Musicista talentoso, o italiano Francesco Manfredini dedicou-se intensamente à música sacra, primeiro como violinista, depois como compositor. Escreveu oratórios e sinfonias, mas se notabilizou pela sua contribuição à música de câmara e, em particular, ao concerto grosso, modelo composicional muito prestigiado na era barroca

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Rafael Teodoro
Especial para o Jornal Opção

Sempre que se pensa na música barroca, o nome do alemão Johann Sebas­tian Bach (1685-1750) surge incontornavelmente. Outra figura referencial do período é a do italiano Antônio Lucio Vivaldi (1678-1741), muito lembrado pela sua obra monumental: “As Quatro Estações” (Le Qua­t­tro Stagioni). Ambos são gigantes da música erudita. E as obras que deixaram como testemunho de seu portentoso talento para a composição encontram-se entre o que de mais refinado o gênio humano foi capaz de produzir no mundo das artes.

Apesar disso, o barroco não se resume aos nomes de Bach e Vivaldi. Pelo contrário. Do ponto de vista histórico, a era barroca representou um período extremamente prolífero. Na música, em particular, o barroco assinalou o apogeu da música instrumental, a libertar-se definitivamente do protagonismo dos cantores, consectário de um movimento emancipatório que se iniciara nos idos do século 15.

Assim, os músicos barrocos tiveram a sensibilidade para perceber, de um lado, que os instrumentos poderiam concertar (reconhecimento da individualidade tímbrica) e, de outro, que poderiam agrupar-se em famílias. Daí começam a surgir as primeiras orquestras nas quais há predominância dos instrumentos de arco. O violino ganha destaque. Antes considerado instrumento marginal, sai das tabernas onde estava confinado desde o século 16, sobretudo beneficiado pelo aprimoramento das escolas de luteria italianas. É nesse período, por exemplo, que o luthier Antonio Stradivari (1644-1737) passa a construir seus célebres violinos Stradivarius — hoje objeto de cobiça pelos maiores violinistas do mundo. Também por essa época compositores respeitáveis, como Giovanni Legrenzi (1626-1690) e Arcangelo Corelli (1653-1713), passam a dedicar suas obras ao violino. De certa maneira, davam continuidade a um movimento composicional iniciado incipientemente por Claudio Monteverdi (1567-1643).

PAG_4Além disso, as formas instrumentais clássicas consolidam-se na era barroca. Fugas, suítes, sonatas, concertos, variações, sinfonias. Cada uma dessas formas adquire as características que as tornariam, dentro da teoria musical, distinguíveis. Supera-se, consequentemente, a confusão dos períodos anteriores, quando a atribuição do nome às peças era feita de maneira confusa, produto de uma terminologia imprecisa, muita vez ao talante do compositor.

Essas observações históricas estão a demonstrar a riqueza da era barroca para o desenvolvimento da música erudita. É claramente um equívoco reduzi-la à obra de Bach e Vivaldi. Não obstante a genialidade desses compositores, outros músicos do período têm mérito artístico. Exemplar­mente, na Alemanha, temos Syl­vius Leopold Weiss (1687-1750), Georg Friedrich Handel (1685-1759), Georg Phillipp Telemann (1681-1767), Johann Adolph Hasse (1699-1783), Johann Chris­to­ph Pachelbel (1653-1706), Die­trich Buxtehude (1637-1707); na Itália, Ales­sandro Scarlatti (1660-1725), Arcangelo Corelli (1653-1713), Antonio Caldara (1670-1736), Giacomo Carissimi (1605-1674); na França, Joseph Bodin de Boismortier (1689-1755), Jean-Phillippe Rameau (1682-1764), Marc-Antoine Charpentier (1643-1704), François Couperin (1668-1733); na Grã-Bretanha, Henry Purcell (1659-1695).

Pois bem. Entre os compositores barrocos que tiveram o brilho de seu talento ofuscado pela genialidade de seus contemporâneos Bach e Vivaldi, encontra-se também Francesco Onofrio Manfredini (1684-1762). Musicista talentoso, o italiano dedicou-se intensamente à música sacra, primeiro como violinista da orquestra da Igreja do Espírito Santo de Ferrara (Chiesa di Santo Spirito), depois como compositor. Escreveu oratórios e sinfonias, mas se notabilizou mesmo pela sua contribuição à música de câmara e, em particular, ao concerto grosso, modelo composicional muito prestigiado na era barroca, em face do contraste sonoro que proporcionava entre dois grupos instrumentais — um menor, formado por um pequeno grupo de solistas (concertino), com outro maior (o ripieno ou concerto grosso).

A obra mais famosa de Francesco Manfredini é o seu “Concerto para Natal” (Concerto Grosso Fatto Per La Notte Di Natale, Op. 3, No. 12). Composto em Dó maior, ainda hoje é um dos concerti grossi mais famosos, principalmente pela temática natalina que o inspira, tornando-o uma das mais belas peças do repertório erudito para o Natal.

É precisamente o “Concerto para Natal”, de Manfredini, que quero indicar ao leitor. Tecnica­mente, o concerto grosso está dividido em três andamentos: Pastorale (Largo), Largo e Allegro. Na gravação, datada de 1991, a Orquestra de Câmara Capella Istropolitana da Eslováquia, sob a regência do maestro Jaroslav Kreek, executa integralmente o “Concerto para Natal”, de Francesco Manfredini.

Quem ouvir o concerto, notará com facilidade a beleza da melodia. Apesar disso, a obra de Manfredini não tem a popularidade que merece junto ao grande público. Por isso, reputo sua audição imprescindível. Definitiva­mente, esta é uma obra que não pode cair no esquecimento de quem ama a arte e o Natal.

Rafael Teodoro é advogado e crítico de música e literatura.

via Revista Bula