A jornada natural de qualquer vanguarda é a busca pelo novo. Através de experimentações ou ressignificações radicais, posicionar-se à frente de uma forma de arte é guiá-la a partir de elementos não antes explorados. Mas e quando tal radicalidade é centrada na recuperação dos mais clássicos e canônicos representantes de distintas artes? Dono de uma intrigante carreira, o cineasta catalão Albert Serra é um autor cuja magnitude é fruto do conjunto de seus métodos com suas referências. Indo desde Andy Warhol até o casal de cineastas franceses Jean-Marie Straub e Danielle Huillet, o realizador vem consolidando-se como uma das mais singulares vozes do cinema contemporâneo.

Serra é, também, um dos principais definidores da estética das câmeras digitais na Sétima Arte. Para além da redução de custos e democratização do fazer cinematográfico apresentados por tais aparelhos, o cineasta aproveita-se da textura do digital para moldar um cinema essencialmente iconoclasta quanto ao que se convenciona como clássico e belo. Se seu Honra de Cavalaria é centrado na desdramatização do clássico Dom Quixote, e Canto dos Pássaros no vagar da jornada dos Três Reis Magos rumo ao nascimento de Cristo, a tessitura da imagem digital ajuda a inserir tais narrativas míticas em uma dimensão mais mundana, esvaziada de um teor de adoração para com sua carga histórica.

É em História da Minha Morte, de 2013, entretanto, que seu cinema chega ao ápice. Centrado nas aventuras de um envelhecido Casanova e seu eventual embate com Conde Drácula, o realizador leva-nos rumo a um zeitgeist de choque entre racionalismo e romantismo no final do século XVIII. Desde expressionistas planos diurnos a lúgubres composições noturnas, Serra nos insere em diálogos triviais repletos de uma pompa histórica que ressaltam a inevitabilidade da morte e da chegada da noite e de seus prazeres, e cada orgulhosa pomposidade de Casanova é um fortíssimo elemento de retomada desse destino. O peso de seus atos, desde um mastigar de biscoitos até seduções carnais, em contrapartida para com os recortes espaciais que ressaltam sua pequenez diante do cotidiano, isola essa figura em seu próprio retrato histórico.

Tudo só é possível também graças a um conjunto de práticas presentes no cinema de Albert Serra que levam-no a classificar seus próprios filmes como “incriticáveis”, em especial graças ao esvaziamento das narrativas tradicionais, bem como a recusa do uso de atores profissionais. É nesse ponto em que o estreante Vicenç Altaió é brilhante como Casanova, em especial nos momentos em que seus trejeitos afloram e dão uma dimensão humana e decadente à representação do mito. Nessa questão, o cinema de Serra dá um novo passo em Pacifiction, centrado no cotidiano de um alto funcionário francês no Taiti e definido pela Cahiers du Cinéma, revista fundamental da Sétima Arte, como o melhor filme de 2022, na forma como o experiente e excelente Benoît Magimel é utilizado. Ainda que já houvesse utilizado profissionais anteriormente, como Jean-Pierre Leaud, na minha opinião o maior ator da história do cinema, no competente A Morte de Luís XIV, a relação diretor-ator é nova aqui.

Buscando a inspiração no clássico, o realizador centraliza a figura do ator em meio a um ambiente deslocado como uma forma de interagir com nativos estreantes na atuação. Nesse aspecto, há uma grandiloquência minimalista que remete ao que Rossellini fez com Ingrid Bergman em Stromboli, e as sequências em pleno Oceano Pacífico são dignas daquelas captadas pelo gênio italiano em sua obra. Há também um toque de Werner Herzog na medida em que o protagonista acaba por, em uma cólera colonizadora, escapar rumo ao oceano em busca de uma abstração inalcançável e substituída pela concretude do real, ainda que esse seja apenas um conjunto de paradisíacas paisagens e um Sol a se pôr sobre a égide de embates invisíveis que emolduram toda a dimensão da vida no Taiti.

Benoît Magimel em Pacifiction | Foto: Reprodução

Dessa forma, falar que Pacifiction é brilhante chega a ser redundante. É tão meticuloso e simbólico quanto ao que se tornou a política no século XXI que tratá-lo como qualquer coisa aquém de preciso é insuficiente. Trata-se de um vibrante e sombrio olhar sobre o pós-colonialismo e sua relação com a desterritorialização como um elemento de fuga que só perpetua os males da história fora do eixo ocidental, onde a política, descentralizada, torna-se monopolizada por fantoches. Assim, ao assimilar o que Brecht escreveu em sua peça A Vida de Galileu, que “infeliz é o povo que precisa de heróis”, Albert Serra constrói mais uma peça de uma filmografia subversiva através de decadentes figuras históricas do imaginário coletivo e mitológico da Europa, e parece atualizar o significado que o dramaturgo alemão deu a sua obra. Mais do que heróis, infeliz é o povo que precisa de mitos, e o Brasil é a prova viva da devastação que causam quando não são superados.


In Voluptas Mors é uma expressão do latim que se traduz em “no prazer, há morte”, é também o título da fotografia surrealista de Philippe Halsman e Salvador Dalí.