César Aira é um acontecimento na vida de um leitor viajante

De fácil leitura, o argentino faz pós-modernismo maduro enquanto reinventa paisagens mitológicas e a jornada de autodescobrimento

Com 90 novelas publicadas, um dos maiores expoentes da literatura argentina atual escolhe editoras pequenas, dispostas a circular histórias que, às vezes, têm vinte ou trinta páginas. Segundo César Aira em entrevista ao Louisiana Museum of Modern Art, uma das coisas que lhe atrai nesse modo de publicar é que muitos livros desaparecem do circuito comercial. Assim, ele seleciona leitores dedicados, dispostos a caçar narrativas perdidas, viajar atrás de artefatos fabulescos.

Aquele que se deparar com “Um Acontecimento na Vida do Pintor-Viajante” (2000, publicado no Brasil pela Nova Fronteira e traduzido por Paulo Andrade Lemos) terá exatamente essa impressão: de que cruzou com um imenso clássico perdido. Apesar de suas pequenas 127 páginas, Um Acontecimento tem todo o peso de um romance realista do século XIX e da tradição fantástica latino americana.

A novela narra acontecimentos ficcionais com personagens reais. A história alternativa contada é a viagem do pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858) à Argentina para retratar o novo mundo. Rugendas realmente esteve na América e viveu mais de uma década no Brasil, pintando fauna e flora e sociedade e cultura, produzindo mais de seis mil obras com valor antropológico, histórico e artístico. Embora as fronteiras entre criação e realidade sejam borradas, o ponto de partida da narrativa – a busca por uma forma de representar a essência do mundo – está preservada na correspondência de Rugendas com Alexander Von Humboldt.

Johann Moritz Rugendas (1802-1858). Ponte feita de cipós | Foto: Reprodução

Antes da invenção da câmera fotográfica, quando reinava o positivismo, a ideia de que um pintor poderia unir ciência e arte, observando simultaneamente todos os aspectos de um fenômeno e expressando-os na tela de forma inteligível num nível fundamental – esse era o ideal de um pintor de paisagens. O instrumentalismo da pintura e a ingenuidade de acreditar ser capaz de retratar o mundo caótico de uma forma que faça sentido representam o início do arco do protagonista.

Apesar do tema, o leitor não deve abordar a obra como filosofia densa. Um Acontecimento narra acontecimentos diretos de forma simples e objetiva. A economia de palavras e impressões é utilizada para compensar a profundidade, resultando em uma obra sutil e fácil de ser lida; por vezes até cômica. Aqui, o maior sucesso de César Aira é o equilíbrio alcançado – vida e arte expressadas com controle longamente treinado. A jornada do Rugendas ficcional é, desta forma, mais crível e imediata do que a do Rugendas verdadeiro.

Rugendas – O monte nevado visto da ladeira de Zapotlán | Foto: Reprodução

Imagine a coragem necessária para viajar a um lugar que seria outro planeta, para manter as proporções nos dias de hoje. E ainda por cima ter a disciplina de fazer pinturas da natureza e situações que, juntas, abarquem a essência daqueles lugares nunca antes vistos por europeus. O totalismo desejado pelo pintor o coloca em busca de uma nova forma de expressão, em que não apenas a perspectiva esteja correta, mas também o espírito do que é visto. Novamente, a grandiosidade do tema só se torna tolerável pela estética enxuta.

Rugendas atinge seu objetivo e inventa essa nova linguagem, mas o consegue a um preço alto. Enquanto cavalga pelos pampas argentinos, ele é atingido por um relâmpago e seu cavalo dispara, o arrastado por quilômetros em terreno rochoso. Desfigurado e sofrendo de dores terríveis, o pintor e seu colega Krause têm de voltar aos Andes para regressar à Europa. Ao retornar pelo caminho já percorrido, Rugendas revisita locais onde esteve e nota, sob efeito de novas experiências e da morfina, que pode perceber ângulos novos.

Rugendas – Capoeira, do livro Viagem Pitoresca pelo Brasil | Foto: Reprodução

A novela tem um subtexto metaficcional latente. Utilizado em excesso na literatura pós-contemporânea, esse recurso poderia facilmente soar arrogante, já que Rugendas encontra uma nova e genial forma de expressão. Mas isso nunca é trazido à luz da consciência, a não ser que o leitor queira trazê-lo. Graças a uma pesquisa (Aira confessou nunca pesquisar, com exceção desta vez) competente, o narrador fala especificamente da comunicação visual por meio da pintura, e jamais aparenta falar de si mesmo ou lembra ao leitor que está lendo um livro.

Entretanto, a busca do protagonista é pelo mundo flutuante que existe entre a mente do artista e a do receptor. Na entrevista citada no primeiro parágrafo, César Aira afirma que o gênero novela é apenas uma casca que abriga outra coisa – outro tipo de experimentação com a linguagem e com a invenção. Esse parece ser o mundo flutuante, quase tocado por Rugendas, quase descrito em Um Acontecimento, totalmente sentido pelo leitor, mas inominado e nunca abordado diretamente. O que o pintor alcança é uma forma de lubrificar a transmissão desse mundo entre artista e apreciador.

O Rugendas mitológico de Aira inventa o que cem anos depois seria chamado de surrealismo. De forma progressiva, a sensibilidade do pintor mostra eventos absurdos mas muito reais de uma América Latina semi-selvagem: o conflito tresloucado com os índios e o tédio cotidiano colonial. Colando junto os rascunhos a carvão, o pintor-viajante finalmente consegue abranger a alma argentina. O totalismo de Humboldt é alcançado de uma forma diversa do positivismo; ao invés de pretender saber tudo, o pintor apreende nada e imprime na tela o que vê diretamente como lhe impacta.

Diálogos internos estão excluídos da obra. Fluxos de consciência são completamente banidos. Dilemas imaginários são substituídos pela descrição de cenários que revelam o estado emocional dos personagens. Isso dá aos personagens tons lacônicos e densos e empresta ao meio características fantásticas. O conflito do auto-melhoramento através do sofrimento não é descrito por extenso, mas metaforicamente por:

Rugendas: Soldados argentinos sob ataque indígena | Foto: Reprodução

“As grandes marchas eram vigiadas por cumes de mica. Como tornar verossímeis esses panoramas? Havia lados demais, sobravam faces ao cubo. A contiguidade de vulcões produzia interiores de céu. Havia grandes estouros de crepúsculo ótico que o silêncio esticava. Em cada canto se desdobravam sóis de catapulta e de canhão. Sempre num silêncio de massas descomunais, campos cinzentos dependurados e postos a secar para sempre, e respiradouros da amplidão dos oceanos”.

A viagem que transforma os personagens é também uma viagem ao centro do fazer artístico, uma meditação sobre o ato de observar a realidade exterior para apresentar uma individualidade longamente trabalhada. César Aira, que afirmou na entrevista citada nunca falar de si mesmo por acreditar ter tido uma vida muito chata, parece ter encontrado uma forma diferente de contar sobre a busca que o motiva.

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