“Bela Vingança”: o medo deles é a acusação. O delas é não voltar para casa
12 setembro 2026 às 20h36

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*Este texto contém spoilers
Bela Vingança, de 2020, da diretora Emerald Fennell, é um daqueles filmes que você não esquece. E também não fica sem opinião sobre. Ou ama, ou odeia. Normalmente, quem ama se identifica. Quem odeia, também.
É uma obra de vingança que desmonta uma das fantasias mais convenientes da masculinidade tóxica, a de que o perigo está sempre nos outros. Creio que foi Sartre que disse “O inferno são os outros”. Seus homens são educados, estudados, bem-sucedidos e, claro, convencidos de que são “caras legais”, até que uma mulher os obrigue a encarar aquilo que fazem quando acreditam que ninguém está olhando.
Cassie, brilhantemente interpretada por Carey Mulligan, vive assombrada pelo estupro de sua melhor amiga, Nina, na faculdade de medicina. Nina teve a vida destruída enquanto o agressor, os colegas e a instituição seguiram adiante. É assim que o sistema funciona no filme e, tantas vezes, fora dele, quando a vítima fica com o trauma e os outros ficam com o benefício da dúvida.
Fennell resume essa perversidade em uma troca absolutamente genial. Um homem diz que ser acusado de estupro é “o pior pesadelo de um cara”. Cassie rebate: “Você sabe qual é o pior pesadelo de uma mulher?”. A resposta, por óbvio, nem precisa ser dita. Enquanto homens temem ser acusados de estupro, mulheres temem ser estupradas e mortas por eles. Enquanto eles temem ter a reputação destruída, elas têm medo de não voltar para casa.

Outra cena brilhante é o confronto com a reitora, que relativiza a denúncia do estupro de Nina até Cassie mentir que deixou a filha dela, bêbada, em uma festa com universitários. O discurso cauteloso imediatamente vira pânico. Quando era Nina, havia dúvidas e versões a considerar; quando a possível vítima é filha da reitora, não existe mais hesitação porque ela sabe do que homens bêbados reunidos são capazes.
A excelente trilha sonora acompanha esse jogo com uma deliciosa ironia. Britney Spears e Paris Hilton dividem espaço com uma história de trauma e violência. A versão ameaçadora e de orquestra de “Toxic”, por exemplo, transforma o pop em suspense, enquanto “Stars Are Blind” embala a ilusão de que Cassie talvez consiga voltar a viver.
Praticamente tudo em Bela Vingança parece colorido demais para uma história tão amarga, e é proposital.
E então Fennell recusa a catarse: Cassie morre. A mulher inteligente, preparada e determinada acaba como tantas outras: assassinada por um homem que depois tenta apagar seu corpo e seguir a vida.
O final, porém, traz uma última piscadela da diretora. Cassie, envolvida em uma missão de justiça por Nina, sabia que poderia não voltar e deixou seu acerto de contas preparado. Morta, ainda consegue fazer a verdade chegar à polícia e impedir que tudo seja enterrado com ela.
Na vida real, mulheres como Nina e Cassie muitas vezes viram estatística enquanto seus algozes continuam vivendo.
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