Cena no Jardim Zoológico

Lucas Ruiz

“Irina”, do designer e ilustrador Lucas Ruiz

Luana Borges
Especial para o Jornal Opção

Cheguei bem perto da zebra e a olhei. Como seriam seus olhos por entre o riscado do corpo?

Os olhos eram uma pergunta em meio ao preto e branco e branco e preto do pelo da pele. Eram duas poças d’água no meio do caminho riscado.

Se você andasse pelo corpo da zebra, ia tonteando entre um caminho e outro, entre uma listra e outra, ia se riscando de preto e branco até que chegasse a elas: às poças. Irremediavelmente, o espelho d’água faz parar o passo, faz olhar. Ninguém sai incólume ou sem se molhar, sem se mirar.

Os olhos eram a pergunta. Uma reflexão em meio ao amontoado de listras e traços. Os olhos eram uma tristeza. Eram uma dúvida. Uma dádiva. Eram úmidos e em torno tinha, exatamente, poeira de terra seca e vermelha no corpo da zebra. Os olhos empoeirados nos cílios e nas margens – dentro líquidos – eram lembranças da passada savana.

Os olhos tinham uma remela que era visgo puro de vida. Os olhos eram a fala. Eram a linguagem da zebra.

Os olhos eram “A Zebra”.

Olhei-os e me parei toda no caminho. Segui sem respostas, perdendo os traços demarcados, segui.

Tendo vivido. Tonta.

Apressei o passo e comprei duas pipocas. Uma doce, outra salgada. No jardim zoológico. Com esforço tremendo para esquecer, nada adiantava!, ainda me brotavam perguntas depois de ter mirado às poças: eram dóceis, mas choravam? ou gritavam entre as grades em preto e branco e segredavam doçura?

Pus na boca uma de doce, outra de sal. Mastiguei com caninos raivosos, apressados. Milhinho duro, maldito! Tentei esquecer e reestabelecer minha antiga ordem.

Luana Borges é jornalista e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás.

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