Bakunin: agitador, internacionalista, libertário e antiautoritário

Teórico político russo, Mikhail Bakunin foi um dos principais expoentes do anarquismo no século 19. Além de seu legado político e filosófico, Bakunin tornou-se um símbolo do antiautoritarismo no mundo das ideias

Mikhail Bakunin, um dos principais expoentes do anarquismo e críticos do marxismo em seu caráter autoritário | Foto: Wikimedia Commons

Mikhail Bakunin, um dos principais expoentes do anarquismo e críticos do marxismo em seu caráter autoritário | Foto: Wikimedia Commons

Carlos Russo Jr.
Especial para o Jornal Opção.

Bakunin foi uma das mais importantes personagens revolucionárias do século 19. Cada minuto de vida dedicou-a em pró da liberdade e da luta pelo socialismo. Na juventude participou da esquerda hegeliana e, posteriormente, recebeu forte influência do anarquismo de Pierre-Joseph Proudhon. Membro da Primeira Internacional, Bakunin foi, depois de Karl Marx, uma dos mais influentes personagens do movimento internacional de trabalhadores no século 19. Esteve presente pessoalmente em cada evento revoltoso, em toda escaramuça por uma nova ordem social em praticamente todos os países da Europa, exceção feita aos 16 anos de prisão política, quatro dos quais acorrentado pelos tornozelos, pulsos e pescoço, numa masmorra czarista.

Mikhail Alexandrovich Bakunin nasceu no dia 18 de maio de 1814, em uma família rica e de linhagem nobre. Seu pai, que se identificava com o liberalismo europeu e com a Revolução Francesa, ofereceu aos filhos uma educação inicial baseada nesses ideais. No entanto, depois do levante “decembrista” e da repressão que se abateu sobre a parcela liberal da aristocracia, Alexander Bakunin, por medo, tornou-se um leal czarista e mandou Mikhail para São Peters­bur­go, para que seguisse carreira militar.

A displicência do jovem, entretanto, influenciado pelas ideias libertárias da infância, faria com fosse desligado rapidamente do Exército. Aos 21 anos, contrapondo-se ao projeto de vida paterno, mudou-se para Moscou com o objetivo de estudar filosofia. Bakunin engajou-se no estudo sistemático de filosofia idealista. Primeiro foi Kant, depois progrediu para Schelling, Fichte, e Hegel. Tornou-se altamente influenciado pelo pensamento hegeliano e realizou a primeira tradução de parte da obra do grande filósofo idealista para o idioma russo. Durante esse pe­ríodo ele conheceu os socialistas Ale­xander Herzen e Nikolay Ogarev, com todos travou amizade para toda a vida.

Bakunin partiu para novos estudos acadêmicos em Berlim em 1840. Tomou parte de um coletivo de estudantes denominados de “a esquerda hegeliana” e terminou por unir-se ao movimento socialista. Em seu ensaio de 1842, “A Reação na Alemanha”, ele argumentava a favor da ação revolucionária da negação, resumida na frase “a paixão pela destruição é uma paixão criativa”.

Depois de três semestres em Berlim, Bakunin tinha abandonado a Universidade, devotando mais e mais do seu tempo à promoção da revolução. Devido à sua relação com o movimento revolucionário polaco, foi obrigado a mudar-se para Bruxelas, onde se encontrou com membros da Associação Interna­cional de Trabalhadores, da qual participavam Marx e Engels.

Pierre-Joseph Proudhon, o filósofo francês que influenciou o russo Mikhail Bakunin | Foto: Wikimedia Commons

Pierre-Joseph Proudhon, o filósofo francês que influenciou o russo Mikhail Bakunin | Foto: Wikimedia Commons

Em 1844, Bakunin foi a Paris, nessa época considerada a “Meca” das ideias socialistas e estabeleceu contato tanto com Marx e como com o anarquista Pierre-Joseph Proudhon. Este último lhe impressionou prontamente e com ele Bakunin estabeleceu fortes laços pessoais e ideológicos.

Tendo se tornado um dos referenciais da luta internacional dos trabalhadores, em dezembro de 1844, o imperador Nicolau lançou um decreto retirando todos os privilégios de Bakunin, destituindo-o de seu título de nobre bem como de quaisquer direitos civis, confiscando suas posses na Rússia, e condenando-o à prisão na Sibéria para o resto da vida, caso as autoridades russas alguma vez conseguissem pegá-lo. Do dia para noite, um “barin” rico, porém revolucionário, fora transformado em um pobre imigrado e com ordem prisão e de degredo.

Bakunin respondeu ao decreto com uma longa carta “La Réforme”, denunciando o imperador como um déspota e fazendo um chamado à democratização da Rússia. Concla­mou por uma aliança entre a população russa e a polonesa em prol do “colapso definitivo do despotismo na Rússia”. Em consequência deste chamado foi expulso da França e fugiu para Bruxelas. Uma vez em Bruxelas, Bakunin restabeleceu contato com poloneses revolucionários e voltou a se encontrar com Karl Marx. Em um encontro organizado por Joachim Lelewel em fevereiro de 1848, ele realizou um discurso profético sobre o grande futuro reservado aos eslavos, cujo destino era rejuvenescer a Europa Ocidental.

Uma vez em Berlim foi impedido pela polícia de chegar a Posen, onde estava acontecendo uma insurreição popular. À época, essa cidade fazia parte dos territórios poloneses tomados pela Prússia nas divisões da Polônia. Frente ao impedimento, partiu para Praga onde participou do Primeiro Congresso Pan-Eslávico. O Congresso foi seguido por uma insurreição malfadada, da qual também tomou parte.

Retornando a Breslau, ficou sabendo que Marx havia alegado publicamente que ele era um agente do imperialismo russo, graças a uma denúncia leviana de George Sand. Face à acusação, Bakunin exigiu que ela apresentasse provas. Marx se retrataria publicamente depois que a própria George Sand se confessou equivocada a respeito (aliás, não foram poucas as vezes em que essa senhora ainda se equivocaria sobre revolucionários).

No outono de 1848, Bakunin pu­bli­cou seu “Apelo aos Eslavos”, no qual propunha que os revolucionários eslavos se unissem com os revolucionários húngaros, italianos e alemães para derrubar as três maiores autocracias da Europa, o Im­pé­rio Russo, o Império Austro-Hún­ga­ro, e o Reino da Prússia. Até esse ano, Bakunin se autoproclamava co­munista e escrevia artigos no periódico “Schweitzerische Republikaner”.

Ele teve um papel de destaque no Le­vante de Maio de Dresden, em 1849, ajudando a organizar a defesa das barricadas contra as tropas prussianas, lado a lado com Richard Wag­ner e com o poeta Wilhelm Heine.

Bakunin seria feito prisioneiro pelos saxões em Chemnitz e trancafiado por 13 meses antes de ser condenado à morte pelo governo da Saxônia; uma vez que os governos da Rússia e Áustria também estavam atrás dele, sua sentença foi comutada para prisão perpétua. Em junho de 1850, ele foi enviado para as autoridades austríacas. Onze meses depois recebeu uma sentença de morte compulsória, que também seria comutada em prisão perpétua. Fi­nalmente, em maio de 1851, Bakunin foi entregue às autoridades russas.

Na Rússia, foi trancafiado na terrível prisão da Fortaleza de Pedro e Paulo. No início de sua sentença, um emissário do Imperador visitou Bakunin e comunicou-lhe que o Imperador requisitava uma confissão por escrito, esperando que a confissão pudesse beneficiar Bakunin espiritual e fisicamente. Uma vez que todos seus atos eram conhecidos, ele não possuía segredos a serem revelados, decidiu escrever em “Con­fissões” ao Imperador: “O senhor quer a minha confissão; mas precisa saber que um criminoso penitente não é obrigado a implicar ou revelar as ações de outrem. Guardo apenas a honra e a consciência de que jamais traí quem quer que tenha confiado em mim, e é por esse motivo que não lhe entregarei nenhum nome”.

A “Confissão” seria publicada muito posteriormente, após ser descoberta em meio aos arquivos imperiais. Este documento provou ser controverso e por diversas vezes foi analisado no contexto da literatura mundial (vide “O Homem Revol­tado” de Albert Camus, por exemplo).

Depois de três anos em uma pequena cela da Fortaleza, ele passaria outros quatro, de uma maneira ainda mais degradante. Foi trancafiado acorrentado nas masmorras subterrâneas do castelo de Shlisselburg. Foi acometido de escorbuto, com a perda de todos os dentes. Mais tarde, Bakunin diria que ele encontrou algum alento ao rememorar mentalmente a lenda de Prometeu acorrentado. Seu contínuo aprisionamento nessas condições fez com que ele implorasse ao irmão que lhe trouxesse veneno para que des­se um fim ao seu sofrimento. Esse, entretanto, negou-lhe o cianureto e com isso ganhou a humanidade.

Após a morte de Nicolau I, o novo imperador Alexandre II exigiu que o nome de Bakunin ficasse fora da lista de anistia. No entanto, em fevereiro de 1857, sua mãe fez um apelo que resultou na deportação do libertário ao exílio na cidade de Tomsk, na Sibéria Ocidental. Após um ano de sua chegada em Tomsk, Bakunin casou-se. Em agosto de 1858, recebeu uma importante visita que iria propiciar-lhe mais uma conspiração e, finalmente, a fuga para a liberdade: seu primo em segundo grau, o conde Nikolay Muravyov, governador-geral da Sibéria Ocidental.

Muravyov era liberal e Bakunin, enquanto parente, tornou-se seu primo favorito. Na primavera de 1859, Muravyov ajudou Bakunin com um emprego na Agência de Desenvolvimento de Amur o que permitiu que ele e sua companheira se mudassem para Irkutsk, a capital da Sibéria Oriental. Esta mudança possibilitou que Bakunin fizesse parte do círculo de discussões políticas centrado no quartel general da colônia de Muravyov. Neste ambiente emergiu a proposta para a criação de um “Estados Unidos da Sibéria”, independente da Rússia, seguindo o exemplo dos Estados Unidos.

O primo Muravyov, no entanto, seria forçado a se aposentar do cargo de governador-geral, em parte por sua conduta liberal, em parte pelo temor de que ele pudesse levar a Sibéria a um movimento de independência, sob a influência do indomável Bakunin.

Em junho de 1861, Bakunin deixou Irkutsk para supostamente tratar de negócios da companhia. No entanto, no porto de Olga, Bakunin conseguiu convencer o capitão americano da nau SS Vickery a levá-lo a bordo. Passou despercebido pela Marinha russa e fugiu.

Em agosto, chegou ao Japão. Lá, por um acaso, encontrou o poeta Wilhelm Heine, um dos camaradas de armas de Dresden. Deixou o Japão na sua companhia. Chegou a São Francisco e, via Panamá, alcançou Nova York, tudo isso em menos de um mês.

Tinha volúpia de reintegrar-se ao movimento revolucionário. Foi imediatamente a Londres para ver Herzen. No princípio da noite irrompeu na sala de jantar onde a família comia sopa. Seu cumprimento tornou-se famoso: “O quê! Você está sentado aí comendo ostras! Bem! Conte-me sobre as novidades. O que está acontecendo, e onde?!” Bakunin tornou a mergulhar no movimento revolucionário.

cult10Em 1860, enquanto ainda estava exilado em Irkutsk, Bakunin e seus associados políticos tinham se impressionado com Giuseppe Garibaldi e sua expedição à Sicília em nome de Vitor Emanuel II. Ele escreveu para Garibaldi em 1862: “Se você pudesse ver como eu vi o entusiasmo apaixonado de toda a cidade de Irkutsk, a capital da Sibéria Ocidental, frente às notícias de sua marcha triunfal através das terras do louco rei de Nápoles, você teria dito como eu disse que já não existem distâncias ou fronteiras”.

Bakunin deixou Londres em fins de 1863 chegando à Itália onde, pela primeira vez, se declarou anarquista e expôs suas ideias enquanto tal. Lá ele concebeu o plano de forjar uma organização secreta de revolucionários para levar à frente o trabalho de propaganda e preparar o proletariado e o lumpenproletariado para a ação direta. Recrutou italianos, franceses, escandinavos, e eslavos para uma Irmandade Internacional, a também chamada de Aliança dos Socialistas Revolucionários.

Em julho de 1866 Bakunin escrevia para Herzen e Ogarev sobre os bons resultados de seus esforços em relação aos últimos dois anos. Sua sociedade secreta possuía então membros na Suécia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Rússia e Polônia.

Durante o período de 1867 e 1868, respondendo ao chamado de Emile Acollas, Bakunin envolveu-se na Liga de Paz e Liberdade para a qual ele escreveu o longo ensaio “Federalismo, Socialismo, e Anti-Teísmo”. Nesse escrito ele defendia o socialismo federalista, baseado no trabalho de Proudhon. Apoiava a liberdade de associação e o direito de secessão para cada unidade da federação, mas enfatizava que essa liberdade deveria ocorrer conjuntamente com o socialismo já que: “Li­berdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é brutalidade e escravidão”.

Bakunin desempenhou um importante papel na Conferência de Genebra em setembro de 1867, e juntou-se ao Comitê Central. Participaram desta conferência em torno de 6 mil pessoas. Quando Bakunin se ergueu para falar, escutou: “Bakunin!” Era Garibaldi, que se levantou, avançou uns poucos passos e o abraçou. Este encontro solene de dois velhos e experientes guerreiros da revolução produziu uma impressão estonteante… todos se levantaram e houve um prolongado e entusiasmado bater de palmas.

Entre os anos de 1869 e 1870, esteve envolvido com o revolucionário russo Sergey Nechayev (personagem que inspiraria Dos­toiévski em “Os Demônios”) em um número significativo de projetos clandestinos. Em conjunto os dois teriam escrito os livretos “Palavras à Juventude — Prin­cípios da Revolução” e “Catecismo de um Revolucionário”, obras que são exemplares em seu maquiavelismo. De certa forma, coisa de que Bakunin iria se arrepender posteriormente, eles ousaram dissociar a revolução da amizade e do amor. “O revolucionário é um condenado, sem interesses nem sentimentos pessoais, nem sequer um nome que seja seu.” Tem apenas uma ideia, a revolução e já rompeu com todas as leis e o código moral do mundo instruído. “Tem que ser frio disposto a matar e a morrer, preparar-se para resistir à tortura, só poder sentir amizade por aqueles que servem a seus propósitos.”

No entanto, um pouco mais tarde, após Nechayev coordenar à morte de um estudante russo que não reconhecia nele a autoridade revolucionária, Bakunin rompe com o mesmo, “devido aos seus métodos sem honra”, como o próprio Bakunin posteriormente definiria. Desde então, autocriticamente, passa a criticar a ideia de Nechayev “de que todos os meios são justificáveis para atingir os fins revolucionários”.

No Congresso de Berna de 1868 ele e outros libertários se encontravam em minoria. Rom­peram com a Liga estabelecendo outra organização, a Aliança Internacional de Democracia Socialista que adotara o programa socialista revolucionário.

Bakunin participou da seção de Genebra da Primeira Internacional, na qual ele permaneceu muito ativo até sua expulsão por Karl Marx e seus seguidores, o que se daria no Congresso de Haia, em 1872. As discordâncias entre Bakunin e Marx ilustram a crescente divergência entre as seções “antiautoritárias” da Internacional que advogavam a ação e organização dos trabalhadores de forma a abolir o estado e o capitalismo, e as seções socialdemocratas, que sob a batuta de Marx defendiam a conquista do poder político pela classe operária.

Ainda que Bakunin aceitasse a análise de classe marxista e suas teorias econômicas relacionadas ao capitalismo, reconhecendo em Marx a sua genialidade, ele o considerava um arrogante, e dizia que “seus métodos poderiam comprometer a revolução social”. Criticava de forma efusiva o que chamava de “socialismo autoritário” e o conceito de “ditadura do proletariado”. “Se você pegar o mais ardente revolucionário, e investi-lo de poder absoluto, dentro de um ano ele seria pior que o próprio Czar.”

As palavras de Bakunin soam um tanto proféticas com relação aos acontecimentos do século 20: “Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário a partir do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”.

As seções expulsas da Primeira Internacional criaram seu próprio Congresso Internacional em Saint Imier. Agregando grupos libertários de vários países e importantes pensadores anarquistas — entre estes os irmãos Reclus, Kropotkin, e Errico Malatesta — esta organização internacional seria responsável por um novo fôlego na tradição antiautoritária, mutualista e de caráter descentralizado do anarquismo nas próximas décadas.

Em 1870 Bakunin atuou como articulador de um levante na cidade francesa de Lyon, chamando a população a se rebelar em resposta ao colapso do governo francês durante a Guerra Franco-Prus­siana, procurando transformar um conflito imperialista em revolução social. Este levante, que efetivamente fracassou, mostrou-se um importante precedente da Comu­na de Paris, com a qual compartilhou princípios e modelos. Em suas “Cartas para um Francês Sobre a Presente Crise”, ele defendeu uma aliança revolucionária entre a classe trabalhadora e o campesinato. “Precisamos difundir nossos princípios, não com palavras, mas com ações, esta é a mais popular, mais potente e mais irresistível forma de propaganda.”

Ele foi um forte incentivador da Comuna de Paris de 1871, que compreendeu como uma “rebelião contra o Estado e os privilégios de classe”. Bakunin elogiou os homens e mulheres que posteriormente ficaram conhecidos como “communards” por rejeitarem não só o Estado, mas também uma “ditadura revolucionária”.

Bakunin retirou-se para a cidade suíça de Lugano em 1873. Mesmo doente, com alguns estudantes e intelectuais funda uma editora na qual parte de seus livros são publicados sob o título de “Estadismo e Anarquia”. Bakunin ainda participaria no ano seguinte, 1874, de uma tentativa de revolta na cidade italiana de Bologna. Esta, ao fracassar, fez com que o velho revolucionário retornasse à Lugano, onde passou seus últimos anos. Em 1876, com a saúde muito deteriorada, Bakunin é levado por um amigo para um hospital em Berna. Lá encontrou seu fim, em 1 de julho de 1876.

Seu corpo foi enterrado no cemitério de Bremgarten. Seu túmulo é mantido graças às doações de um suíço anônimo, sendo visitado por anarquistas vindos de todo o mundo. Se­gundo o diretor, não é incomum que em algumas noites grupos de jovens entrem no cemitério e se reúnam para beber junto ao túmulo de Bakunin, de longe o mais visitado daquele cemitério.

Em sua perspectiva política, Bakunin rejeitou todos os sistemas de governo, fossem quais fossem os seus formatos. Questionou qualquer governabilidade baseada na escolha divina, bem como toda forma de autoridade externa, que fizesse prevalecer sobre as demais vontades a vontade de um soberano, ou de elites cuja ascensão pudesse ser favorecida pela implementação de um sufrágio universal. “A liberdade do homem consiste tão somente nisso: de que ele obedeça às leis da natureza às quais ele por si próprio reconhece enquanto tais, e não porque elas foram impostas externamente sobre ele por vontade exterior, humana ou divina, coletiva ou individual.”

De forma similar Bakunin rejeitou a noção de quaisquer posições ou classes privilegiadas, desde que esta é a peculiaridade do privilégio. “O homem privilegiado, seja ele privilegiado politicamente ou economicamente, é um homem depravado em intelecto e coração.”

Por “liberdade”, Bakunin não se referia a um ideal abstrato, mas a uma realidade concreta baseada na liberdade simétrica dos outros. Liberdade consiste no “desenvolvimento pleno de todas as faculdades e poderes de cada ser humano, pela educação, pelo treinamento científico, e pela prosperidade material”. Tal concepção de liberdade é “eminentemente social, porque só pode ser concretizada em sociedade,” não em isolamento. Em um sentido negativo, liberdade é “a revolta do indivíduo contra todo tipo de autoridade, divina, coletiva ou individual”. Ele também desenvolveu uma crítica ao marxismo, prevendo que se os marxistas tivessem êxito em ocupar o poder, eles iriam criar uma ditadura de partido “em tudo mais perigosa porque ela se apresentaria como uma falsa expressão da vontade do povo”.

Para Bakunin o conceito marxista de “ditadura do proletariado” era o principal equívoco da doutrina de Karl Marx | Foto: Wikimedia Commons

Para Bakunin o conceito marxista de “ditadura do proletariado” era o principal equívoco da doutrina de Karl Marx | Foto: Wikimedia Commons

A forma de socialismo que concebia era conhecida como “anarquismo coletivista”, condição na qual os trabalhadores poderiam administrar diretamente os meios de produção por meio de suas próprias associações produtivas. Assim haveria “modos igualitários de subsistência, fomento, educação e oportunidade para cada criança, menino ou menina, até a maturidade, e recursos e infraestrutura análoga na idade adulta para dar forma ao seu próprio bem estar através do próprio trabalho”.

Por federalismo, Bakunin entendia a organização da sociedade “da base até o topo, de acordo com os princípios de livre associação e federação”. A sociedade poderia ser organizada “com base na liberdade absoluta dos indivíduos, das associações produtivas, e das comunas,” com “todos os indivíduos, todas as associações, todas as comunas, todas as regiões, todas as nações” tendo “o direito absoluto da autodeterminação, de se associar ou não, aliar-se com quem quer que desejassem”.

“A ideia de Deus implica na abdicação da razão humana e da justiça; esta é a mais decisiva negação da liberdade humana, e necessariamente termina na escravidão da humanidade, na teoria e na prática.” Bakunin invertia o famoso aforismo de Voltaire de que se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo, afirmando que “se Deus realmente existisse, seria necessário aboli-lo”. Refutava a ideia religiosa do livre-arbítrio e defendia uma explicação material dos fenômenos naturais. A “missão da ciência é, por observação das relações gerais, compreender os fatos verídicos e estabelecer as leis gerais inerentes ao desenvolvimento de um fenômeno no mundo físico e social”.

Os argumentos de Bakunin se contrapunham aos ideais defendidos por um número considerável de marxistas, para os quais nem todas as revoluções precisariam necessariamente ser violentas. Do mesmo modo ele rejeitava o conceito marxista de “ditadura do proletariado”, que mantém o poder concentrado no Estado até a futura transição ao comunismo. Bakunin insistia que qualquer “elite iluminada” só deveria exercer influência discreta, jamais se impondo na forma de uma ditadura a outrem e nunca se aproveitando de quaisquer direitos oficiais, em termos de benefício ou significância.

Defendia que o Estado deveria ser imediatamente abolido após a revolução porque todas as formas de governo, eventualmente, levariam à opressão. “Nenhuma ditadura pode ter qualquer outro objetivo para além de sua autoperpetuação; ela pode apenas levar à escravidão o povo que tolerá-la; a liberdade só pode ser criada através da liberdade, isto é, por uma rebelião universal de parte das pessoas e organização livre das multidões de trabalhadores de baixo para cima.”

Apesar da oposição veemente à proposta marxista de revolução, ele considerava as análises econômicas apresentadas por Marx extremamente importantes, tanto que foi ele o primeiro tradutor do “O Capital” para o idioma russo.

cult11De seu exílio em Londres, Marx observava os movimentos do inquieto russo. Nas suas cartas, o teórico alemão descrevia Bakunin como um “intrigante” ou “esse maldito moscovita”. No entanto, quando escreveu sobre a insurreição de Dresden de 1848 afirmou que “no refugiado russo Michael Bakunin, eles (os rebeldes de Dresden) encontraram um líder capaz e de cabeça fresca”. Marx também escreveria em uma de suas cartas para Engels sobre o encontro que tivera com Bakunin em 1864, depois da fuga da Sibéria. “No geral ele é um dos poucos, penso eu, que não retrocedeu após estes 16 anos de prisão, pelo contrário, avançou ainda mais.”

Os métodos defendidos por Bakunin em seu programa revolucionário estavam em consonância com seus ideais, princípios e com sua própria vida. Os trabalhadores do campo e da cidade iriam se organizar em uma base federalista, “criando não só as ideias, mas também os fatos do futuro”. Os sindicatos e organizações operárias poderiam “tomar em sua posse todas as ferramentas de produção bem como prédios e recursos”. Os camponeses “ocupariam a terra e colocariam para fora aqueles senhores de terra que vivem do esforço de outros”.

Diversos acontecimentos políticos do século 20 tiveram grande influência das ideias de Bakunin. A insurreição anarquista de 1918, no Rio de Janeiro, é um dos exemplos. Comandada por Domingos Passos, negro, carpinteiro e operário, que ficou conhecido como “Bakunin brasileiro”, o apelido conferido a Domingos se deveu tanto à sua audácia e determinação em enfrentar o patronato, como pelos seus discursos marcados em igual medida pela agressividade e coerência.

A vida e a obra de Bakunin formataram a base do anarco-sindicalismo, de enorme importância nas conquistas dos trabalhadores até a primeira metade do século 20. Ainda influenciariam diversos movimentos nas últimas décadas do século e princípios do 21, como os grupos ambientalistas e aqueles que utilizam a tática de ação direta das “massas”. Movi­mentos cooperativistas, de ocupação e de reforma urbana, grupos e locais de trabalho de auto-gestão, também carregam em si o germe da ideologia anarquista e o pensamento célebre de Bakunin.

Para além de seu legado político e filosófico propriamente dito, Bakunin tornou-se ele próprio um símbolo do antiautoritarismo no mundo das ideias. Uma figura lendária que inspirou vários personagens literários ficcionais e lutadores sociais por mais de 100 anos, Bakunin segue sendo uma referência presente entre os anarquistas contemporâneos, dentre estes, o norte-americano Noam Chomsky.

Carlos Russo Jr. é escritor.

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Metaética

Boa noite. Eu li um livro onde o autor fazia uma distinção entre Bakunin e Marx e, em uma dessas distinções o autor dá a Bakunin o título de liberal. O autor era um Anarquista clássico. É correto denotar a Bakunin o título de liberal ou libertário? Ou será que houve uma transição semântica entre esses adjetivos?
Link.
https://metaeticasite.wordpress.com/2016/12/02/algumas-diferencas-entre-mikhail-bakunin-e-karl-marx/

Livro História das idéias e movimentos anarquistas – Vol.1 George Woodcock.