Após anos de muita espera e especulação, o filme ‘Bosque Selvagem’ (Wildwood) finalmente estreou nos cinemas brasileiros. E a primeira coisa que você precisa saber antes de ir assistir a essa produção é que ela é uma das mais belas, ricas, apaixonadas e competentes odes à incrível arte do stop motion.

O novo filme dos estúdios Laika – sim, aquele de ‘Coraline’ – é visualmente deslumbrante, uma verdadeira explosão de cores, formas, texturas e cenários que parecem ganhar vida diante dos olhos. Cada mínimo detalhe revela um trabalho artesanal impressionante, daqueles que nos fazem lembrar por que o cinema é, acima de tudo, arte.

Baseado no livro de Colin Meloy, o longa acompanha Prue McKeel, uma garota que tenta resgatar o irmão mais novo, Mac, que foi sequestrado por corvos e levado para um bosque misterioso, ou melhor, “impassável”, nos arredores de Portland, EUA. Ao lado do amigo Curtis, ela acaba entrando sem querer em um universo de criaturas fantásticas, animais falantes, disputas pelo poder e forças sombrias.

Mas quem for ao cinema esperando uma aventura sombria, porém leve, como ‘Coraline’, pode se decepcionar. ‘Bosque Selvagem’ não é exatamente um filme comfort. É, possivelmente, o trabalho mais intenso e profundo da Laika, um épico devastador sobre luto, poder e amor, que intenciona, e consegue, levar seus personagens e o espectador a lugares bastante desconfortáveis.

Cena de ‘Bosque Selvagem’ | Foto: Reprodução

Com mais de duas horas de duração e um ritmo frenético, o filme se aproxima muito mais de ‘As Crônicas de Nárnia’, tanto na forma quanto no conteúdo, do que do queridinho ‘Coraline’. Crianças que caem em um universo mágico, no meio de uma guerra do bem contra o mal e são ajudadas por criaturas mágicas não é exatamente uma novidade. Na cena da batalha, é quase impossível não olhar para a Governadora Viúva e não se lembrar da Feiticeira Branca.

É uma verdadeira jornada, com guerras, cabeças cortadas, magia das trevas, perdas e sacrifícios. Aqui, a fantasia não é só pra encantar, é também cruel, violenta e, por vezes, profundamente triste.

E mais atrativo nisso é que, por trás de toda a grandiosidade, existe uma história essencialmente humana. O luto, o desejo de poder e o amor, inclusive em suas formas mais destrutivas, movem uma história que vai além da divisão simplista entre bem e mal.

Leia-se: é impossível não voltar ao aspecto visual. A riqueza dos cenários, a expressividade dos personagens e a quantidade absurda de detalhes fazem de ‘Bosque Selvagem’ uma das experiências estéticas mais impressionantes da animação. Há algo de fascinante em saber que tudo aquilo foi construído e movimentado quadro a quadro, em um processo que exige uma paciência quase inimaginável.

‘Bosque Selvagem’ é um filme ambicioso, por vezes exaustivo, mas absolutamente extraordinário. E mais do que uma aventura fantástica, é uma obra de arte que, ainda mais em tempos de IA, valoriza o que há de melhor no cinema, que é a imaginação, o talento humano e a capacidade de transformar o impossível em algo que podemos ver e sentir.

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