Clarice Lispector em claros, escuros e sombras

Os caras moravam numa cidade tropical, bonita por natureza, tinham o sol, a praia, o chope, a malemolência e, aos sábados, Clarice Lispector

Luciano Alberto de Castro

Especial para o Jornal Opção

Ler Clarice Lispector é um soco no estômago. Uso aqui a mesma expressão com que ela definiu a vida. Como admirador, tenho a leitura clariceana como uma aventura, uma viagem encantadora e imprescindível; mas entendo que alguns leitores a considerem difícil. O texto de Clarice não é linear; intriga, desafia, incomoda, e por tudo isso, não é fácil. O texto é metáfora da vida.

Conheci pouco da Clarice ficcionista, sua face mais notável, e bem sei que, para além de “A Hora da Estrela” e alguns contos, há infindáveis mistérios e deslumbramentos. Deixa estar, que eu ainda chego perto daquele coração selvagem. Por hora, quero tricotar com vocês sobre a incursão de Clarice pela crônica de jornal.

Entre 1967 e 1973, Clarice assinou uma coluna semanal no “Jornal do Brasil”. Para a democracia, aqueles foram anos de chumbo, ferro e outros metais menos nobres. Para a literatura, foram anos de ouro. Nesses seis anos como colunista, a autora saiu da pele dos seus personagens e se mostrou (quase) inteira. A Clarice, antes discreta e distante, revelava sua intimidade e se dava a conhecer por meio de crônicas, entrevistas, pensamentos e anotações. Que sortudos eram aqueles cariocas. Os caras moravam numa cidade tropical, bonita por natureza, tinham o sol, a praia, o chope, a malemolência e, aos sábados, Clarice Lispector. Que ótimo repertório para amenizar a opressão.

Toda a produção de Clarice para o “JB” foi reunida no livro “A Descoberta do Mundo”, lançado pela Editora Rocco em 1984. Nele temos uma Clarice vivaz, personalíssima, que, inclusive, subverte a costumeira suavidade da crônica. Aliás, nada em Clarice é suave. Tudo é intenso. Por vezes, ela ensaiava um tom mais casual falando sobre as amendoeiras da sua rua ou sobre o mar do Leme, mas logo retomava o menu principal: o abstrato, o etéreo, o desconhecido. O JB foi parceiro da arte quando deu liberdade à escritora. Na sua velha Olympia portátil, fiel confidente de madrugadas insones, Clarice registrou seus voos existenciais. Seria um pecado cortar-lhe as asas.

Clarice Lispector: no livro, tudo é vivaz, personalíssimo, subvertendo a costumeira suavidade da crônica; aliás, na escritora, nada é suave | Foto: Reprodução

Clarice não descobriu, mas aceitou a obscuridade do mundo. Clarice não gostava da resposta, e sim da pergunta. Ela não queria a descoberta, e sim a procura

Nas crônicas e outros escritos, Clarice destrinchava o inquietante dualismo vida-morte. Espantoso como o tema é tratado de forma tão honesta, profunda e complexa. Embora ela negasse ser hermética, complexidade era uma marca de Clarice. Decodificar “o ovo e a galinha”, por exemplo, é um exercício estéril; nem ela mesmo a entendia. Pra mim, é metalinguagem. Ela gostava do indecifrável. E mais, sugeria que amássemos a dúvida, o vazio, a incompletude. Além da afeição pelo silêncio, Clarice falava que a dor, a tristeza e a solidão não eram fatalidades, mas acontecimentos naturais que também deveriam ser amados. Existir significava doer, ferir-se, sangrar. Pra rebater a crueza da vida, recomendava dois antídotos: o amor e a morte. Amar era essencial (ser amado, talvez). Morrer era refrigério, acalanto pra vida sofrida.

“A Descoberta do Mundo” é uma joia, só não gosto do título. Entendo-o como mal-empregado porque ele transmite a falsa impressão de que, depois de tanto desmontar-se e reconstruir-se, Clarice enfim descobriria o mundo. Isso não é verdade: Clarice não descobriu, mas aceitou a obscuridade do mundo. Clarice não gostava da resposta, e sim da pergunta. Ela não queria a descoberta, e sim a procura.

Luciano Alberto de Castro é escritor e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). É colaborador do Jornal Opção.

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