemos na his­tória das Américas, mas não acei­tam ser subjugados. Não po­dem ser derrotados.

Utopia
Da força deste espanto intercultural nasce um aprendizado co­mum. E nasce também a possibilidade de o afeto unir o que a em­pre­sa colonizadora separou. O SUS é uma destas ilhas socialistas que o povo brasileiro construiu com grandes embates sociais, en­fren­tando suas elites.

Isso nos lembra a admiração de Tho­mas Morus pelo que ouviu di­zer do povo Tupinambá, que lhe ser­viu de inspiração para escrever “Uto­pia”, livro publicado em 1516: solidariedade, ausência de classes, decisões coletivas.

A “Revista de História”, da Bi­bli­oteca Nacional, número 91, de abril de 2013, trouxe como matéria de capa o dossiê “Somos Todos Ín­dios – A Saga de um Povo Des­co­nhecido”. Sempre me vi assim, um indígena – seja pelas conversas com os meus avós sobre nossos ancestrais Macame­krã, que fundiram-se aos Pureca­me­krã na primeira metade do século 19, para não serem dizimados e deixaram o Su­doeste do Ma­ra­nhão em direção ao Norte do To­cantins, formando o povo Kra­hô, seja pelos estudos his­tóricos.

Agora, a genética confirma, e mos­tra que uma terça parte do nos­so sangue veio das mulheres in­dígenas, outro terço é das mulheres negras e o último, do falo europeu. Depois destas oficinas, passei a duvidar do que afirmava o dossiê. As matérias da revista falam so­bre diversos aspectos destes po­vos com uma perspectiva crítica, mas nomeando-os “índios”. Fiquei in­trigado, porque esta palavra esteve fora do nosso dicionário naqueles três dias.

Durante os dias de encontro, ouvi pouquíssimas vezes alguém usar a palavra “índio”, jamais para se identificar ou se referir a outro dali. Usou-se “indígena”, “populações indígenas”. Ouvi uma pessoa apresentar-se assim: “eu sou indígena”.

Lembro-me de ter ouvido a pa­la­vra “índio” apenas duas vezes. A pri­meira, num sentido negativo, re­fe­rindo-se a uma terceira pessoa, que mostrava postura preconceituosa. Uma coordenadora falava de um técnico com dificuldade de fa­zer o teste rápido e de sua preocupação com o resultado positivo: “me­do do índio me bater!”. A se­gun­da para quantificar a população do seu estado.

Um indígena se referia aos de­mais como “parentes”. Pareceu-me que cada um tinha uma forma de evitar a palavra “índio”. Entre an­tropólogos, indigenistas, historiadores e indígenas falando em re­vis­tas mais ou menos especializadas ou nos meios de comunicação, eu não percebia essa preocupação. Fi­quei em dúvida com a minha per­cepção nestas oficinas.

Quando falam de si como “indígenas”, parecem buscar um novo status para sua condição social. Rejeitam a denominação externa que os vê como os desconhecidos “ín­dios”. Complexos atributos so­cio­culturais são requeridos. Um tem ver­gonha de assim se apresentar, o ou­tro apresenta-se com orgulho. Uma questão que passa pela garantia da identidade indígena. Questão mais que complexa.

Esta questão foi problematizada eficientemente pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no seu ensaio “No Brasil, Todo Mun­do é Índio, Exceto Quem Não É”, no qual diz:

“Não é possível fazer todos os brasileiros deixarem de ser índio completamente. Por mais bem su­ce­dido que tenha sido ou esteja sen­do o processo de desindianização levado a cabo pela catequização, pela missionarização, pela mo­der­nização, pela cidadanização, não dá para zerar a história e suprimir to­da a memória, porque os coletivos humanos existem crucial e emi­nentemente no momento de sua reprodução, na passagem intergeracional daquele modo relacional que “é” o coletivo, e a menos que es­sas comunidades sejam fisicamente exterminadas, expatriadas, de­portadas, é muito difícil destruí-las totalmente. (…) Não há culturas inautênticas, pois não há culturas au­tênticas. Não há, aliás, índios autênticos. Índios, brancos, afrodescendentes, ou quem quer que se­ja – pois autêntico não é uma coi­sa que os humanos sejam.”

Lourival Belém Jr.: “Assombrado e atordoado, me vi subitamente estimulado com o que me aterrorizava no etnoturismo. A preocupação política com a linguagem me trazia um sopro de vida.” | Guaralice Paulista/Divulgação

Rituais indígenas
Para o segundo dia de oficinas, ha­via também um espaço reservado aos rituais indígenas. Não ouvi ne­nhum comentário a respeito, tive a im­pressão de que a programação não seria cumprida, como não o foi. Po­rém, a certa altura da manhã, uma coordenadora, lembrando os ado­ecimentos que tinham acometido a equipe do Ministério da Saúde na­queles últimos dias, devido aos em­bates em defesa de políticas pú­bli­cas democráticas, pediu uma atitude espiritualizada (os termos eram ou­tros, talvez reza), e disse que uma li­derança indígena ali presente, se qui­sesse, poderia nos trazer alguns de seus rituais.

Depois de um momento de si­lêncio, o líder timidamente se pron­tificou a trazer uma dança breve, ao que foi seguido por outro, ainda mais tímido, com sua dança também orientada por um ritmo cadenciado, com marcação forte e características de alguns de seus rituais. Todos nós de mãos dadas, em círculo, dançávamos com passos miúdos, sentindo a gravidade do momento.

Naqueles pouquíssimos minutos, senti ali uma forte emoção. Vi mui­ta beleza na dança, apesar da nos­sa timidez e da simplicidade de tu­do. Acredito que a dignidade do mo­mento – e por extensão das pes­soas – veio com o contexto téc­nico-humanista do encontro, o sen­tido que damos às tecnologias, às lutas pelos direitos humanos, à re­sistência cultural indígena e à for­ça democrática que emana da construção permanente do SUS.

Este acontecimento me fez lem­brar de um contexto totalmente di­ferente, numa aldeia indígena pró­xima de Manaus, em 2011, cu­jos membros (das etnias dessana, tu­kana e tuyuka) ofereciam aos tu­ris­tas alguns rituais e explanações so­bre objetos e práticas de sua cultura (etnoturismo). Os espectadores em suas posturas diversas – im­pa­cientes, não integrados e curiosos – e o ambiente mercadorizado con­feriam ao espetáculo um aspecto de melancolia degradante.

A cena me impressionou bastante, e foi tomando um lugar central em “O Turista no Espelho”. Foi a partir daí que passei a caminhar com a ideia de um documentário experimental sobre as condições da dignidade humana num contexto de degradação socioambiental, desterritorialização e espetacularização dos povos e da cultura indígena. O SUS cria outro contexto para os povos indígenas e todos os povos brasileiros.

O ritual da aldeia de Manaus, em 2011, exigiu de mim uma superação da postura meio contemplativa de outras gravações, feitas em 2008, também em Cuiabá e em cidades do Pará. Assombrado e atordoado, me vi subitamente estimulado com o que me aterrorizava no etnoturismo. A preocupação política com a linguagem para elaborar sentimentos e percepções do desastre ecológico me trazia um sopro de vida.

Quando voltei a Cuiabá, como mé­dico, em 2013, não imaginava que assistiria a um ritual com mui­ta beleza e força espiritual que me mar­caria tanto e ressignificaria aquele outro que me perturbara em Manaus, em 2011.

Deste choque, vejo nascer o fil­me sobre a minha relação com os indígenas, ambas bastante problemáticas – técnico de saúde e turista desavisadamente aprendiz. As danças e cantorias aplacavam o luto como um bálsamo enviado pelos es­píritos e corpos da saúde popular, que à minha frente cresciam com as ocupações indígenas e quilombolas, belas e indignadas, que ocor­riam na capital do país. As ce­nas e as fotos daqueles sertões en­con­traram um sentido.

Pelo que vi em Cuiabá naqueles dias, a intenção ali devia ser de pre­paração, acolhimento, beleza, va­lorização da cultura e integração. Não ocorreu como programado, mas com tanta espontaneidade, os ri­tuais mostraram um pouco da po­tência do seu significado, dificilmente alcançado mesmo quando se busca isto.

Narrativas
Não posso deixar de trazer aqui dois filmes que partem da nossa re­la­ção com indígenas para falar de for­ma bastante original, como ficções que desaguam no documentário, das identidades do País: “Ira­ce­ma – uma Transa Amazônica”, de Jor­ge Bodansky e Orlando Sena, de 1974, e “Serras da Desordem”, de An­drea Tonacci (2006).

O primeiro desconstrói o ideário de um “Brasil grande”, criado du­rante a ditadura militar, através de um caminhoneiro que percorre a Transamazônica ao lado de uma in­dígena ainda adolescente (Ira­ce­ma), num contexto de degradação so­cioambiental.

O segundo produz uma metáfora do País a partir do encontro do Estado, sociedade e meios de co­municação com um indígena (Ca­rapiru), sobrevivente melancólico de um massacre perpetrado por grileiros, que tem que abandonar o filho durante a fuga e permanece sem falar português ou interagir com alguém depois de anos e anos de errância pelo sertão.

Os dois filmes criticam as formas tradicionais, conservadoras e autoritárias de representação cinematográfica, e se valem para isto da problematização do discurso, da im­possibilidade de apreensão do real, da encenação de si mes­mo, da marginalidade e do nomadismo, das identidades negociadas, do ima­ginário social e da dominação do outro baseada na modernidade tec­nológica.

Traduzem uma interioridade intangível dos personagens sem as artimanhas do melodrama, do psicologismo ou do realismo psicológico. Mesmo distantes (ou ausentes?) das temáticas centrais destas duas obras-primas do “documentário” brasileiro, cabe aqui, pela es­pe­cificidade do nosso trabalho, uma menção às questões de saúde que aparecem nos filmes.

Longe deles qualquer forma de psicologismo, mais ainda de biologização da vida social ou de uma com­preensão grosseira da subjetividade. Assim, o que faço aqui é trazer o contraponto da psi­cologia e da psiquiatria preparadas pelo mercado para responder às suas demandas, com o reducionismo esperado, em opo­sição ao modelo psicossocial, an­ti­manicomial, democrático, compreensivo e relacional.

Os indígenas Iracema e Cara­piru, caso precisassem dos consultórios do modelo biomédico, disparariam os gatilhos de tratamento do alcoolismo e da depressão, respectivamente, com seus fortes aparatos medicamentosos, terapias cognitivo-comportamentais, ou até internações manicomiais.

Eles preencheriam os critérios diagnósticos para estas “doenças”, em que, conforme dizem, os fatores psicológicos, etnográficos, so­ci­ais e antropológicos podem até in­flu­enciar no início do problema, mas, definitivamente, são doenças ce­rebrais crônicas e por isto devem ser submetidas às duras terapias bio­lógicas, que nestes dois casos de­veriam ser tomadas como um ver­dadeiro suplício pela cegueira da descontextualização.

Num momento em que psiquiatras e psicólogos são chamados para a discussão dos graves pro­blemas do abuso de drogas e sui­cídio entre os indígenas, os dois filmes, aparentemente tocando de leve estas questões, podem nos ajudar a compreender estes sofrimentos porque, em última análise, buscaram a questão indígena e a relação com a nossa civilização, mas lograram alcançar a condição humana.

Como diz Manuela Carneiro da Cu­nha, em “O Futuro da Questão In­dígena”, “as populações indígenas encontram-se hoje onde a predação e a espoliação permitiu que fi­cassem”. “O Turista no Es­pe­lho” lida com esta questão, na con­fluência do confronto entre a rea­lidade brutal dessas minorias e o poder. l

Lourival Belém Jr é documentarista, psiquiatra do SUS e membro do Coletivo Liberdade e do Fórum Goiano de Saúde Mental

 

SERVIÇO

O turista no espelho
Diretor: Lourival Belém Jr.
Exibição: IV Fronteira – Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental
Data: 20 de abril de 2018 às 17h30
Local: Cinemas Lumiére Banana Shopping

Deixe um comentário