A autoria feminina na atual literatura brasileira

Toda mulher que empreende uma obra literária exerce sob o domínio da arte da escrita uma literatura feminina? Por que ainda hoje as resenhas literárias e as listas dos grandes prêmios divulgam mais escritores do sexo masculino?

Ana Paula Maia (40 anos): “Escrevo sobre os homens em sua essência mais bruta, mais primitiva. Eles trabalham para que a gente se sinta melhor. Meus personagens são o melhor de mim.” | Marcelo Correa

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Não é de hoje que as profissionais da arte literária são postas de lado, quase como seres secundários ou irrelevantes, na produção de grosso calibre da literatura brasileira. Mas há décadas, a coisa era bem pior.

Uma mulher no ambiente intelectual não era bem vista pelos olhos conservadores da sociedade, e quando inserida, mesmo que na marra, era tratada com certo menosprezo ou descaso por um majoritário grupo de intelectuais, como se a produção associada a uma figura feminina fosse restrita a uma qualidade inferior a de autores homens. Mentalidade acachapada evidentemente à delirante cultura do patriarcado, ainda presente em determinados discursos e atitudes do mundo pós-moderno.

O fato é que o cenário vem mudando. E, de lá pra cá, o número de autoras tem crescido consideravelmente nos catálogos das grandes, médias e pequenas casas editoriais do país.

Não temos hoje, como na década de 1990, uma única autora de livros policiais em potencial como Patrícia Melo e uma poeta de impacto avassalador como Adélia Prado. Inúmeros nomes trazem trabalhos excepcionais, que, aos poucos, vêm ganhando destaque no meio literário e nas premiações de grande relevância tanto no âmbito nacional quanto no internacional.

Atualmente, homens e mulheres leem com devoção o sucesso de crítica e público Elena Ferrante, da Itália, na mesma proporção que Knausgard, da Suécia. Mas ainda que muitas mulheres tenham contribuído de forma significativa a profundas transformações no campo literário, a maioria ainda parece condenada ao status de produzir uma literatura dita como feminina no sentido mais stricto do termo, ou seja, voltada restritivamente às problemáticas do universo feminino.

Não existe um grave problema pensar na questão de gênero formatada à produção de quem, de fato, a produz – neste caso, por uma mulher. Mas seria correto pensar desta forma? Toda mulher que empreende uma obra literária exerce sob o domínio da arte da escrita uma literatura feminina? E por que ainda hoje as resenhas literárias e as listas dos grandes prêmios divulgam mais escritores do sexo masculino? Falta de quantidade equivalente à produção de livros publicados por autores homens ou o contínuo círculo vicioso do patriarcado intelectual concomitante ao mercadológico?

Para Maria Valéria Rezende, autora do romance “Outros Cantos”, vencedor dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura, dois dos mais importantes do país, a experiência que ela e outras escritoras estão vivendo agora mostra que a desigualdade entre a presença das mulheres e dos homens brasileiros nos catálogos das grandes editoras é descabida, e como consequência disso, em algumas listas de finalistas de prêmios não é, como alguns alegam, devido ao fato de que as mulheres escrevem menos, ou apresentam uma escrita de menor qualidade. “Quando nos encontramos, em pequenos grupos, sempre minoritários na maioria dos eventos literários, em nossas conversas cada vez nos dávamos mais conta do quanto escrevemos e levantamos a hipótese de que éramos muito mais numerosas do que parece.”

Maria Valéria explica que, dessas conversas e inquietações, surgiu o movimento Mulherio das Letras. Tudo partiu através da internet, onde as escritoras foram adicionando outras que conheciam por meio das redes sociais. Em apenas dois meses, segundo a autora, o grupo já continha mais de cinco mil mulheres.

“De março para cá, esse movimento já se espalhou em vários estados ou cidades, com grupos que se organizaram espontaneamente, e já temos editadas e impressas três coletâneas geradas pelo movimento a ser lançadas no Encontro Nacional em João Pessoa: uma coletânea de poesia, com 59 autoras, uma coletânea de prosa com 99 autoras, ambas de várias regiões do Brasil, e mais uma coletânea de prosa e poesia das escritoras da Bahia. E muito mais teríamos se os prazos para conseguir fazer isso em tão pouco tempo não fosse de urgência!”, diz Maria Valéria.

A autora contextualiza que a produção desse coletivo trata de textos curtos, embora mostre com clareza que elas são muitas, especiais e múltiplas. “Trata-se de um arco-íris de autoras, temas, estilos, personagens, escritas. Elas mostram que a ‘literatura de autoria feminina’ só se pode dizer bem no plural ‘literaturas de autoria feminina’, um mundo a se explorar na sua riqueza, variedade, qualidade e um amplo futuro!”, define a autora.

Barreiras
A escritora e jornalista Marta Barcellos, que participa também do movimento Mulherio das Letras, acredita que as escritoras que já conseguiram alguma projeção no meio literário têm obrigação de militar pela causa da inserção das mulheres neste mercado.

Os números que foram apontados no primeiro encontro nacional, em João Pessoa, realizado em outubro de 2017, são extraordinários. “Fizemos um levantamento das resenhas publicadas em três dos veículos mais prestigiados no meio: ‘Folha de S. Paulo’, ‘Rascunho’ e ‘Suplemento Pernambuco’. Em 2016, foram resenhados 255 livros de autores homens e apenas 123 de autoras. Menos da metade. Quer dizer, a mulher tem metade do espaço destinado às obras dos homens”, observa Marta.

Esse primeiro diagnóstico aponta que as escritoras vão enfrentando muitas barreiras pelo caminho, não porque escrevam menos, em quantidade, ou que a qualidade seja pior, como declara Marta: “Elas têm mais dificuldade para publicar, para serem reconhecidas, para terem visibilidade. As instâncias de poder e legitimação ainda são dominadas pelos homens. Na crítica literária, por exemplo, os homens assinaram 65% das resenhas neste levantamento. No ‘Rascunho’, há nove colunistas homens e apenas uma mulher.”

A autora aponta outro dado relevante: “Em alguns concursos e prêmios, as especialistas mulheres são muito valorizadas para fazer o trabalho ‘pesado’, ler a pilha de manuscritos ou livros inscritos, como juradas iniciais. Mas depois, no júri final, ou na curadoria do prêmio, os homens são maioria”, ressalta.

A jornalista Joselia Aguiar, curadora pelo segundo ano consecutivo da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e responsável por modificar o formato do evento, a começar pela inserção maior de mulheres, negros e autores fora do mainstream literário, crê que a problemática envolvendo as mulheres na literatura tem a ver com o latente atraso da mentalidade de nossa cultura, relacionado à produção de ficcionistas e poetas do sexo feminino. “Ainda há muito chão pela frente. O que tem ocorrido de avanço ainda é pouco, em meio a muita coisa que continua do mesmo jeito. É impressionante como o Brasil ficou atrasado no debate sobre gênero, em comparação, por exemplo, a outros países da América Latina. Na comparação com a Europa, então, nem se fala.”

Joselia, que em 2018 escolheu homenagear Hilda Hilst no maior e mais influente evento de literatura do país, destaca o trabalho do grupo Leia Mulheres, que trata de um coletivo mensal onde leitores se reúnem para ler obras de escritoras de diferentes nacionalidades.

“Depois de 2014, com o movimento Leia Mulheres, que é mundial e chegou aqui, cresceu o ativismo nas redes sociais. Está sendo mais possível criar grupos de discussão, e assim surgiu o Mulherio das Letras, que terá um encontro em outubro com leitoras, escritoras e pesquisadoras. Nas universidades têm ocorrido eventos grandes”, diz Joselia.

Mesmo com um olhar otimista, a curadora da FLIP não deixa de apontar que as mulheres continuam ofuscadas pela indústria cultural, ganhando mais espaço em segmentos menores e independentes. “De algum modo, há interesse de empresas da área editorial para lançar livros para essas leitoras. Mas os veículos de nicho e independentes é que têm acompanhado com mais interesse, e mesmo de modo construtivo. A grande imprensa tem reagido a isso tudo ainda com descrédito ou tentando apontar ‘excessos’.”

A escritora Paulliny Gualberto Tort comenta que os estereótipos femininos continuam circundando o olhar do sistema referente à produção realizada pelas mulheres. “É comum esperar de uma mulher que ela escreva sobre amenidades. Assim como na vida social, a premissa é que somos incapazes de força. Portanto, nossa escrita seria inferior a dos homens; eles, sim, seriam tenazes o bastante para produzir textos que geram interesse.”

Relevância e espaço
Fazendo uma breve cartografia do passado, no que tange a relevância das mulheres no universo das letras pelo mundo, poderíamos citar a neozelandesa Katherine Mansfield e a britânica Virginia Woolf, como duas das principais prosadoras da literatura de língua inglesa da primeira metade do século 20; como na França, Marguerite Duras, com a sua prosa lírica e intelectualizada. Sem nos esquecermos de Jane Austen, as irmãs Charlotte e Emily Brontë, Mary Shelley, Gertrude Stein, Doris Lessing e Florbela Espanca, tão lidas e contempladas ainda nos dias de hoje.

Já na produção literária nacional, não podemos nos esquecer de Clarice Lispector, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Ana Cristina Cesar, nomes de excelência dentro do campo da prosa e da poesia brasileira.

Carolina Maria de Jesus é outro grande nome que virou um marco editorial da década de 1960, sendo uma das primeiras mulheres negras a inserir a figura do pobre e do marginalizado na literatura, através do relato autobiográfico “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”. Hilda Hilst e Elvira Vigna também se destacam com obras literárias ousadas e de qualidade, que desafiam a própria questão do fazer literário e os desvãos dialógicos da narrativa.

Em pesquisa de 2014, a escritora Ieda Magri, professora de Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), buscou fazer um mapeamento dos escritores em atividade no Brasil, e percebeu que dos 500 autores mapeados apenas 70 mantinham alta visibilidade. Entre os 70, apenas 10 eram mulheres. Embora a escritora evidencie mudanças de lá pra cá, com prêmios literários apontando excelência em nomes femininos, outro ponto parece nevoar – a resistência pelo novo.

“O que acontece é que há uma preguiça na leitura de novos escritores que ainda não alcançaram a visibilidade que os escritores já conhecidos têm, na maioria das vezes por atuarem nos jornais de grande circulação como críticos, resenhistas ou jornalistas paralelamente às suas carreiras de escritores”, aponta Ieda.

“É toda uma estrutura social que exige que as mulheres, além de escrever, precisem lutar pelo seu reconhecimento como escritoras. Mas a briga pela visibilidade é de todos os que procuram um público maior que seu círculo de amigos. Os escritores precisam exercer muitos papéis, desde sempre”, afirma a autora.

A escritora Natalia Borges Polesso, autora do premiado livro de contos “Amora”, verifica que muitas pessoas têm produzido, porém essa diversificação fica apenas visível para quem pesquisa ou para quem é mais interessado na literatura. “Para que essa produção chegue ao grande público ainda é preciso um esforço imenso de pesquisadoras, das editoras, dos júris de concurso, dos professores em instituições, dos livreiros que escolhem o que entra nas livrarias. Senão, essa produção não circula.”

Natalia acredita ser importante militar pelo protagonismo da mulher nos espaços literários. “Acho que esse movimento de ‘denúncia’ na tomada dos espaços onde não estávamos presentes – ou a ‘reivindicação’ de um lugar de fala, de um lugar de produção, de protagonismo – é, sim, necessário para que essa desigualdade diminua.”

Lugar de fala
Não mais passivas à condição restrita de leitoras de folhetim dos séculos 18 e 19, muitas mulheres trouxeram reformas e novos caminhos estilísticos e de dimensão psicológica tanto na poesia quanto na prosa, ausente do espectro rosa-chiclete zombado pela alfaiataria dos homens.

Aliás, foi Virginia Woolf, autora de clássicos como “Mrs. Dalloway”, “Orlando” e “As Ondas”, que, muito ligada às questões feministas referentes ao papel da mulher na sociedade em sua época, sobretudo no âmbito intelectual, produziu um dos ensaios mais interessantes sobre o ofício da mulher na arte da escrita. “Um Teto Todo Seu” foi o resultado de suas conferências nas Universidades de Newham e Girton, em 1928. Para Woolf autonomia (social e econômica) seria a base fundamental para uma autora exercer a profissão em sua mais absoluta completude.

Para a poeta Marília Garcia, é preciso dar mais espaço para a produção feita por mulheres, sobretudo para “multiplicar os discursos e formas”, embora não por achar que exista algo como uma “poesia feminina”, o lugar de fala da mulher está no próprio texto. “É claro que o fato de ser mulher está presente no que escrevo – mas também o fato de escrever português, de estar no lugar onde estou, de ter lido os autores que li etc. Acho que no fim das contas o que deveria contar eram o próprio poema e essas camadas que citei (escrever em português, ser mulher, estar aqui hoje etc.)”, diz.

“Como o meio literário sempre foi lugar de fala de homens, podemos supor que exista menos multiplicidade de lugares de fala, mas acho que é preciso tentar ler os textos e encontrar nos próprios textos essa multiplicação dos discursos”, completa Marília.

Ana Paula Maia, um dos grandes destaques da cena literária contemporânea, parece não se interessar muito pelo tema. Ao contrário, está mais voltada ao universo de seus personagens. “Sento, escrevo minhas histórias, a editora publica e a vida segue. É simples assim. Só me enxergo como escritora dentro do meu fazer literário, fora dele, não existo como escritora.

Não escrevo para falar de mim, escrevo para contar as histórias que me interessam”, afirma.
Ana Paula é um exemplo de escritora que foge de qualquer jargão muitas vezes imposto ao caráter temático da mulher que produz literatura: “Escrevo sobre os homens em sua essência mais bruta, mais primitiva. As profissões são importantes, porque trato de trabalhadores cujas profissões são insalubres e necessárias para a ordem das coisas. Eles fazem o trabalho sujo dos outros. Eles se movem nas sombras. Eles trabalham para que a gente se sinta melhor. Meus personagens são o melhor de mim.”

A escritora Paula Fábrio parte da premissa de que a mulher precisa assumir seu protagonismo na literatura, e relata sua experiência atual dentro do círculo literário brasileiro. “Como escritora, tenho que me desdobrar para participar de festivais literários e disputar espaço na mídia com os homens. Por exemplo, um curador que realizava um trabalho comigo chegou a listar professores para um curso de escrita, ele conseguiu elaborar uma lista somente com homens, tive que chamar sua atenção, isso porque é um homem jovem, que nos afazeres da casa divide as tarefas com a mulher.”

Paula ainda chama a atenção para outra questão dentro do universo das mulheres que escrevem: “A condição da mulher negra, pelo que tenho acompanhado e me parece óbvio devido ao racismo de nosso país, é mais difícil ainda. Há muito o que fazer, estamos só no começo”, avalia.

Atualmente, uma das responsáveis por divulgar a literatura brasileira contemporânea no exterior, sobretudo no Reino Unido, através da livraria virtual Capitolina Books, a escritora Nara Vidal, acha que ainda existe uma resistência maior de entrega entre os leitores, com relação ao trabalho de autores do sexo feminino. “Tenho a impotente sensação, algumas vezes, de não ter a menor chance de ser levada a sério através do trabalho que tento realizar.

E isso nada tem a ver com o meu estilo de escrita ou o gosto dos outros por determinada literatura. Isso tem, em grande parte, a ver com uma atitude muito profunda dos leitores que não se entregam à literatura feita por mulheres da mesma maneira que se entregam àquela feita por homens.”

E se interroga: “Talvez devêssemos ocultar nomes de autores das capas para termos uma igual chance? Mas aí, eliminamos o resultado de todo um trabalho e uma batalha travada ao longo de séculos.”

A escritora Carola Saavedra, atenta ao cenário das mulheres na literatura brasileira, adverte: “Precisamos abrir mais espaços para as mulheres, precisamos ler mais mulheres, tratar com respeito os seus trabalhos, valorizá-los. E quando me refiro a valorizar me refiro também a como as mulheres são lidas, porque, na verdade, continua valendo o velho clichê: se o homem escreve sobre o amor, ele está falando de um sentimento universal, mas se a mulher escreve sobre o amor, ela está falando de um sentimento feminino.”

Para Maria Valéria Rezende, o domínio das mulheres na literatura sempre foi um perigo para os homens: “Mulheres escrevem, sempre escreveram e tantas vezes, por tantos séculos, tiveram de esconder seus manuscritos! Mulheres que escrevem, podem ser um perigo! “Elas perturbam”, já diziam membros da Academia Brasileira de Letras no início dos anos 1970, quando ainda se discutia uma possível mudança nos estatutos daquela casa para permitir a entrada de mulheres!

E conclui: “Parece haver uma resistente mentalidade sobre ‘o que deve ser a boa literatura’ que exclui a priori as mulheres… Ou talvez se trate simplesmente de garantir uma cômoda ‘reserva de mercado’. Mas creio que essa era está no fim.”

Márwio Câmara é escritor, jornalista e crítico literário, autor de “Solidão e Outras Companhias” (Editora Oito e Meio)

Breviário da composição – escritoras comentam seu ofício

Ocupando um espaço proporcionalmente maior na literatura brasileira do que suas predecessoras, autoras contemporâneas brasileiras de prosa e de poesia comentam sobre literatura, linguagem e o grau de mobilidade do cânone

Andrea Zamorano (1969), prosadora: “A discussão sobre o cânone é redundante, uma vez que ele é hegemonicamente masculino. Daí a importância de privilegiar a “autoria feminina”, entendendo-a não como “literatura feminina”, mas antes como um movimento para dar espaço às artistas contemporâneas, ao mesmo tempo resgatando e reconhecendo o trabalho das escritoras que ao longo da história foram sendo obliteradas da literatura.”

Bruna Mitrano (1985), poeta: “Ser mulher e poeta é uma afronta, porque ‘ter a palavra’ é um sintoma de liberdade. Quando a mulher pode dizer, e é sempre uma questão de poder, ela incomoda a elite intelectual marcadamente masculina. É nesse momento de incômodo que a poeta é colocada à prova. Ela não tem o privilégio de esquecer que é mulher. E digo isso pensando no básico do corpo, ou seja, em como esse corpo, que é o próprio Ser, se adapta ao contexto da escrita contemporânea.”

Cristina Judar (1971), jornalista e prosadora: “Ouvi recentemente, de um amigo editor, que o número de autoras que enviam originais para avaliação é bem menor que o de escritores. Por outro lado, quem está por dentro da organização do Mulherio das Letras, por exemplo, sabe que há mulheres escritoras espalhadas por todo o Brasil. Muitas, de verdade. E como dar voz e oportunidades, se não a todas, mas a grande parte dessas escritoras? Como fazer que cheguem à publicação? Essas são reflexões que cabem a todos nós que estamos envolvidos, das mais diferentes formas, com o meio literário.”

Luciana Hidalgo (1965), prosadora: “Não que eu defenda ‘cotas’ obrigatórias para escritoras. Peço apenas um pouco de bom senso e um olhar mais generoso em relação à diversidade num país como o Brasil. Precisamos todos, em todas as instâncias do livro (editores, livreiros, jornalistas que cobrem literatura etc.), estar mais atentos à escrita das mulheres, dos negros, dos índios, bem como de todos os que escrevem fora do eixo Rio-São Paulo e das grandes editoras.”

Paula Bajer (1962), prosadora: “Escritoras se sobressaem com muito esforço. Mas isso está mudando, e o movimento por uma identidade feminina – ou ainda não predominantemente masculina – só avança. Como escritora, não posso deixar de reconhecer que estou nesse contexto. Não me preocupo em ser militante e sustentar qualquer versão feminina da escrita. Mas sou mulher, e tenho personagens femininas que recebem influências de séculos de discriminação e acabam lidando com isso na vida.”

Sheyla Smanioto (1990), prosadora: “Nós mulheres escritoras precisamos de dados e porcentagens na ponta da língua, precisamos dominar os conceitos com os quais nos atacam, entender as vontades, as intenções de quem exige a comprovação como se estivéssemos apresentando um absurdo, para – muitas vezes – ouvir ao final: ‘mas você está muito na defensiva!’. Como leitora, leio mais mulheres até o final. As escritoras contemporâneas estão quebrando tudo.”

Simone Campos (1983), prosadora: “Mesmo na editora grande, vejo coisas como mulheres fortes tendo de lutar para não ter capas rosas em seus livros e recebendo menor valor de adiantamento que escritores homens em situação de carreira similar, por obras similares. Vejo isso acontecer direto, em todas as áreas. Jornalistas excelentes continuando como subordinadas a chefes homens, muitas vezes incompetentes. É o chamado teto de vidro, que nos barra a ascensão na carreira. Desconfiança de entregar poder à mulher.” (MC)

Nathalie Lourenço (1984), prosadora: “Quando o nome de uma mulher está na capa, parece que se esperam algumas coisas. Delicadeza, lirismo, sentimentos. Nós nem sempre cabemos dentro desse quadrado. Nós também podemos, queremos e vamos tratar de sujeira, humor e violência. Ou de qualquer outra coisa que quisermos. Temos muito a dizer sobre tudo, não só sobre o íntimo e o sentimental.”

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Caio Borrillo

“Não temos hoje, como na década de 1990, uma única autora de livros policiais em potencial como Patrícia Melo” OI?? Andrea Killmore, pela DarkSide é o que??

Márwio Câmara

Caro, você entendeu o que foi escrito neste parágrafo? Eu acho que não. Pois bem, está dizendo que hoje em dia existem inúmeras autoras de livros policiais com grande potencial, diferente dos anos 90. A autora que você citou veio depois de Patrícia Melo. Obrigado pela leitura!