Pensar em arte é, ainda que de forma excessivamente idealista e onírica, sonhar com láureas e em como estas refletem os sentidos de uma sociedade. Desde Andrei Tarkovski a muitos filósofos, o cinema é compreendido não só como uma manifestação cultural, mas também como um reflexo dos anseios daqueles que vivem em um corpo social. Assim, como compreender o prêmio cedido a Triângulo da Tristeza no Festival de Cannes em 2022?

Cineasta sueco que recentemente disse que “devemos recuperar o que há de bom no capitalismo”, Ruben Östlund produz um cinema que é fruto da alienação máxima que festivais podem proporcionar à sensibilidade de um artista. Quando, desde o princípio de uma carreira, há aclamação e paternalismo exagerados por parte de festivais em toda a Europa diante de uma filmografia que nada mais é que a reciclagem malfeita de tendências marcantes no cinema contemporâneo, como a assepsia do alemão Michael Haneke, é evidente que haverá uma escalada de aclamação inversamente proporcional à qualidade dos filmes. E, curiosamente, ambos fazem parte do seleto grupo de nomes a serem premiados mais de uma vez com a Palma de Ouro, premiação máxima do festival de Cannes. Marx já dizia que a história se repete, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Responsável por uma filmografia insossa onde o único trabalho realmente marcante, Force Majeure, por vezes parece um compilado de cenas virais do YouTube, Östlund recebeu sua primeira Palma por The Square, e a mais recente, em 2022, por Triângulo da Tristeza. Se no primeiro ele busca, através do constrangimento e do absurdo, fazer a mais rasa e cúmplice das críticas para a problemática indústria das galerias de arte, mirando em Eugene Ionescu e acertando nos piores episódios de The Office, o segundo é um completo desrespeito para quem busca, através da organização política, estabelecer uma mudança substancial na sociedade.

Há também o fato de que parecem realizados por alguém que nunca saiu das bolhas de altos circuitos para viver a realidade por sequer um dia. Lee Chang-Dong, mestre do cinema sul-coreano, já alertava para o potencial alienante dos festivais que não são verdadeiramente inclusivos quanto à participação popular em sua constituição, e Östlund é o exemplo perfeito. Sequer dá para chamá-lo de um dos enfant terribles de Cannes, como o são Kechiche, Dumont e Carax. Ruben é no máximo o filho engraçadão que, quando abre a boca para fazer algo além de piadas repetitivas, gera vergonha alheia involuntária, tornando-se alguém levado a sério demais sabe-se lá por quê.

Assim, Triângulo da Tristeza, sua estreia em língua inglesa, é consequência e síntese de tudo isso. Para além de uma sátira política que recorrentemente reforça tudo aquilo que critica, trabalha de forma constrangedora com estereótipos que estão à mercê de um desenvolvimento preguiçoso e centrado em uma dinâmica muito mais de aleatoriedade do que de cotidiano. Além disso, sua já conhecida assepsia no uso da forma cinematográfica gera uma bomba relógio ao relacionar-se com o conteúdo absurdista, onde tudo acaba sendo exatamente o oposto do almejado. E o que falar das citações errôneas e a esmo de nomes como Lênin e Reagan?

Há perceptíveis boas referências filosóficas aqui, como a dialética do escravo em Hegel e a luta de classes em Marx, assim como Force Majeure possuía boas referências humorísticas. Entretanto, graças ao tato de um rinoceronte por parte de seu realizador, todo o filme torna-se sintetizado perfeitamente na cena do desfile; despolitizante, alienante e reforçando uma ótica liberal de emancipação pelo consumo. E quando falta sensibilidade, que haja a mais rasteira das escatologias! Ele já fez pior e foi ovacionado, por que dessa vez seria diferente? Östlund parece muito mais apaixonado por aquilo que critica do que qualquer outra coisa, e há de se falar também no desenvolvimento de Abigail. Personagem latino-americana e funcionária da limpeza do cruzeiro, curiosamente, ao ser retratada por um cineasta europeu, torna-se um monstro em uma situação de sobrevivência, transformando todos os frágeis bilionários juntos com ela meras vítimas. Para coroar, o bom e velho racismo.

Dessa forma, Triângulo da Tristeza é realmente entristecedor, mas útil se encarado como um experimento de observação de uma pessoa completamente alienada. Por mais que tudo seja ofensivo para alguém que compreende que o mundo não irá se transformar de forma emancipatória através de uma thread de Twitter, a obra acaba sendo um perfeito exemplo do que se tornou a discussão política no século XXI. E como não poderia ser diferente, nas premiações estadunidenses, o filme também foi indicado às principais categorias do Oscar, entre as quais melhor filme. Assim, em minha próxima contribuição à coluna, comentarei sobre a outra face dessa tragédia, materializada nas indicações e favoritismo de Tudo em todo lugar ao mesmo tempo ao Oscar 2023. Até lá, caro leitor!