O melhor conselho que alguém pode receber antes de assistir a ‘A Criada’ é não procurar saber nada sobre o filme. Nem a história, nem as reviravoltas, nem o que acontece com seus personagens. Quanto menos se sabe, melhor. Dirigido por Park Chan-wook, o longa é construído como uma espécie de jogo com o espectador, em que cada resposta abre uma pergunta ainda maior e cada certeza dura pouco. É exatamente por isso que, entre todos os filmes que já assisti, A Criada é o meu favorito.

A história se passa na Coreia dos anos 1930, durante a ocupação japonesa, e acompanha Sook-hee, uma jovem que é contratada para trabalhar como criada de Hideko, uma rica herdeira japonesa que vive isolada em uma enorme propriedade. A princípio, parece que sabemos exatamente quem está enganando quem. Sook-hee tem uma missão, o homem que a colocou naquela casa tem seus próprios interesses e Hideko parece ser apenas uma mulher rica e ingênua cercada por pessoas que querem sua fortuna. Mas Park Chan-wook não está interessado em entregar uma história previsível.

O filme é dividido em partes, e essa escolha é fundamental para seu funcionamento. Cada mudança de perspectiva altera o significado do que vimos anteriormente. Uma cena que parecia completamente compreensível ganha outro sentido. Um personagem que parecia estar no controle revela uma fragilidade inesperada. Uma situação que parecia definitiva é desmontada minutos depois. E é aí que está o grande prazer de ‘A Criada’: ser obrigado a admitir que estava errado.

Poucos filmes conseguem fazer isso tantas vezes sem parecer que estão simplesmente tentando surpreender o público. Park Chan-wook esconde informações, mas deixa pistas espalhadas pelo caminho. Depois de conhecer toda a história, é possível retornar às cenas anteriores e perceber que a resposta estava diante dos nossos olhos.

Essa característica torna o filme especialmente recompensador em uma segunda sessão. Se na primeira vez a experiência é dominada pela curiosidade sobre o que vai acontecer, na segunda passamos a observar como o diretor construiu cada uma das revelações. Olhares que pareciam insignificantes ganham importância. Diálogos passam a ter outros significados. Gestos que pareciam banais se transformam em pistas. É quase como assistir a um novo filme usando as mesmas imagens.

Park Chan-wook também encontra na arquitetura da mansão uma extensão perfeita para esse jogo. A casa é enorme, elegante e cheia de espaços que parecem esconder alguma coisa. Portas, corredores, quartos e passagens criam uma sensação constante de que existe sempre algo acontecendo fora do campo de visão. Nada parece completamente seguro naquele lugar.

E a fotografia torna tudo ainda mais fascinante. ‘A Criada’ é visualmente exuberante, mas sua beleza nunca parece gratuita. Os enquadramentos, os movimentos de câmera e a composição dos ambientes ajudam a estabelecer relações de poder entre os personagens. A câmera sabe quando se aproximar, quando observar de longe e, principalmente, quando esconder alguma coisa.

As atuações acompanham essa precisão. Kim Tae-ri, em sua estreia no cinema, constrói uma Sook-hee inicialmente aparentemente ingênua, mas que vai revelando novas camadas conforme a história avança. Kim Min-hee, como Hideko, trabalha justamente com essa ambiguidade entre fragilidade e inteligência. A relação entre as duas é o eixo que sustenta boa parte da narrativa.

O que começa como uma história de interesse e manipulação acaba se transformando em uma relação muito mais complexa. Aos poucos, o filme deixa de ser apenas sobre golpes, dinheiro e segredos e passa a falar também sobre desejo e liberdade.

Há uma estrutura de poder muito clara entre os personagens. Homens acreditam possuir as mulheres, pessoas ricas acreditam possuir as pessoas pobres e todos parecem acreditar que podem controlar alguém. O interessante é perceber como essas relações começam a ruir quando Sook-hee e Hideko deixam de aceitar os papéis que foram determinados para elas.

Mesmo com tantas reviravoltas, Park Chan-wook nunca perde o controle do filme. Essa é talvez sua maior demonstração de habilidade. ‘A Criada’ poderia facilmente se transformar em uma sucessão de surpresas sem propósito, mas cada revelação modifica os personagens e empurra a história para um novo lugar.

Por isso, considero tão importante não conhecer previamente os acontecimentos. A experiência de assistir pela primeira vez é quase impossível de reproduzir. O suspense depende justamente daquela sensação de que qualquer coisa pode acontecer. E foi essa sensação que fez ‘A Criada’ se tornar meu filme favorito.

Não porque eu ache que exista um filme objetivamente melhor do que todos os outros, mas porque poucos me proporcionaram o mesmo prazer de estar completamente perdido dentro de uma história. Gosto de filmes que me fazem tentar descobrir o próximo passo, criar teorias e, alguns minutos depois, perceber que estava completamente errado. ‘A Criada’ faz isso repetidamente.

Talvez seja essa a grande qualidade do cinema de Park Chan-wook: ele não trata o espectador como alguém que precisa receber todas as respostas. Ele confia que podemos acompanhar a história, desconfiar dos personagens e montar nossas próprias interpretações. E, quando finalmente entendemos o que está acontecendo, percebemos que o filme estava brincando conosco desde o começo.

É raro encontrar uma obra capaz de surpreender mesmo depois que conhecemos sua história. A Criada consegue. E é justamente por isso que, se eu pudesse apagar a memória de um único filme para assisti-lo novamente pela primeira vez, seria este.

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